quinta-feira, 8 de março de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta

Tenho em mim todos os sonhos do mundo…

  
Mione Sales*

  


Mulheres do século passado: direitos por conquistar…
 
 

Em 1929, a escritora inglesa Virgínia Woolf escreveu um pequeno livro que se chamava Um quarto só seu [A Room of One’s own]. Vim conhecê-lo estudando Literatura Comparada em Paris. O título é provocador. A autora reivindicava o direito de que as mulheres – sobretudo as escritoras – tivessem um quarto só  para elas, onde não fossem importunadas pelas tarefas domésticas, marido e crianças. Num primeiro momento, esta demanda soou-me bastante individualista e não deixa de ser, mas as provocações fornecem-nos boas ocasiões para refletir.

 Virgínia Woolf, perto de outras mulheres do seu tempo e mesmo do nosso, era uma mulher privilegiada. Casou-se com um homem que fundou junto com ela uma editora, a Hogart Press. Leonard Woolf a amava muito, deixando-lhe toda a liberdade que ela reivindicava. Antes de casar e mesmo depois, Virginia Woolf integrou o grupo de Bloomsbury, um grupo de intelectuais e artistas britânicos, que se reuniam regularmente, inclusive na antiga casa em que morava com os irmãos Adrien e Vanessa Stephen.  Keynes, o famoso economista que desempenharia um papel-chave nos debates e desenrolar do Estado de Bem-Estar Social, pós-crise de 1929 e Segunda Guerra Mundial, também fazia parte desse grupo.

Virgínia era uma mulher culta, com hábitos pouco convencionais para a época e sobretudo possuía uma alma inquieta. Ela será no começo do século XX uma das responsáveis por uma escrita não apenas feminina, mas também evocadora da subjetividade. Uma de suas técnicas preferidas era o monólogo interior. Lia-se o que se passava na alma dos seus personagens, o que os atormentava. Abandonou-se, assim, a partir de Woolf, o excesso de descrições externas que tanto entusiasmou autores de obras socialmente densas como Balzac. Com Woolf, ia-se diretamente ao centro nevrálgico do drama. Enxergava-se os personagens por dentro e não apenas em tomadas panorâmicas.  Só mesmo lendo e comparando os estilos, para se dar conta da pequena revolução literária silenciosa que ali se operava. Nem é preciso dizer que Balzac, Zola e outros grandes do gênero continuam ainda hoje a revelar facetas da complexa sociedade e época em que escreveram, mas Woolf, Proust e Wilde inscreveram também os direitos da intimidade no panteão da literatura universal.


 
A escritora Virginia Woolf

 Podemos estender essa revolução para o campo dos costumes. Woolf reivindicava direitos para as mulheres no terreno da cidadania e da individualidade moderna, alguns ainda hoje nem tão banais assim: o direito das mulheres viajarem sozinhas em nome da abertura de espírito, o direito de sentarem sozinhas no terraço ou esplanada de um restaurante – acrescentamos: sem serem importunadas ou discriminadas -, permitindo-se o tempo de refletir, o direito de se instalar na grama de um parque tranquilamente para fruir e deixar brotar novas ideias, e mesmo o direito de frequentar bibliotecas. 
Mas voltemos ao  polêmica tema do quarto. Certa vez, quando morava no Rio de Janeiro, fiz um curso de Arte e Educação aos sábados. Na ocasião, desenvolvi uma amizade com uma jovem de classe média que era casada e tinha dois filhos. Quem fez ateliês de Arte e Educação sabe que trabalhamos ali várias linguagens simultaneamente: sensorial, escrita, corporal  e criativa. Produzíamos, então, alguns objetos. Um dia, terminada a aula, falamo-nos e vimos o que cada uma havia produzido. Eu me preparava para ir embora, levando comigo minha pequena « obra  de arte ». Perguntei pela sua, que me respondeu que não ia levar. Indaguei o porquê. Ela me respondeu: « eu não tenho nenhum lugar para mim em casa. Fora a sala, tem o quarto das crianças e o meu quarto com o meu marido ». Não adiantou eu ponderar. Ela foi embora, deixando um pedaço de si para trás. Fiquei muito impactada com aquilo. Uma « mulher-mãe » não cabia na sua própria casa. Não tinha nenhum espaço que pudesse reivindicar como seu ou mesmo o direito de misturar suas coisas aos livros e brinquedos dos demais habitantes.

Na época, eu tinha uma relação amorosa duradoura, que fugia do padrão sexual dominante e não vivenciava absolutamente esse tipo de questão. Nem outras que também tomei contato participando de um grupo terapêutico voltado para « Mulheres Adultas ». Os temas femininos recorrentes eram o do direito a serem elas mesmas, a ultrapassar a invisibilidade, a serem respeitadas e levadas em conta por filhos, maridos e parentes.

Hoje, quando tenho marido e filha, consigo demarcar meus territórios no grande espaço comum que é uma casa de família. Não é nada evidente, claro. Envolve muita sensibilidade e negociação, inclusive atenção para não invertermos as coisas e oprimirmos também o masculino. A construção amorosa heterossexual está calcada em fricções de alma ancestrais, energéticas e também nas históricas divisões sociais do trabalho. Mesmo quando se tem um « puta » companheiro, sobram questões para o campo social e cultural, sobre o que pretendo falar no próximo item.



