domingo, 23 de dezembro de 2012

Editoria Estranha Semelhança com a Utopia

É possível uma sociedade sem prisões?



Jefferson Lee de Souza Ruiz*

Eis uma pergunta que, há tempos, não quer calar em minhas reflexões. Tenho acompanhado debates diversos acerca de como lidamos com o tema.

Num deles, em ótima contribuição, o professor Ignácio Cano, da UERJ, provocou os presentes a um debate a pensar se realmente somos contra uma "sociedade penal" (ou um "Estado penal"). Pena, dizia ele, faz parte de nossas vidas. Pensemos em como agimos quando uma criança "faz birra". Ou quando um aluno não produz o necessário em um semestre, ou mesmo faz "cópia e colagem" na internet para os trabalhos que entrega a seus professores. Ou, ainda, quando alguém fere o código de ética de uma determinada profissão, trazendo prejuízos a quem recebe os serviços prestados por aquele profissional. Podemos dar outros nomes, mas definimos "penas" a serem impostas ou cumpridas por estas pessoas.

Mas há uma distância enorme entre pena e prisão. Parece-me que esta, inequivocamente, é uma associação muito perversa, que não contribui para pensarmos o que há por detrás do discurso que alimenta a ampliação do sistema prisional mundo afora. No mundo todo tem crescido a defesa de um "Estado prisional" - já denunciado por diversos militantes e pesquisadores, como o colega Marcelo Freixo, com dados a respeito que chegaram ao filme Tropa de Elite 2.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Editoria Equipe Mídia e Questão Social

Jovens negros continuam sendo as maiores vítimas da violência letal no Brasil
Documentário relata vida de uma destas vítimas 


Em 2010 morreram 49.932 pessoas no Brasil por homicídio. 26,2 pessoas a cada 100 mil habitantes. 70,6% delas eram negras. 53,5%, jovens entre 15 e 29 anos.

Estes, e outros dados, foram colhidos do DataSUS (estatísticas desenvolvidas a partir das realidades vivenciadas pelo Sistema Único de Saúde no país) e pelo Mapa da Violência 2011. Contam de artigo produzido por Paulo Ramos, especialista em análise política e mestrando em sociologia (a íntegra foi publicada pela Carta Capital e pode ser consultada em http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-violencia-contra-jovens-negros-no-brasil/).

Republicamos, abaixo, entrevista sobre um documentário que retrata a vida de uma destas vítimas. Sabotage, o "Maestro do Canão" (localizada na capital do Estado de São Paulo), teve sua vida interrompida por quatro tiros em 2003. Para Ivan Vale Ferreira (diretor do filme que será lançado em 2013), trata-se de uma perda do porte das de Cássia Eller e Chico Science para a música brasileira.

sábado, 17 de novembro de 2012

Editoria Web@Tecno

UMA QUASE CERTEZA PARA MUITOS : A VELHICE


Foto: Google


                                                            "Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?"
Friedrich Nietzsche

Nelma Espíndola*

Uma frase criada recentemente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) diz: "O importante não é dar anos à vida, mas sim vida aos anos". E a traduz como sendo importante não a longevidade mais a qualidade de vida. Um quesito que nem sempre é alcançado pela massa de velhos das camadas populares no Brasil e no mundo.

Li há pouco tempo na Revista Época, um artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, publicado em 20/02/2012, com um título que chamou minha atenção - Me chamem de velha / A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem. Através dele, faz uma reflexão muito interessante sobre o uso da palavra "idoso" ao invés de "velho", a troca do termo "velhice" por "terceira idade" ou "melhor idade". Este último eufemismo é o pior de todos, segundo ela. Quer que a chamem de velha, quando as rugas se fizerem presentes em seu rosto, mesmo que isto signifique a proximidade da morte, pois "quer viver sua morte". Não quer que a morte lhe seja roubada, apesar de ser uma realidade "duríssima", pois isto significaria o "sequestro da velhice". 

Brum acha que a palavra "idoso" é uma palavra "photoshopada, ou quem sabe, um "lifting" completo foi feito na palavra "velho". Concordei, de imediato,com suas interessantes e espirituosas considerações, e farei de tudo para não mais usar a palavra idoso, mesmo que seja utilizada por muitos estudos técnicos.

Outro aspecto curioso em sua argumentação é quando ela alerta para a "domestificação da velhice pela linguagem" na atual conjuntura. Basta pensar no culto da eterna juventude, em que se pretende nascer e morrer adolescente, porque esta é a lógica disseminada pela ditadura da beleza, alimentada  através do consumismo. Nesse new world, a cosmetodologia, a plástica e a estética são as protagonistas da vida de quem quer fugir da velhice, à medida que se aproxima essa fase da vida. 
  
Compartilho a mesma expectativa da escritora: quero viver minha velhice, embora não seja uma etapa fácil. É dura, difícil mesmo, mas faz parte da existência de quem a alcança.  Sabemos de relatos de violência, discriminação, desprezo e desrespeito na vida de muitos velhos. Negação de todos os seus direitos é, muitas vezes, um fato incontestável, pura falta de desumanidade praticada pelos que esquecem que um dia serão velhos também.

Tenho a consciência de que a solidão pode ser uma certeza na velhice. Daí penso no que Gabriel García Marquez disse: "O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão".

Simone de Beauvoir, em seu livro A Velhice (1970), trouxe a reflexão que quando não se respeita uma pessoa, em sua integridade emocional, intelectual e material, ela é excluída da sociedade pelos governos, instituições, famílias e pessoas em geral. Os grupos mais excluídos são, em geral, as crianças e os "velhos".

A velhice é o desfecho de uma trajetória , com seus encantamentos e experiências, a qual pode nos trazer a sabedoria de maiores acertos. A paciência torna-se uma lição, quando a espera é necessária para melhores escolhas. A grande questão é que, quando somos "jovens", o  ímpeto de viver não dá espaço e tempo para se ouvir a "experiência" e dela tirar o que se tem de melhor. Penso que estão certos os indianos e japoneses, que dedicam aos que chegam à velhice toda a valorização e cultivo aos seus saberes e vivências. São eles os indivíduos mais importantes da família.