   Se introduzi esse tema aqui é porque a liberdade de escolha, o direito à privacidade e o respeito pelo que é seu, independentemente do que quer que seja : sua fala, seu gosto, seu tempo e ritmo de fazer as coisas, seu modo de apreender o mundo estão longe de ser um direito assegurado a todas as mulheres. São demandas da alçada da individualidade, de potência universal e nada reformistas. São  demandas da esfera das necessidades radicais, as quais podíamos flagrar também nas cartas de Rosa Luxemburgo para o seu camarada e amante, Leo Jogiches. Muitas mulheres, no entanto, assim como muitas militantes nem se questionam a respeito. Submetem-se aos ritmos coletivos por vezes massacrantes da máquina-trabalho, da máquina-família ou mesmo da máquina-partido. Prevalece, portanto, uma desconfiança sobre o tema do descanso da mulher. A mulher deve estar, pois, segundo uma lógica conservadora, disponível full-time e a serviço dos filhos, marido e estruturas sociais mais amplas das quais faz parte.
Seu ócio criativo é o menos respeitado de todos, assim como seu silêncio e sua solidão. Claro que há momentos coletivos e familiares deliciosos, mas como diz a canção de Lenine, tem horas que « a alma precisa de um pouco mais de calma », no entanto a vida não para, não.


Mulheres do século XXI: desafios às insurgentes “cidadãs do mundo”

 
  “Venho do século passado e
Trago comigo todas as idades”.


CORA CORALINA

 Se muitas mulheres permanecem encerradas em contradições seculares, medievais, rurais e sexistas em pleno século XXI, outras têm lutado toda uma vida para conquistar direitos e permanecem fazendo-o para si e suas congêneres. Tais mulheres aproximam-se o mais que podem da vivência da igualdade de gênero, embora existam elementos que parecem mesmo ser intransponíveis.  O que intelectuais pós-feministas acolhem, sem pesar, como componentes femininos, sem o peso do acento naturalista e conformista de outrora – sobre o qual continua a insistir em suas críticas Elisabeth Badinter - ou das polêmicas misóginas freudianas, mas como uma dimensão potentemente resignificada, empoderada.
Ser feminino tornou-se um direito inclusive dos homens, heterossexuais ou não. Por isso, Judith Butler refere-se ao « trouble dans le genre », às turbulências no campo da sexualidade, que deixou de ser rígida. Há indivíduos que nascem homens, mas sentem-se mulheres por dentro e vão lutar vida afora para juntar corpo e alma. O inverso também acontece: mulheres nascem num corpo que lhe é estranho, preferem a identidade masculina e vão lutar para encontrar a justa adequação. Hoje em tempos de direitos sexuais, tudo isso é possível, inclusive com o auxílio luxuoso da medicina.

No entanto, homens e mulheres que persistem em suas escolhas de gênero clássicas são sacudidos por múltiplas pressões internas e externas ao casal e à família. Isto explica por que a crise econômica desfaz tantos casamentos. A pressão então atinge a carga máxima e humanos que somos, cedemos, nos rendemos, jogamos a toalha. Outros, não. Encontram formas cúmplices de reinventar o cotidiano, de partilhar tarefas repetitivas e estafantes, de se fazer homens e mulheres « tudo-junto- ao-mesmo-tempo-agora ».



Assim, é importante dizer que nem os novos acessos à educação, à cultura e às novas tecnologias, principalmente a internet, são suficientes no sentido de propiciar novas alternativas às mulheres. Nem mesmo uma fruição mais inteira do prazer e da sexualidade. Sem todas essas possibilidades, é claro, o florescimento do intelecto, do espírito e do corpo não seria pleno, mas a emancipação requer também o solo firme do trabalho, ainda que num mundo em total transformação. Direitos são desconstruídos, novos demoram a se configurar. Um velho mundo rui, enquanto outro se eleva rapidamente, bem mais competitivo, movido a intensas cargas de trabalho, a pesada extração de mais-valia relativa e a  novos conflitos e disputas entre as gerações. “Que tempo mais vagabundo esse que escolheram pra gente viver?”, cantava o poeta Cazuza.
Torna-se mais duro em muitos casos optar por ter uma vida com companheiro e filhos.  Toda interrupção do trabalho, sobretudo para as mulheres, pode ter consequências drásticas para as carreiras. O individualismo e a hipercompetitividade se acentuam. Como ser dois ou mais nesse universo, num contexto em que já é tão difícil ser um? A globalização desnuda-se cada vez mais, mostrando que se trata mais da liberdade das mercadorias que dos trabalhadores. Ser homem ou mulher, estrangeiros e à procura de trabalho consiste em tarefa hercúlea, de grande envergadura, empalidecendo os atrativos e os néons da nova ordem mundial.

Quem sabe, os mais jovens venham já talhados para as cada vez mais ásperas formas de competição e a respectiva velocidade dos processos de trabalho.  Como já antecipava a canção Sinal Fechado, de Paulinho da Viola: « Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro e você ?… Me perdoe a pressa. Eu também só ando a cem… ».  