Vemos  ainda como pode ser saborosa a opção de descompromisso que se pode usufruir na velhice, aquela de não necessariamente termos mais que levar a vida com tanto rigor. Podemos vê-la assim mais pelo lado do humor do que pela tragédia. Talvez  este meu pensamento esteja imbricado de uma realidade pouco comum. Mas tive ao meu lado uma Vó, como ela mesma se definia, "positiva", no sentido de dizer sem pudor o que pensava, associada a uma constante dose de humor, que sempre me fez vê-la à frente de seu tempo. Além disso, tenho muito próximo a mim uma turma entre os 80, 70 e 60 anos, com a qual me deleito, pelo que cada um que dela faz parte traz, em si mesmo, e me oferece ora com prazer ora com impaciência, mas, sobretudo, com o respeito ofertado mutuamente. Já estou próxima dos 50 anos e devo confessar que me surpreendo muitas vezes, quando me deparo com os que  vi crianças e hoje, são adultos, pais e mães. Vejo que o tempo se vai, sem volta... Passa... passa...

Mais um ano está por terminar e a capacidade de persistir por mais dez anos na maturidade vai se fazendo uma nova forma de determinação na minha vida. Com prazer saboreio esta esperança, já fazendo minhas tiradas de humor com o que já não faço mais com a mesma rapidez e perspicácia de vinte anos atrás. Sinto-me feliz, porém, porque ainda sonho! E muito!

Posso morrer de repente, mas há a grande possibilidade de me tornar uma velha, em 2025, engrossando a projeção de que nesta década o Brasil será o sexto país mais envelhecido do mundo, conforme informa a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) e Vice-presidente do Conselho Nacional do Idoso, Ana Amélia Camarano, com base nos resultados do Censo 2000. Em seu livro Os Novos Idosos Brasileiros - Muito Além dos 60?, Camarano traçou um perfil dessa nova velha geração.

Por isto, não resisto e exercito a provocação de Eliana Brum, fazendo minhas suas palavras: "Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição".


MAIS É PRECISO QUE SE DIGA:
O mundo terá mais de 1 bilhão de "idosos" , daqui há dez anos, diz a ONU



Em reportagem da BBC Brasil, focalizou-se um relatório de uma agência da ONU  com previsões sobre o perfil demográfico global, que reflete o aumento da expectativa de vida em diversos países do mundo. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês) sinaliza que a tendência é que os (idosos) "velhos" constituam em breve maior número que os jovens. E aponta que já em 2000, esta população no estágio da velhice superou pela primeira vez o número de crianças com idade inferior a cinco anos. Sua previsão é de que, em 2050, o número de pessoas com mais de 60 anos vá superar também a população de jovens com menos de 15 anos.

A UNFPA sinaliza que o envelhecimento da população será mais perceptível em países emergentes. A estimativa é de que 66% da população acima dos 60 anos vivam em países em desenvolvimento. Em 2050, esta proporção subirá para 80%. A agência da ONU diz que o aumento da expectativa de vida no planeta é "motivo de celebração", mas destaca que "as implicações sociais e econômicas deste fenômeno são profundas, estendendo-se para muito além do idoso e sua família". O desafio será encontrar políticas públicas para lidar com o envelhecimento desta população nas próximas quatro décadas. A previsão é de que no Brasil este número de envelhecidos triplique de hoje até 2050, passando de 21 a 64 milhões. A partir dessas previsões, os 10% de pessoas mais velhas existentes hoje na população brasileira, em 2050, passaria para 29%.

O relatório sugere a adoção de novas políticas, estratégias, planos e leis específicas para os mais velhos. Ao contrário do que se pensa, há a constatação de que 47% dos homens acima dos 60 anos e 23,4% das mulheres na mesma faixa etária participam da força de trabalho, contribuindo ou, por vezes, sustentando suas famílias. Em países como o Brasil, México, Estados Unidos e Uruguai, essa contribuição financeira dada pelas pessoas mais velhas, segundo a UNFPA, é essencialmente maior do que a que eles recebem.

Qual será a realidade a ser vivenciada, quando as condições físicas não mais os deixarem integrar a força de trabalho? Apenas um terço dos países do mundo, que somam 28% da população mundial, dispõe de planos de proteção social para esta população.


O Brasil, o jovem país velho



A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Mia Couto


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou, com base no resultado da Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílio (PNAD) de 2011, que a questão previdenciária também é apontada como o principal problema decorrente do envelhecimento. No olhar do geriatra Fernando Bignardi, coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento da UNIFESP, todo o processo de cálculo de aposentadoria foi previsto para pessoas com até 70 anos. Hoje, vive-se mais, o que proporciona, segundo ele, um "furo no cálculo" desse benefício. É preciso garantir uma renda mínima para as pessoas que envelhecem. Outro  problema  apontado por ele é que a medicina tradicional não se preparou para atender os (idosos) velhos, pois a cada diagnóstico, um tratamento é dado, o que faz ser comum, para cada um deles a prescrição de 80 cápsulas de medicamentos por dia.

A OMS e a ONU adotam o seguinte critério biológico para classificar o envelhecimento:

- Meia idade = 45 a 59 anos;

- Idoso = 60 a 74 anos;

- Velho = 75 a 89 anos; e

- Muito velho = acima dos 90 anos.

O geriata Paulo Camiz, professor da Faculdade de Medicina  da USP, ressalta que faltam programas de prevenção da saúde e quando se chega à velhice, a condição de saúde é muito ruim. Chama a atenção sobre a necessidade de se criar um trabalho educacional amplo, para que o Brasil atinja esse estágio, de forma que as pessoas velhas não sejam mais vistas como "estorvos".