Vê-se assim que as demandas do movimento feminista se complexificaram. Há os atávicos problemas de violência conjugal  e a luta por direitos da mulher na sociedade, em que todas as campanhas de prevenção e esclarecimento são fundamentais. No entanto, desde que vim morar na Europa, dou-me conta de que, mesmo num contexto de superação de velhas formas de viver a dois, com menos sexismo e mais direitos,  a vida das mulheres e também dos homens  em família permanece bastante dura. As necessidades do cotidiano constituem, pois, exigências imperativas em matéria de necessidades sociais e culturais, a requerer novas formulações societárias. Quando se inventa tantos objetos inúteis para o puro divertimento, fico pensando no quanto homens e mulheres poderiam se desincumbir individual, a dois e coletivamente, da dura esfera doméstica. As conquistas tecnológicas nesse campo, é preciso dizer, ainda não são suficientes. Este é um campo a ser reinventado humanamente e investido coletivamente do ponto de vista econômico.




Fora isso, tenho que concordar com Virgínia Woolf, quando do seu lugar de escritora e intelectual, aspirava frente ao dilema de emancipação das mulheres e face às suas evidentes, incontornáveis e vultosas dimensões materiais, dizia: entre o direito ao voto ou acesso ao dinheiro, ela sentia-se tentada a preferir este último. Contra qualquer leitura cínica a seu respeito, até porque a autora não tinha nenhum problema de ordem financeira, pode-se enxergar aí muito mais a ansiedade de que as mulheres pudessem se libertar, de fato e sem tanta demora, de velhos grilhões patriarcais, com vistas a usufruir da tão propalada autonomia e emancipação femininas, por inteiro.

 A muitas de nós, mulheres do século XXI,  cosmopolitas, cultas e exigentes, falta, em especial em contextos de crise, o direito ao trabalho ou melhores condições de trabalho.  É ainda por esta velha aspiração que os sinos dobram. É ainda nesse terreno que nossos passos são encurtados. Para todas aquelas mulheres que têm tanto sonhos que precisariam viver pelo menos cento e cinquenta anos, não se deseja o mesmo destino trágico e inconformado de Woolf nem o da poetisa argentina Alfonsina Storni que preferiram abandonar seus ideais e suas vidas em meio às águas.

Lutemos e nos organizemos por um modo de vida mais libertário para homens, mulheres, lésbicas, homossexuais e transexuais, mas não esqueçamos que a matéria vida, tão fina, funda-se sobre a emancipação, cuja componente determinante, mesmo nos dias de hoje, continua a ser de ordem material. É sobre o direito ao trabalho e a um salário justo que se ergue a liberdade das mulheres. Não se pode negar nem tergiversar.

É preciso fazer por onde muitas mulheres não mais repitam os versos do poeta português Fernando Pessoa: « Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada”, preferindo, em contrapartida, a  potente estrofe também pessoana: “à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo ».

Resistir é criar!  Criar é resistir!
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Mione Sales - é doutora em Sociologia (USP), professora da FSS/Uerj e tem M1 em Literatura Comparada (Paris 3 Sorbonne).

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Links
http://youtu.be/D8d_RHTFRik
(Poema « Tabacaria », em interessante versão teatral)

(« Paciência », Lenine)

(“Sinal Fechado”, Paulinho da Viola)


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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Editoria Caleidoscópio Baiano


S O S



Salvador 


Claudia Correia*

Como todos os grandes centros urbanos do Brasil e do mundo, Salvador, a terceira capital brasileira em população, padece de problemas crônicos cujas soluções exigem vontade política, investimentos públicos e gestão participativa.

Sempre morei aqui, “sou nascida e criada” em Salvador como dizem os baianos. Tudo que enfrentamos no cotidiano urbano não difere das grandes cidades: trânsito infernal, verticalização na ocupação do espaço urbano em detrimento da preservação do meio ambiente, falta de áreas públicas de lazer e esportes, barreiras arquitetônicas para portadores de deficiência, além claro da poluição sonora em virtude do nosso eterno estado de “festa”, ensaios, lavagens, carnaval, festivais de verão e de todas as estações e similares. Confesso que nunca vi a cidade tão degradada, abandonada pelo poder público, com serviços essenciais como limpeza urbana, segurança e pavimentação tão precários. Mas este não é um caso isolado. No Brasil, a Política Ambiental e Habitacional fere os princípios do planejamento urbano e as diretrizes do Estatuto da Cidade-Lei 10.257/2001 e não assegura a gestão democrática da cidade.

Um pouco de história: Salvador foi fundada em 29 de março de 1549 e foi a capital brasileira durante 214 anos, de 1549 a 1763. A posição estratégica da "Baía de Todos os Santos" criou desde 1500 ligações entre Portugal, Brasil, África e Ásia. As condições naturais, que propiciavam aos navegadores portugueses a parada segura de suas embarcações, foi determinante na sua escolha como local para a primeira capital do Brasil.




Riscos e abandono

O nosso último PDDU- Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, de 2007, aprovado na calada da noite pela Câmara de Vereadores, condenou a cidade a ficar refém do capital imobiliário e dos grandes grupos de empreendimentos como hotéis, lofts (virou moda na província soteropolitana) e shoppings. Inventaram novos conceitos de espaços de morar/comprar conjugados com estrutura de academias e lojas. Um inferno! Agora o gabarito para construções na orla marítima da cidade foi alterado para 27 andares e o sombreamento das praias é um risco.

As comunidades dos bairros populares, empurradas para as periferias das encostas do subúrbio ferroviário lutam para sobreviver num contexto de clara segregação sócio-espacial. Outras, que historicamente ocupam áreas vizinhas a bairros tidos como “nobres” (que conceito mais obsoleto!) precisam resistir à pressão das construtoras que invadem campos de futebol e jogam lixo e entulho de obras em vias públicas. O Calabar, próximo da Barra onde ocorre o nosso badalado carnaval, agora recebe uma Unidade de Polícia Comunitária, a versão baiana da Polícia Pacificadora dos morros cariocas. A criminalidade é alta e o Estado ausente.  É um bairro histórico, onde o movimento em defesa da moradia sempre atuou desde a década de 80.Recentemente a mídia divulgou que Salvador figura no 22º lugar do ranking das cidades mais violentas do mundo. Triste título para os soteropolitanos que amam esta terra, abençoada por orixás.

Agora o prefeito João Henrique (PP) sancionou a nova versão da Lei de Ordenamento e Uso do Solo (Lous), com emendas da Câmara de Vereadores que alteram o PDDU e extinguem o Vale Encantado como área de proteção ambiental. Este processo se deu sem uma ampla participação popular ou audiências públicas convocadas pelo Executivo Municipal. O nosso Conselho da Cidade acaba de perder seu caráter deliberativo para virar apenas consultivo, sem ainda ser empossado. Já nasceu morto.




Resumo da ópera: a cidade agoniza e recebe milhões de turistas com seu patrimônio natural e cultural entregue aos interesses econômicos que tomaram conta da gestão pública com lobbys e tráfico de influência. A economia urbana depende diretamente da indústria turística, mas a decepção dos visitantes com o que vivenciam aqui é evidente. Muitos que chegam aqui em cruzeiros  marítimos recusam-se a desembarcar, amedrontados com a violência e desorganização no Elevador Lacerda (um dos nossos cartões-postais que funciona com uma única cabine desde novembro). A mídia local se cala, faz vista grossa, prefere se omitir ou dar cobertura pontual a um ou outro descalabro quando a situação já está insuportável ou vaza para algum veículo de comunicação nacional. Os interesses políticos e econômicos que envolvem a aliança entre os poderes públicos e o empresariado impedem a divulgação dos graves problemas sócio-ambientais que enfrentamos. Enquanto isso caprichamos na propaganda enganosa do nosso cobiçado produto turístico...



Temo pelas gerações futuras que ficam ameaçadas de não terem espaços para usufruir da beleza de Salvador, de um mínimo de paz para respirar, até porque as reservas de Mata Atlântica que tínhamos estão sendo engolidas por mais de cem novos empreendimentos na Avenida Paralela, como o Alpha Ville.  Triste Bahia, ó quão dessemelhante... já cantou Caetano Veloso.



O “Movimento Vozes de Salvador”, que congrega cidadãos e profissionais, preocupados com este cenário caótico, me enviou este documento pedindo ampla divulgação. Compartilho com vocês o desabafo deles e o pedido de socorro. “Salvem Salvador!”.  Confiram.

*Claudia Correa, Assistente Social, Jornalista, profª da ESSCSal, Mestre em Planejamento Urbano e Regional. Contato:ccorreia6@yahoo.com.br 