O Dia do Idoso, no Brasil: 01 de outubro




A ONU desde 1982 vem se posicionando na abordagem dessa fase de "transição do processo demográfico único e irreversível", que é o envelhecimento da população mundial, devido à diminuição das taxas de fertilidade. Em 1982 foi convocada a primeira Assembleia Mundial das Nações Unidas sobre o Envelhecimento, sendo a segunda realizada em 2002. Em 1991, Assembleia Geral adotou o Princípio das Nações Unidas em Favor das Pessoas Idosas, com a enumeração de 18 princípios, dentre eles: a independência, participação, cuidado, autorrealização e dignidade. De acordo com o Plano de Ação, em reunião na Conferência Internacional sobre o Envelhecimento, no ano de 1992, foi adotada a Proclamação do Envelhecimento. Seguindo a recomendação da Conferência, a Assembleia Geral da ONU declarou em 1999,  Ano Internacional do Idoso, o dia 1º de Outubro como o seu dia. O objetivo foi chamar a atenção do mundo para o envelhecimento da população e criar mecanismos para garantir o amadurecimento saudável e digno das pessoas com mais de 60 anos. O Brasil seguiu esse propósito, criando o Dia Nacional do Idoso.


Visibilidade das Políticas Públicas



De acordo com o envelhecimento da população brasileira, os investimentos em benefícios assistenciais vão crescendo. Atualmente, há uma oferta de atendimento nos equipamentos de proteção social básica e especial, para os velhos que se encontram em situação de vulnerabilidade ou sofrem violações de direitos.

Mas sabe-se que, conforme a realidade nacional, é preciso haver uma implementação de políticas públicas que atendam às demandas desse segmento por saúde, previdência e assistência social, com base nas prerrogativas da Constituição Federal de 1988 e da LOAS, que ensejou a Política Nacional de Assistência Social e aponta o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), como aquele que deverá unir para garantir, a universalização de direitos à proteção social fundada na cidadania.

É preciso olhar o envelhecimento, em sua complexidade e heterogeneidade, pois este  comporta distintas questões de gênero, classe social, religião e etnia. Segundo dados do Censo 2010, vai se confirmando a tendência da "feminização" da velhice, pois em números absolutos o registro é de 96 homens para cada 100 mulheres, sendo apenas a região norte do país a mais jovem em população, com maior número de mulheres para cada homem.

Hoje, mais de 1,7 milhão de pessoas acima dos 65 anos recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que é financiado pelo Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome (MDS). O BPC garante o valor de um salário mínimo às pessoas com deficiência e pessoas idosas, com renda familiar abaixo de um quarto do salário mínimo, que não recebem aposentadoria, ou outro benefício, exceto a saúde. Anualmente, o MDS investe R$ 27,5 bilhões no pagamento do BPC para quase 4 milhões de brasileiros, somando idosos e pessoas com deficiência. Já o Programa Bolsa Família é pago atualmente a 824.512 pessoas idosas.
Ampliação de serviços – Além de garantir renda e outros benefícios às pessoas idosas, o MDS também tem ampliado continuamente o atendimento aos maiores de 60 anos que estejam em situação de vulnerabilidade ou sofram negligência, maus tratos, abusos, violência física e psicológica ou qualquer outro tipo de violação de direitos.
Vicente de Paula Faleiros, professor da UnB e da Pontifícia Universidade Católica de Brasília, destaca dois momentos importantes no Brasil no trato da população na fase da velhice. O primeiro em 1994 com a criação do Conselho Nacional do Idoso, seguido pela aprovação do Estatuto do Idoso, em 2003. Este último trouxe o referencial para a criação das políticas públicas voltadas para esta população e a dimensão de seus direitos. 
Faleiros avalia ainda a necessidade de se investir no "envelhecimento ativo" dessas pessoas, e o aumento do nível de comprometimento dos gestores. Ele acredita que "estamos na direção correta". “É preciso que as cidades promovam a participação e atividades voltadas para a pessoa idosa”, diz.
Deixo aqui a minha homenagem e respeito a todos os velhos, com os quais convivo, àqueles que encontro casualmente nas ruas, nos ônibus e no cotidiano da minha vida. E agradeço cada sorriso largo que recebo de cada rosto marcado pela vida.
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* Nelma Espíndola – é assistente social, webmaster do Blog Mídia e Questão Social, atua como assessora da Presidência  do PREVINIL / ANEPREM.

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ARTIGOS

- "Me chamem de velha" - Eliane Brum - Revista Época, 20/02/2012.
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html     
- "Sociedade – A nova velha geração" - Revista Desafios do desenvolvimento, 32ª Edição, mar/2007.
- ONU EM AÇÃO
- "Em dez anos, mundo terá mais de 1 bilhão de idosos", diz ONU

VÍDEO

- Reflexões sobre o Idoso - Vlog do Fernando

MÚSICA

É / O que é o que é - Gonzaguinha
http://www.youtube.com/watch?v=SlcHRLNfQ9g  

“Sapato Velho” – Roupa Nova

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta

DESAPEGO –  A última lição de Saramago




« Volto as costas ao mar que já entendo
A minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço ».

JOSÉ SARAMAGO


Mione Sales*

Vou começar essa crônica em homenagem ao escritor português José Saramago (1922-2010), que, em 16 de novembro, completaria 90 anos, por uma espécie de mea culpa, admitindo que as aparências, de fato, muitas vezes nos enganam. Certa vez, uma colega de docência no Rio de Janeiro, me escreveu carinhosamente em uma dedicatória do seu livro para eu ser menos arisca. Fiquei refletindo longo tempo sobre o que ela quisera dizer, embora estivesse segura de que era sobretudo discrição de minha parte o que ela não via ou não estava acostumada. Com o passar dos anos, porém, assumi meu lado índio (tenho um pezinho lá no Amazonas): com todas as suas doçuras e ingenuidades, abertura ao outro, mas também com um instinto de defesa quase selvagem. Por vezes, isso é bom, pois serve de bússola e permite que nos afastemos de pessoas que realmente não valem a pena. Noutras, contudo, pode adiar belos encontros. 