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MOVIMENTO VOZES DE SALVADOR


O MOVIMENTO VOZES DE SALVADOR vem a público denunciar a agressão criminosa de que a cidade foi vítima, atingida por sucessivos desmandos da administração iníqua e deletéria do Sr. João Henrique Barradas Carneiro, cujos despautérios, seguidos e crescentes, culminaram na sanção de uma lei municipal que desrespeita leis federais e a própria Constituição Brasileira, configurando um verdadeiro golpe contra a democracia e o estado de direito. É de conhecimento geral que Salvador foi reduzida a uma situação de descalabro por essa administração irresponsável, bisonha, divorciada do interesse público, complacente com a ganância imobiliária, hostil ao povo. São muitos os motivos para protesto: a degradação da orla, a devastação ambiental, a privatização descarada de espaços públicos, o colapso da mobilidade urbana com o estrangulamento crescente do trânsito, as roubalheiras do metrô e da transcom (entre outras rapinagens), a desmoralização do planejamento urbano, a sujeira, as ruas esburacadas, o aumento infrene da violência e da segregação, da miséria e do turismo sexual, a precariedade dos serviços públicos de atendimento ao cidadão em todas as áreas básicas (com destaque para o péssimo funcionamento dos postos de saúde e das escolas municipais), os acordos subterrâneos com a máfia dos transportes e a máfia do lixo, o colapso financeiro do município, a falta de transparência em todos os planos da gestão, principalmente no tratamento das verbas e contas públicas, o agravamento das condições negativas que deterioram a qualidade de vida da população nas áreas da periferia e do miolo,  o vilipêndio da cultura com o injurioso tratamento dispensado ao patrimônio histórico e artístico da cidade, o desrespeito sistemático aos artistas e produtores independentes, a mercantilização e grosseira deformação do  carnaval baiano, das festas e tradições populares da urbe, o desfiguramento sistemático da paisagem soteropolitana por descaso do gestor e por sua conivência com os interesses espúrios de quem a compromete e depreda. Já é muito, sem dúvida; todavia, um patamar ainda mais grave foi atingido com a açodada proposição e votação de uma LOUOS em período exíguo, sem possibilidade de análise pelos edis, sem verdadeira consulta pública, reduzida a uma farsa, e com desacato a interdito judicial, alterando brutalmente o Plano Diretor do Desenvolvimento Urbano que deveria apenas regulamentar, mutilando o Conselho da Cidade antes de o ter instalado e assim fazendo violência à lei federal, à democracia participativa que a Constituição preconiza e ao interesse público. No bojo dessa legislação insana, sacrifica-se à ganância imobiliária a última grande reserva de mata atlântica de Salvador, o Vale Encantado, que inclui área sagrada para as religiões de matriz africana; além disso, aumenta-se estupidamente o gabarito das edificações da orla, de forma tal que promove o sombreamento das praias e reduz de forma criminosa a aeração da cidade, entre outras aberrações. O MOVIMENTO VOZES DE SALVADOR conclama todos os cidadãos a lutar pelos seus direitos ameaçados, opondo-se a essa onda de violência que se volta contra a capital da Bahia e atinge de maneira brutal nossas leis maiores.

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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta

O sertão virou fotografia
ou quando a arte que vem do interior
                                          

Uma de suas belas imagens: porque « a vida é real e de viés », como dizia o poeta C. Veloso

Mione Sales*
O sertão já virou cinema pelas mãos de Glauber Rocha e Rosemberg Cariry. O sertão já virou literatura pelas mãos e penas de muitos escritores regionalistas, sendo Vidas Secas de Graciliano Ramos e Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, ícones nacionais e internacionais. O sertão virou mar na utopia de Antônio Conselheiro. O sertão virou foice e bala sob o comando de Lampião. O sertão virou procissão em preces ao Padim Ciço. O sertão foi cantado em verso e prosa por Patativa do Assaré e assombrado pela inteligência de Ariano Suassuna e a poesia de João Cabral de Melo Neto. O sertão virou saques em tempos de grande seca e fome, eternizados por Raquel de Queiroz. Mas o sertão virou também agora fotografia, graças às lentes de Tiago Santana.
Foi com alegre supresa que descobri na última terça-feira (07/02), que o fotógrafo brasileiro, para cuja exposição em Paris eu tinha ganho um convite, era um conterrâneo cearense. Mais que isso, da mesma geração. Descubro-o, assim, e ao seu trabalho, de um só golpe. A exposição com o apoio da Associação L’esprit vive, está instalada no bairro do Marais, na Galeria Fait & Cause, ao lado do Centre Georges Pompidou, ou Museu Beaubourg. Ela vem coroar a publicação do trabalho do fotógrafo, « Sertão » (2011), na célebre coleção Photo Poche Société, uma coleção que já publicou inúmeros fotógrafos consagrados, franceses ou não. Tiago Santana é o segundo brasileiro, depois de Sebastião Salgado, a integrar o seleto grupo.


O fotógrafo cearense Tiago Santana, que reside hoje em Fortaleza.

Chamaram-me a atenção, em primeiro lugar, as fotografias, que, embora retratem aspectos da questão social estampada nas zonas mais áridas do Nordeste brasileiro, não se restringem à pura documentação. Tiago Santana produz arte, enquanto clica pessoas e casebres, por dentro e por fora. Seus planos e enquadramentos que deixam muitas vezes algumas imagens desfocadas introduzem ali o elemento que sugere a presença da subjetividade, a coisa invisível inacessível a olho nu, mas captada pela sensibilidade do artista e que é meio aura e meio emoção. O real oferece-se para ser contemplado, mas as nuances que o olhar de Santana nos aporta permitem que um tema tão decantado de múltiplas formas pelo cinema novo, ligas camponesas, CPC da UNE, e tantos outros movimentos políticos e culturais que ali fincaram bandeiras e raízes, se irrigue e renove.

                                                                                   « O Sertão » [Coleção Photo Poche, 2011]

Deu gosto de ver o efeito da mira desse artista natural do Crato (CE) sobre cabras, galos e casas de sapê. Mesmo se os olhos do fotografado podem ser considerados a alma da foto, desde o belo ensaio de Juan Rulfo sobre o México dos anos 50, descobri o deleite de ver alma em fotos que exploram outros ângulos e em que é pujante a vida, mesmo sem o apoio técnico do olhar. Por isso, gostei e identifiquei-me com seus personagens e seus olhares de viés. Não sei exatamente em qual contexto foram tiradas. Se são posadas ou são flashes espontâneos. De um jeito ou de outro envolvem uma escolha do fotógrafo. Algo que devolve uma nobreza para os fotografados que não se mostram ávidos em serem retratados. Pelo contrário. Quase esboçam uma indiferença, com seus ares ensimesmados.

               

Gosto menos da presença da temática religiosa, mesmo sabendo que Tiago Santana produziu um livro de fotos que se chama « Benditos » (2000). Talvez seja o excesso de proximidade com os primeiros trabalhos de Sebastião Salgado e suas dolorosas « Américas » que me incomode. Muito embora ele se diferencie de Salgado, há ali um diálogo. Isso não chega a ser ruim, visto que em certa medida ele é tributário de um gênero em que Salgado se consagrou. Nada menos improvável que tenham veredas em comum. A intertextualidade visual, nesse caso, é evidente, como a que eu pressinto em relação ao ensaio do escritor e fotógrafo mexicano Juan Rulfo, mas nesse caso atribuo apenas talvez à coincidência e ao bom gosto de fotografar a desolação de paisagens sob o sol impiedoso e pessoas de costas, ou apenas da cintura para baixo. Aliás, não apenas por isso, mas enxergo o nosso México, o nosso « nacional-popular » em meio às fotografias do sertão de Tiago, nossos machos e miguelitos, nossos josés e joãos, bem ou mal-amados, percebidos em seu silêncio, sensibilidade e, quem sabe, inevitável solidão.

« Meninos », pelas lentes de Tiago Santana

As fotos de crianças, carrinhos de madeiras, brincadeiras e sorrisos não me soam excessivas nem repetitivas. Dou-me conta, inclusive, de que nossas crianças pobres são pouco fotografadas em seu direito e prática do brincar. É um alento poder ser feliz autenticamente, a despeito de condições materiais pouco favoráveis e situação climática inóspita. Tiago Santana fez um ensaio também em homenagem à obra de Graciliano Ramos [« O chão de Graciliano » - 2006], de onde talvez tenha se inspirado na crueza e na leveza experenciada por aquele no sertão de Alagoas para retratar o universo da infância.

Fui poucas vezes ao sertão do Ceará. Ficou-me a lembrança do sol e da terra seca. Tiago, porém, atualiza o sertão que há no nosso imaginário, pois vaqueiros ainda se vestem tal e qual. O agreste tem cactos e homens a cavalo, com seus chapéus de couro. Parece uma viagem pelo túnel do tempo. Parece que o tempo parou no sertão. Hoje quando até os cordéis dialogam com as novas tecnologias, soa estranhíssimo esse tempo parado e essas pessoas de um outro tempo, sempre ali, as mesmas. No fundo, é um presente de extrema beleza a todos os citadinos brasileiros e do mundo que não ousariam advinhar o que se esconde depois da linha do trem.

Minha foto preferida é uma das “trans-sertão-mexicanas” clicadas em Alagoas em 2002. É a foto de uma mulher que agarra um galo pelos pés. Não se vê o rosto dela, apenas as suas mãos e pernas, mostradas a partir de uma saia acima dos joelhos. Sob um pano de fundo de um muro velho e descascado, essa foto em preto e branco, mulher e galo, também com detalhes em preto e branco, formam uma bela tela, onde percebo bastante erotismo. Talvez o galo vá ser morto daqui a pouco, ou não. Mulher, signo-ameaça de castração do desejo. De todo modo, o galo, com sua simbologia masculina e de briga, acha-se em posição dominada momentaneamente, pois a mulher estreita-lhe contra o corpo. Princípio masculino e princípio feminino em estranha harmonia. Princípio selvagem e princípio doméstico de submissão, invertidos, em dança dialética. Tensão e beleza no ar. Em imagem que poderia ser em Cuba, essa foto é um signo inconteste da universalidade da temática de Tiago Santana. Um galo de briga, um galo como oferenda ao sacrifício dos deuses da mitologia afrobrasileira, um simples galo em relação de circunstancial ou definitiva perda da liberdade a caminho da panela, ou quem sabe, menos tragicamente, apenas um galo cheio de virilidade a ser transportado para um novo galinheiro. Em quantas coisas reais e surreais nos fazem pensar as fotografias de Tiago Santana!


                                                                                   « Puisque nous sommes nés » (2008) - fotos: Tiago Santana

 Ele já emprestou seu olhar para o cinema e como disse na dedicatória que me fez para o seu livro, dividiu sua vida no sertão comigo e também, espero, com vocês, blog-leitores. Reitero o convite. Foi decididamente uma grande honra penetrar nessa seara íntima e épica ao mesmo tempo: barroca, caótica, atormentada, árida e igualmente, terra de anjos e meninos, como sugere Eduardo Manet no prefácio. De Baleias e de infernos engraçados, qual as crianças curiosas de Graciliano. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Fica uma porção de esperança de melhores tempos e de mais fotos da qualidade dessa safra singular.
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Mione Sales – é professora de Serviço Social (FSS/Uerj), doutora em Sociologia (USP), com estudos em Literatura Comparada (Universidade Paris 3). Pesquisa atualmente Cultura, Comunicação e Direitos Humanos. Contato: mionesales @gmail.com
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Liens
[Associação Pour que l’esprit vive]

[« Sobradinho », de Sá & Guarabira]

[Cena do filme « Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos]

[Cena do filme « Deus e o Diabo na Terra do Sol », de Glauber Rocha]

[« Os três mal amados », de J. C. de M. Neto, declamado por Liminha do Cordel do Fogo Encantado]

[Breve panorama da fotografia de Juan Rulfo]

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domingo, 29 de janeiro de 2012

Editoria Equipe Mídia e Questão Social

21 de janeiro Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Por uma cultura ecumênica: um sonho da democracia




O Brasil do século XXI encontra-se em pleno processo de transformação econômica, tecnológica e educacional. Parece, porém, que ainda falta muito para galgarmos alguns degraus emancipadores – em âmbito político, cultural e social - na desafiante pirâmide dos direitos humanos. Nossa história recente, infelizmente, tem reatualizado com folga o velho drama da corrupção e seu par indispensável, o cinismo quanto à dilapidação do patrimônio público.