De ilhas vulcânicas, transatlânticos e unanimidade


O escritor em Lanzarote

Incluo esse pequeno fato, a título de prólogo, para confessar que, como muitos dos seus leitores, até bem pouco tempo atrás, conhecia José Saramago apenas superficialmente. Se meu respeito por sua figura era imenso, havia qualquer coisa em mim que discretamente a ele resistia. Reservas contra qualquer tipo de colonialismo cultural à parte, Saramago era, porém, incontestavelmente, um intelectual completo, um dos maiores expoentes das Letras Portuguesas, aquele cuja obra foi agraciada com o Prêmio Nobel em 1998. Saramago pertence, assim, às hostes dos monstros sagrados da literatura. Com isso, não pretendo estar dizendo nada de novo ou original. Mas a admiração, por vezes, é semelhante à sensação de alguém num pequeno bote inflável frente a um transatlântico. Díficil transpor. Difícil acessar. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Editoria Caleidoscópio Baiano


Vida ao profeta do semiárido !



Claudia Correia*

O falecimento no último dia 9, do bispo emérito da Diocese de Juazeiro, D.José Rodrigues,me transportou para os anos 80, quando tive o privilégio de conhecê-lo. Fiquei impressionada com aquele homem de aparência frágil, destemido, defensor intransigente dos direitos humanos e leal aos princípios da Teologia da Libertação. Leonardo Boff, em recente artigo no blog leonardoboff.wordpress.com, chamou o “bispo dos excluídos” de “profeta do semiárido”. Por 28 anos ele conduziu com firmeza a Diocese de Juazeiro e enfrentou o poder das elites políticas, desafiando um sistema econômico excludente e desumano. Em 1975 quando chegou na região apoiou  72 mil pessoas relocadas com as obras da barragem de Sobradinho.

Lembro que levei meu filho Theo em Juazeiro para conhecê-lo e fotografei o muro de sua casa que foi invadida e pichada com a frase “Morte ao bispo comunista”. As forças políticas do atraso governavam nossa Bahia com a subserviência de prefeitos nomeados , mas D.José não tinha medo da morte, acreditava na vida com tanto entusiasmo que seus discursos na mídia e nas missas nos encorajavam a lutar pela justiça social e pela democracia. Para ele os meios de comunicação eram um dos instrumentos de transformação social por isso incentivava o protagonismo popular em experiências com rádios comunitárias, cartilhas. A senadora Lídice da Mata lembrou em discurso de homenagem que D. José foi pioneiro em criar um Setor Diocesano da Comunicação Audiovisual com uma biblioteca com 45 mil volumes e que foi membro da Associação Baiana de Imprensa. Por sua valiosa contribuição social, ele recebeu por seis anos seguidos o Troféu Mandacaru de Ouro, criado por jornalistas baianos para homenagear personalidades de destaque nas áreas política,religiosa,econômica, artística e cultural.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Editoria O Efeito Quixote

Atenção, trabalhadores em GREVE!!!

DESCULPE O TRANSTORNO: LUTAR É UM DIREITO

Arte: Tarsila do Amaral

Leandro Rocha*

Há cerca de 2 meses, foi iniciada uma greve dos servidores públicos federais que perpassou searas como as políticas de saúde e educação.

Serviços de extrema importância, como hospitais e universidades fecharam suas portas e/ou restringiram seus atendimentos. Ruas e avenidas foram fechadas por manifestantes em protestos que, segundo as emissoras de TV, geraram  “transtornos aos trabalhadores que tentam chegar aos seus locais de trabalho e que não têm nada a ver com isso!”. Mas será que estes transtornos são gerados pelos grevistas e pela greve por si só?



É lógico e óbvio que as ações de greve incidem e têm impacto direto no cotidiano da população. Este, inclusive, é o seu objetivo!


Tais ações visam chamar a atenção da população para as determinantes da greve, tais como a precarização e extinção dos serviços públicos, a privatização dos mesmos, o ataque às condições de trabalho das categorias profissionais inseridas nestes serviços, o afunilamento do “gargalo” de acesso da população a estes serviços, entre tantas outras questões.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Editoria Web@Tecno


A CIDADE MORENA
Campo Grande, Mato Grosso do Sul

      Pôr do Sol no Lago do Parque das Nações Indígenas - Campo Grande/MS.

"O olhar
Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida."
 Manoel Barros


Do alto do avião vi aquela "Cidade Morena". O planalto se vislumbrava diante dos meus olhos. A terra roxa contrastava com o tapete verde claro, extenso, cheios de pontinhos brancos que ziguezagueavam por sobre ele, mostrando-se mais de perto lindos.

"BRED TO OKIE".


Não pensem que eu os conhecia, só a curiosidade daquela beleza me fez descobri-los!  

A minha percepção era de que o horizonte estava próximo... ao menos diante dos meus olhos. O sentimento que me invadiu naquele momento me fez viajar com Azimuth: "É aqui onde estou essa é minha estrada por onde eu vou. E quando eu cansar na linha do horizonte eu vou pousar."

E assim, fui nos intervalos das atividades, procurando perceber, conhecer e saber mais da beleza daquela cidade, de avenidas largas e arborizadas, com uma infraestrutura que espelha organização e planejamento, cujos princípios desse objetivo acabam trazendo como consequência qualidade de vida para os que ali moram. É uma das cidades que mais se desenvolve e cresce no Brasil. Estima-se que seu crescimento em 2012 seja de 7,5%, mesmo que a conjuntura socioeconômica de nosso país conte com uma projeção do PIB menor que 2%.

sábado, 7 de julho de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo da Volta

Mundo vasto mundo: acordes pra acordar!




Mione Sales*

Dos ataques sangrentos contra civis promovidos pelo governo da Síria nos últimos meses aos assassinatos e perseguições homofóbicas em crescimento exponencial no Brasil, parece que a maré do mundo não está muito para peixe. Fica-se sempre com aquela sensação de que com os meios de comunicação e sobretudo a Internet, o mundo talvez tenha ficado pequeno demais e cada vez mais próximo, inclusive a sua violência. Não se sabe se ficamos a par de mais notícias ruins ou se as notícias ruins juntamente com os seus fatos se multiplicam qual um vento galopante na contemporaneidade.

A charge que escolhemos para abrir a matéria, que traz a nossa pequena musa Mafalda, uma criação do argentino Quino, diz bem do desconforto e mesmo dor com que narramos ou lemos o que se passa na política mundial, como a crise econômica avassaladora em países da Europa como Grécia, Portugal e Espanha. O geógrafo marxista David Harvey assinalou muito bem, em Conferência na Escola de Arquitetura de Belleville (Paris, 2010), « não tarda a crise chega até você ». Faz parte do seu ciclo de expansão e reprodução, como característica intrínseca do capitalismo em sua etapa atual. Ela já esteve nos Estados Unidos, agora está impactante na Europa, mas o mundo gira…  Por isso, melhor não esquecer a solidariedade para com os países, povos e camadas oprimidas e exploradas da sociedade.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Editoria Jornalismo na Correnteza

Rio+20: sustentando a propaganda



Que ironia o Rio ser a sede-referência do debate sobre meio ambiente no mundo! “RIO, CAPITAL DA BICICLETA”, diz o site da prefeitura, que garante que temos a maior extensão de ciclovia do país, a segunda maior da América Latina. Vale a pena conferir (http://www.rio.rj.gov.br/web/smac/exibeconteudo?article-id=1534031). O mapa da prefeitura não mostra as “ciclofaixas” atravessando calçadas tomadas pelas raízes das árvores, na Mena Barreto, ou pelos carros, em várias partes da cidade. Nem as que passam rente à porta do hospital público, ou na calçada do supermercado.




O cinema norte-americano, por aqui, ia adorar uma comédia com perseguições em bicicleta, em vez de carros. Não ia faltar lugar para os personagens jogarem um cara de perna engessada pra cima, explodir bolsas de supermercado, se esborrachar numa árvore que toma a ciclovia, atropelar carrinho de criança, ou voar por cima de um fileira de carros estacionados sobre a ciclovia.

Na General Polidoro, a ciclovia (um dos poucos trechos aparentemente de verdade, feita na rua, não na calçada) toma toda a frente do Hospital Pró-Cardíaco. No site do hospital, informam que o cliente “tem como opção o estacionamento GPark”. Pago, evidentemente! Onde será que o pessoal prefere estacionar?



Mesmo no mapa da prefeitura dá pra ver que a preocupação é só com a quilometragem. Uma linha aqui, outra ali, com alguns quilometro, no meio, que o ciclista pode atravessar na base do “dá seu jeito!”



Sem problemas, se você não é bom em “dar seu jeito”, é melhor nem ter bicicleta. Que se danem as bicicletas! A prefeitura vai resolver o problema de transporte com ônibus. Tem obra pra todo lado, os ônibus mudaram de cor e de número, os pontos mudaram de lugar. Até agora, o resultado mais evidente é um monte de passageiros enlouquecidos, tentando adivinhar seu ônibus a tempo de dar sinal a tempo do motorista sair da terceira pista em que se encontrava, a 80km/h, e parar a 100 metros do ponto. Isso, claro, se ele estiver de bom humor.

Os ônibus continuam cheios, a não ser que você esteja totalmente no contra fluxo. Passando nos intervalos que bem entende a empresa e o despachante e dando voltas absurdas para completar seus trajetos juntando o maior número possível de passageiros.


E viva o fordismo!



Enquanto isso, o governo federal baixa, de novo, o imposto sobre a compra de carros. Mais carro na rua! A indústria automobilística agradece. Nossos pulmões que se virem! Principalmente se você for louco o suficiente pra preferir circular pedalando uma bicicleta e abrindo seus pulmões para os escapamentos dos carros.

E, como a palavra de ordem é "desenvolvimento econômico", como nos tempos de Juscelino, a presidente "ajeita" o código florestal para agradar gregos e troianos, ou melhor, empresários e coronéis. As florestas que se virem, como os ciclistas, se pretendem insistir em sobreviver à sombra do "desenvolvimento industrial".




Como já exaltava Tom Zé em Parque Industrial:





Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação
Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção
Tem garotas propaganda
Aeromoças e ternura no cartaz
Basta olhar na parede
Minha alegria num instante se refaz
Pois temos o sorriso engarrafado
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar e usar
É somente requentar e usar
O que é made, made, made
Made in Brazil
O que é made, made, made
Made in Brazil
Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação
Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção
A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar
É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado
É somente folhear e usar
É somente folhear e usar
O que é made, made, made
Made in Brazil
O que é made, made, made
Made in Brazil
O que é made, made, made
Made in Brazil
Made in Brazil


E como o que importa é a imagem...

  


O prefeito decretou feriado para o serviço público e para a educação. A TV informa: nos dias da Rio+20 é melhor evitar ir para o Centro da Cidade. Quer dizer, estamos convidados a deixar a cidade, ou ficarmos quietos em casa. E, como não é para nós, cariocas, os ônibus vão funcionar com a frota máxima. Ainda vão ser criadas duas ou três linhas especiais. Só assim os gringos poderão ver que o Rio é “a melhor cidade do mundo para se viver” (isso também é conversa do site da prefeitura).

Eu não reclamo. Adoro feriado. Mas será que dava para manter a frota máxima para nós, depois, e não reduzi-la a menos da metade nos fins-de-semana?


                                           China em 1970

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*Ana Lucia Vaz, jornalista, mestre em Jornalismo (USP), membro da Rede Nacional de Jornalistas Populares (http://www.renajorp.net), professora de jornalismo e terapeuta craniossacral.

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DICA:

PARQUE INDUSTRIAL - TOM ZÉ

sábado, 2 de junho de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta


América Latina
Pelas veias abertas da literatura



« (…) a verdadeira coincidência da sociedade e do ser humano requer
uma visão trágica, quer dizer, uma visão de conflito e reconciliação,
oposta à visão maniqueísta que regeu a história moderna,
visão de pecado e extermínio ».