Uma nova chaga é a da questão ecológica. Não sabemos se por ignorância, ingenuidade ou puro desleixo, desmatamos, inundamos, deixamos desabar, ameaçamos especies e dizimamos grupos étnicos. Cedemos à cultura voraz da máquina e à pressão do dinheiro. Não podemos parar. Não podemos planejar. Logo, não podemos fazer diferente, como bem sinalizava a professora Nobuco Kameyama, em suas aulas magistrais sobre « Análise de Políticas Sociais ». Não podemos, assim, imprimir nosso ritmo nem nossa bela marca no futuro da humanidade. Preferimos nos deixar arrastar pelos receituários e torrentes econômicas globalizantes.


Eles passarão, eu passarinho… 

No terreno dos movimentos sociais e da cultura, 2011 foi um ano atravessado por denúncias e avanços na mobilização nacional contra a homofobia. No entanto, crimes continuam a ser perpetrados. O machismo latino-americano vitima mulheres e também homossexuais, vide o recente caso do professor de Tocantins, Cleides Amorim. Não há, pois, por que tergiversar: o nome disso é intolerância. Modelos arraigados de gênero debatem-se nutridos por ódio e conservadorismo. Relações sexuais e de gênero mais libertárias são vistas como ameaçadoras, logo, segundo o tacanho ponto de vista do nosso Brasil profundo, precisam ser eliminadas. Felizmente, a resistência existe. Professores e jovens tem se sensibilizado aos dramas de outros jovens país afora, abrindo-se ao diálogo e a uma convivência mais diversa e plural. « Eles passarão, eu passarinho… », como inspiradamente brincava o poeta Mario Quintana.


Bate macumba …

Outra grave expressão do fenômeno da intolerância encontra-se no terreno das religiões. De uma convivência histórica e matreira com nosso catolicismo bonachão e pouco exigente, e de umas querelas pontuais entre vizinhos pouco afeitos aos batuques espirituais africanos, o Brasil passou a ser açodado, intensivamente, a partir dos anos 80 e 90, por vagas petencostais e evangélicas que mudaram as coisas de figura. Como instituem rígidos modelos de comportamento aos seus fiéis, ressuscitam conjuntamente todo um cardápio moralista obsoleto e precisam erigir «bodes espiatórios ».

Cultos afrobrasileiros, candomblé e umbanda, tornam-se, assim, vítima fácil do preconceito homogeneizante e cinza do evangelismo anglosaxão, em suas expressões mais medíocres e comerciais, que usa do direito de concessão pública de transmissão em emissoras de rádio e televisão para pregar o ódio e a intolerância religiosa.

Por uma fé viva e sã…

Pode-se « andar com fé », como canta Gilberto Gil, mas ciente de que cada cidadão tem o direito de professar a sua religião e fé. Ninguém é igual. Nesse território, somos positivamente desigualmente diferentes.

Foram, todavia, exemplos concretos e reiterados de intolerância religiosa, mais precisamente uma sucessão de ataques e desrespeitos às comunidades e adeptos do Candomblé e Umbanda, que levaram várias entidades, mais o Ministério Público Federal, a entrar na justiça contra a TV Record. A Justiça concedeu o direito de resposta, mas ao final uma liminar recorreu da decisão, protelando a ida ao ar de um programa de entrevistas em vídeo com várias personalidades, militantes e intelectuais do mundo da cultura, movimentos sociais e entidades religiosas, pronunciando-se a respeito do repudiável fenômeno da intolerância religiosa.

Nós, equipe do Blog Mídia e Questão Social – de orientações confessionais diversas, incluído o ateísmo -, solidarizamo-nos à população brasileira que tem vinculações com as práticas religiosas ofendidas e emprestamos nosso espaço virtual para contribuir para transmitir esse vídeo-resposta: importante eco de um grande grito por liberdade ecumênica. Confiram também os esclarecedores depoimentos de nossos articulistas: Claudia Correia, Nelma Espíndola e Leandro Rocha.


Equipe Blog Mídia e Questão Social
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Vídeo gravado para ser exibido na TV Record, como direito de resposta das religiões afrobrasileiras contra ataque sofrido na programação da emissora.


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Salve 21 de janeiro!

O combate à intolerância religiosa e a resistência política
afrobrasileira em solo baiano




 Claudia Correia*


Temos aqui na Bahia um cenário rico, onde a diversidade cultural e religiosa compõe o nosso patrimônio, a nossa identidade e a nossa visão de mundo. Mas os episódios de discriminação racial e religiosa são comuns. A maioria deles envolve o povo de santo e os terreiros de candomblé e de umbanda.