[Carlos Fuentes]

Mione Sales*

Pensei em homenagear os ASSISTENTES SOCIAIS (cujo mês comemorativo: maio, vem de acabar agorinha) com algo diferente. Os diversos eventos pelo Brasil afora supriram meus colegas com o melhor da teoria, da política e da questão social. Então, insistir nesse viés seria, ao meu ver, um pouco como chover no molhado. A morte do escritor mexicano Carlos Fuentes (1928-2012), falecido no dia 15 de maio, forneceu-me uma comovida inspiração:  por que não reclamar o nosso pertencimento à América Latina e a essa condição de hermanos, embora sejamos o único país do continente que fala o idioma português? A língua espanhola nos separa, mas quantas coisas nos unem! Mário de Andrade evocou-as em grandes gritos no seu Macunaíma.  

Sim, somos loucos por ti, América Latina, apesar das guerras, da diferença de língua, de sermos psicologicamente mais próximos da Flórida e de Miami do que da Venezuela. Sim, fomos, sobretudo desde a ditadura militar, colonizados culturalmente pelos que dominaram Cuba nos anos 50 e dela foram expulsos pela revolução em 1959. Sim, nosso coração e sociedade de massa são paradoxalmente norte-americanos, antes de serem latino-americanos. Sim, tentamos reverter o atraso de mais de quinhentos anos, absorvendo, nas últimas décadas do século XX, ondas e mais ondas de igrejas pentecostais, evangélicas e protestantes, como uma maneira de nos reformarmos. « O Brasil ainda há de ter conserto! », pensam entusiasmados os que acreditam no lema do American way of life: dividido culturalmente entre vencedores e fracassados. O senso comum quer assim, tudo indica, ficar ao lado dos vencedores, inspirados ora pela ética puritana, calvinista e protestante ora pelo voluntarismo, combinado ao neopositivismo travestido de auto-ajuda.

Não há, então, na nova ordem, lugar para conflitos nem contradições e tampouco para sofredores, desempregados, degredados filhos de Eva, pobres e latino-americanos? Mostra-se bem contraditório esse novo ethos da salvação, para quem conclama com veemência o Cristo, aquele que teria se batido corajosamente por todos estes. Certamente, seu discurso – « Amai-vos uns aos outros ! » -, em tempos hiperindividualistas, talvez seja agora considerado demodê. Não cabe no produtivista século XXI, que exclui a fragilidade, a lentidão e a profundidade, em nome do côro dos contentes : a geração prozac e ritalina. No atual sistema, ninguém pode titubear nem falhar, corpos e mentes têm que estar sempre em plena forma, reformados, uniformizados.

Na contracorrente, o Serviço Social, ou melhor, o trabajo social,  vem por toda a América Latina, desde final dos anos 60, apostando, nos de bajo, isto é, na capacidade de fazer e de ser dos de baixo: camponeses e trabalhadores. Temos investido num trabalho de educação política, participação e luta por direitos. Brasileiros, somos caudatários todos de Cristóvão Colombo continentalmente falando, sim, pois somos um país novo. Essa novidade nos liberta de arraigados dramas, costumes e preconceitos do velho mundo: Europa, Ásia e África - embora solape também um tanto de cidadania e de civilização. Trazemos a capacidade de desbravar, mais a vontade de inovar sem medo, o que é uma virtude. Portamos, porém, igualmente em nosso seio problemas atávicos, que remontam à Antiguidade, no que concerne às relações de gênero, por exemplo. Somos assim muito velhos ainda quanto a certos temas. Precisamos, especialmente nesse sentido, nos redescobrir. Precisamos nos refundar. Precisamos ousar pensar e fazer diferente, sem trair a nossa cultura e valores.


                                           FOTO : Direito achado na rua

A homenagem à profissão e por extensão ao falecido escritor Carlos Fuentes dá-se aqui por intermédio de um outro autor mexicano que ele admirava e eu também particularmente. Refiro-me a Juan Rulfo (1917-1986), celebrizado por seu romance Pedro Páramo (1955), que é, de fato, uma obra prima da literatura em língua hispânica.

Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente

Li há algum tempo um de seus contos « É que somos muito pobres » - publicado no livro O planalto em chamas (El lhano en llamas), de 1953, conto que desde o primeiro momento me interpelou. Penso que se trata, para o contexto brasileiro acima aludido, de um título deveras provocador, mas foi justamente sua alusão direta à classe trabalhadora que suscitou a minha curiosidade em lê-lo. Queria ver que tratamento o autor tinha dado para esse tema. Gostei, mas experimentei uma sensação de excesso ou desacordo na relação título e texto. Um amigo e interlocutor ontem mesmo me falava que algo parecido se passa com um dos livros de Jean Genet, Nossa Senhora das Flores [Notredame des Fleurs] - já devidamente anotado para ser conferido.

O que acontece com o conto de Rulfo « É que somos muito pobres », ao meu ver, é que, em certa medida, título e texto ficaram aprisionados num tempo histórico, embora tendo imortalizado o México: aquele da problemática da terra e da revolução mexicana em suas diversas faces. Não obstante, esta tensão entre literatura e história, entre relatos do passado e o presente dos leitores, renova a sua função cultural, pelos ângulos da ética e da estética.

Sua circulação na terra brasilis - terra atualmente sendo disputada ideologicamente por apologetas e «vencedores » - torna-se, no entanto, quase blasfematória, pois a força do texto incita, em quem o lê, no mínimo uma sensibilidade para o realismo, em suas várias expressões literárias latino-americanas. Por isso, hesitei, quanto a esse projeto de tradução e de partilha, embora tivesse certeza de que esse conto merecia ser divulgado. Cheguei mesmo a pensar em propor um outro título mais poético (« Serpentina »), num esforço de atualizá-lo e resgatá-lo parcialmente do pathos – referente à ênfase no drama e na tragédia -, em que esteve mergulhada a América católica e a literatura do então jovem autor Rulfo. No conto – um porta-retrato de uma família camponesa mexicana -, por exemplo, o narrador é uma criança, o que adiciona mais um elemento à auto-piedade de que o texto é imbuído e pode levar de roldão outros aspectos ricos que ele comporta. No entanto, a argumentação que construí para justificar a sua publicação convenceu-me do contrário: do papel importante, ainda que paradoxal, do título original.


                                               O escritor mexicano Juan Rulfo


Quisemos por meio dele aproximar o leitor contemporâneo das chagas da América Latina, mas pelas vias fecundas da literatura, mostrando o que nos une e separa. Temos um país em que muitos de seus habitantes se assemelham aos personagens do conto, com suas potencialidades e dificuldades. Grandes contingentes, em nosso país, ainda vivem, pelo menos na década de 50, do ponto de vista das necessidades necessárias e sociais, dos valores e da relação pais-filhos, assim como de homens e mulheres. Ou seja, muitas famílias brasileiras são ainda atravessadas pela rigidez e pelo moralismo, e não sabem muito bem o que fazer com a juventude, enquanto outras perderam toda e qualquer referência de limite, criando filhos, mas não os educando. Se falamos de literatura, falamos de representações, enquanto percepções de si e do outro, criações artísticas, mas que constituem, de modo complexo e intermitente, ecos das relações intersubjetivas e sociais.


                                                       Edward Munch


A ideia não é absolutamente julgar o texto de Rulfo, até porque podemos lê-lo, se quisermos, pela chave da ironia, travestida de conformismo social camponês. Ou do desespero irônico, segundo Le Clezio. O intuito é sobretudo mostrar que autores como ele e William Faulkner, respectivamente da corrente do realismo fantástico e poético, põem em evidência personagens femininos presos ao naturalismo e a uma condição inexpugnável de vivência da sexualidade como fatalidade e perdição. Não são exatamente eles que pensam assim. É a sociedade do seu tempo e por que não dizer ainda da nossa, apesar de sua máscara de modernidade e mundanidade. A opinião de Le Clezio acerca dos personagens femininos rulfianos, contudo, é : « neste mundo violento, são elas que resistem aos segredos das famílias, ao triunfo cruel dos homens, aos ciúmes, ao incesto, à desonra. » (Prefácio de Le lhano en flammes). No conto a seguir, fica a interrogação: mais vale uma vida de labuta, opaca, conformista e de sacrifícios ou a liberdade dos atos  e do próprio corpo?  Tudo indica que a liberdade pode ter um gosto amargo e um custo para os seus, como parte de um dilema fáustico. A ética, entretanto, parece fazer parte tanto do enigma quanto de sua solução, em que um final feliz torna-se secundário.

No Brasil, a recente Marcha das Vadias ousou assumir justamente o estigma e resignificá-lo: « se uma de nós é chamada de vadia, somos todas vadias ». A liberdade requer, portanto, ainda longas caminhadas pela noite, de forma a banir os pesadelos que cercam o desejo e a iluminar a necessidade de emancipação de homens e mulheres brasileiros, mexicanos, venezuelanos, ou seja, latino-americanos. Com vocês, então, Juan Rulfo !

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É que somos muito pobres



Juan Rulfo*

Aqui, tudo vai de mal a pior. Na semana passada, tia Jacinta morreu e no sábado, quando já a havíamos enterrado e ia baixando a poeira da tristeza, começou a chover como nunca. Isso deixou meu pai muito zangado, porque toda a colheita de cevada estava secando no pátio, e o aguaceiro chegou de repente, em grandes ondas, sem nos dar tempo de esconder um punhado sequer. A única coisa que pudemos fazer, todos os da minha casa, foi nos reunirmos no alpendre, assistindo a água fria que caía do céu estragar aquela cevada amarela recém cortada.

E ontem, mal minha irmã Tacha completou doze anos, soubemos que a vaca que o papai lhe oferecera pelo seu aniversário havia sido levada pelo rio. 

Há três noites, ainda de madrugada, o rio começou a subir. Eu dormia profundamente, mas o forte ruído que o rio fazia, ao se arrastar, logo me despertou. Pulei para fora da cama com meu cobertor nas mãos. Podia acreditar que o teto da casa estava desmoronando. Pouco depois, porém, voltei a adormecer, quando reconheci o barulho do rio e ele se tornou constante até me trazer novamente o sono.
Quando levantei, a manhã estava cheia de nuvens e parecia ter chovido sem parar. O ruído do rio estava mais forte e era possível ouvi-lo mais de perto. Sentia-se, qual o cheiro de queimado, o cheiro podre das águas revolvidas.

Na hora que fui ver o que se passava, o rio já havia transbordado. Ia subindo pouco a pouco pela rua principal, e logo em seguida precipitou-se na casa da mulher que chamam de Dona Tambor. Ouvia-se o ruído da água, a entrar pelo celeiro e a sair em grandes jorros pela porta. Dona Tambor ia e vinha caminhando, pelo que era já um pedaço do rio, espantando suas galinhas para que fossem se esconder em algum lugar protegido da corrente.

O rio, na altura onde faz a curva, deve ter levado, não se sabe desde quando, o pé de tamarindo do quintal de tia Jacinta, porque agora já não há mais sinal dele. Era o único que havia no povoado, e por isso demo-nos conta de que essa enchente é a maior de todas as que se abateram sobre o rio em muitos anos.

De tarde, minha irmã e eu fomos de novo olhar aquele monte de água cada vez mais espessa e escura, já muito acima de onde deveria estar a ponte. Ficamos horas e horas sem nos cansarmos de ver tudo aquilo. Depois subimos o barranco, porque queríamos saber o que as pessoas diziam, porque embaixo, junto do rio, há muito barulho e de longe só se veem as bocas de uns e de outros que se abrem e se fecham, como a quererem dizer algo; porém não se ouve nada. Por isso subimos o barranco, onde havia muitas pessoas a observar o rio e falar dos prejuízos que tiveram. Foi lá que soubemos que o rio tinha levado Serpentina, aquela vaca com uma orelha branca e outra vermelha, e olhos muito bonitos, que pertencia à minha irmã Tacha, e tinha sido um presente do papai no dia do seu aniversário.




Não sei por que Serpentina quis atravessar o rio, quando ela sabia que não era o mesmo rio de todos os dias. Serpentina nunca ficou tão atarantada. O mais provável é ela ter sido arrastada dormindo para deixar-se matar assim sem mais nem menos. Muitas vezes, ao lhe abrir a porta do curral, precisei acordá-la para que despertasse, porque senão, por sua conta, teria continuado o dia inteiro com os olhos fechados, quieta e suspirando, como costumam suspirar as vacas quando dormem.

Foi isso provavelmente o que aconteceu, ela devia estar dormindo. Talvez ela despertou, já sentindo o peso da água golpear-lhe as costas. Talvez ela tenha se assustado e tentado recuar; porém ao recuar, viu-se encurralada no meio daquela água escura e dura, como um deslizamento de terra. Talvez tenha mugido pedindo que lhe ajudassem. Só Deus sabe o quanto deve ter mugido.

Perguntei ao senhor que viu quando o rio a arrastava, se não havia visto também o bezerrinho que andava com ela. Porém, ele não estava certo de tê-lo visto. Só disse que a vaca malhada passou com as patas para cima bem perto do lugar onde ele estava e que ali ela dera uma cambalhota e depois ele não conseguiu mais ver nem os chifres nem as patas nem mais nenhum sinal da vaca. Pelo rio flutuavam muitos troncos de árvores, inclusive com raízes, mas ele estava tão ocupado em pegar lenha, que não podia precisar se eram animais ou troncos que iam sendo arrastados.

Por isso mesmo, não sabemos se o bezerro continua vivo, ou se seguiu a mãe rio abaixo. Se assim foi, que Deus ampare os dois.




O que nos aflige, em casa, é o que pode suceder no dia de amanhã, agora que minha irmã Tacha ficou sem nada. Porque nosso pai com muito sacrifício adquiriu Serpentina, ainda uma novilha, para dá-la à minha irmã, a fim de que ela tivesse um pequeno dote e não viesse a se tornar prostituta como minhas duas outras irmãs maiores.

Papai diz que se elas se perderam é porque somos muito pobres em nossa casa e elas eram cabeças duras. Desde pequeninas, já eram insolentes. E tão logo cresceram lhes deu na cabeça de andar com homens da pior espécie, que lhes ensinaram o que não presta. Elas aprenderam rápido e compreendiam muito bem os assobios, quando as chamavam tarde da noite. Depois saíam até de dia. Iam a todo instante pegar água no rio e às vezes, quando menos se esperava, lá estavam elas no celeiro, rolando no chão, nuas, cada uma com um homem por cima.

Meu pai então correu com as duas de casa. Primeiro aguentou tudo o que pôde; entretanto mais tarde já não podia mais suportá-las e jogou-as na rua. Elas foram embora para Ayutla ou não sei para onde; lá vivem como putas.


                           Foto : Juan Rulfo

Por isso, papai preocupa-se muito com Tacha, porque não quer que ela termine como suas duas outras irmãs, pois ele sabe que ela ficou muito pobre depois do que aconteceu  à sua vaca, logo não vai ter com o que se entreter enquanto cresce até se casar com um homem bom, que a queira para sempre. Isso agora vai ser difícil. Com a vaca era diferente, pois não faltaria quem tivesse ânimo de se casar com ela só para se apropriar de tão linda vaca.

A única esperança que nos resta é que o bezerro ainda esteja vivo. Tomara que não tenha tido a ideia de atravessar o rio atrás de sua mãe. Porque se assim foi, minha irmã Tacha não tardará a se prostituir. E isto, mamãe não quer.

Minha mãe não sabe por que Deus a castigou tanto, dando-lhe umas filhas assim, quando na sua família, de sua avó até hoje, nunca houve gente desse tipo. Todos foram criados no temor de Deus, eram muito obedientes e não faltavam com respeito a ninguém. Todos mantiveram a decência. Sabe-se lá onde suas filhas foram desencavar esse mau exemplo! Ela não se lembra. Passa em revista todas as suas lembranças e não vê com clareza qual foi a sua culpa ou o seu pecado para nascer uma filha atrás da outra com esse mau costume. Não consegue perceber. E cada vez que pensa nelas, chora e diz: "Que Deus proteja as duas!"

Mas papai fala que aquilo não tem mais jeito. Quem corre risco agora é essa que continua aqui, a Tacha, que cresce como talo de pinheiro, e cujos seios já afloram, prometendo ser como os de suas irmãs: pontudos, empinados e suficientemente desenvoltos a ponto de chamar a atenção.

-Sim – disse -, ela vai encher os olhos de qualquer um, onde quer que vá. E acabará mal, pelo que estou vendo, ela acabará mal.

Esta é a grande preocupação do meu pai.

E Tacha chora, ao se dar conta de que sua vaca não voltará, porque o rio a matou. Ela está aqui ao meu lado, com seu vestido cor de rosa, olhando o rio da beira do barranco, sem parar de chorar. Pelo seu rosto as lágrimas formam um rastro de água suja, como se o rio se tivesse entrado dentro dela.

Abraço-a, tentando consolá-la, porém ela não entende. Chora muito mais. De sua boca sai um ruído semelhante ao que se arrasta junto com o rio, o que a faz tremer e sacudir-se toda, enquanto o rio não pára de subir. Uma bruma com o cheiro podre que sai das águas salpica a cara molhada de Tacha e seus dois peitinhos se movem, para cima e para baixo, sem cessar, como se tivessem começado de repente a inchar, a serviço de sua perdição.

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Mione Sales - é assistente social, doutora em Sociologia (USP) e tem mestrado em Literatura Comparada (Paris 3 Sorbonne). No contexto globalizado do precariato, trabalha em Paris como revisora e tradutora, e faz jornalismo cultural no Blog Mídia e Questão Social. Além disso, ensina a língua de Camões aos patrícios de Voltaire. Contato: mionesales@gmail.com

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Sugestões de leitura

FUENTES, Carlos. Aquilo em que acredito. Lisboa, Dom Quixote, 2002.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Várias edições.

Links
[« Baby », Caetano Veloso]

[« Podres poderes », Caetano Veloso]

[« O Bêbado e a Equilibrista”]