O terreiro Zogbodo Male Bogum Seja Unde, a Roça do Ventura, em Cachoeira, foi invadido e teve parte de seu acervo destruído, numa disputa fundiária com um grupo empresarial. Em 2011, a Casa obteve uma liminar que sustou o processo de agressão, mas ainda não tem garantido o pleno direito ao seu território, nem a paz para manter sua tradição centenária.

Em 21 de janeiro de 2000, a Ialorixá Gildásia Santos, do Terreiro Abassá de Ogum, em Salvador, faleceu de um infarto, após viver dias de muita angústia e perseguição. Ela teve sua imagem depreciada na capa do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Sua filha, Mãe Jaciara, finalmente ganhou uma ação judicial contra a IURD e conseguiu o apoio do movimento negro e muitos segmentos sociais de toda a Bahia.

Para homenagear Mãe Gilda, como era conhecida, o dia de seu falecimento foi escolhido para ser o Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa (Lei 6.464/04 de autoria da vereadora Olivia Santana, do PC do B) e Salvador foi a primeira capital a celebrar a data. Em seguida foi criada a Lei 11.635/07, de autoria do deputado federal Daniel Almeida (PC do B-Ba), que institui o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, incluído no calendário cívico nacional.

Mas afinal para que serve este dia? Para refletir, homenagear líderes e grupos que resistem, articular aliados políticos e difundir os princípios da liberdade de expressão, da democracia, da cultura da paz.

Segundo a Declaração de Durban, aprovada em 2001, na III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, “o Estado é responsável pela garantia de igualdade de direitos entre todos os cidadão, o que inclui as liberdades de expressão e de culto religioso .Laicidade não significa omissão. Todos os indivíduos tem o direito de adotar uma crença, de mudar de crença, ou de não ter nenhuma. A laicidade do Estado não é, portanto, uma convicção de crença entre outras, mas a condição primária da coexistência, entre todas as convicções no espaço público”.

Assim, vamos disseminar o respeito a todas as expressões religiosas, a convivência pacifica entre todos os credos e construir uma nação plural e democrática, sem discriminação !

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Direito de resposta
uma estratégia contra o preconceito e por uma cultura da paz




“As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto.
 Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes,
desde que alcancemos o mesmo objetivo ?          
MAHATMA GANDHI
Nelma Espíndola**


A “Cultura da Paz” é um dos viéses do exercício da liberdade de expressão, quando se traz ao debate o tema da tolerância religiosa. Muitas vezes, para que isto se efetive, é preciso que o malhete [martelo do juiz] soe forte, assegurando o direito e a liberdade de todo os sujeitos sociais na escolha da religião a que mais lhe apeteça a fé.

A TV comercial aberta é o veículo de comunicação, ainda hoje, de maior audiência, logo é também a que mais “invade” o espaço privado, de quem assim a permite, ou, dos que veem nela a possibilidade de acesso à informação, à cultura e à “educação”.  Ou simplesmente não têm outra opção. Por meio dela, muitos conceitos e preconceitos são disseminados, sem que seja percebido claramente por quem a utiliza apenas com o intuito de obter informação.

Claro que existem iniciativas pontuais de qualidade, onde há a liberdade de participação popular na construção de sua produção midiática, ou o acesso à exibição da produção independente. É fundamental, porém, que saibamos que um veículo de comunicação se torna democrático e estimula o exercício do direito à liberdade de expressão, num prisma de ética e respeito, a partir do momento em que seu controle social é feito pelos que os assistem, leem e ouvem: ou seja, nós, cidadãos! Este é um dos fatores básicos para uma qualidade de vida, numa sociedade que busca ser democrática de direitos, mas extensivos a todos, indiscriminadamente.

Vejo o direito de resposta concedido às entidades Centro de Estudos das Relações  de Trabalho e Desigualdade – CEERT, ao Instituto Nacional de Tradição e Cultura Brasileira – INTECAB e ao Ministério Público Federal, em oposiçao aos atos discriminatórios recorrentes das religiões afrobrasileiras pela TV Record, como mais um passo adiante na efetivação da Campanha Nacional  de Combate à Intolerância Religiosa.

O programa « Diálogo das Religiões » mostra-se como um ícone a ser seguido em matéria de instrumento de debate sobre a diversidade religiosa no Brasil e no mundo. Em nosso país, as culturas de matriz africana fazem parte de nossa história e nos deram a possibilidade da diversidade que muito nos enriquece social, cultural e espiritualmente.


Outro impactante fato de intolerância religiosa na TV

Em 1995, um ato de grande repercussão teve como foco a Igreja Católica, na ocasião da comemoração, em 12 de outubro, do dia da santa padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.  No programa  “Despertar da fé” e “Palavra de Vida”, o bispo Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou e deu socos em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.  Houve à época ato de protesto  na Catedral de Aparecida. Alegou-se, para minimizá-lo, que o, então,ato se consistia em um protesto contra os feriados católicos, com base no preceito constitucional de que o  Brasil  é um Estado laico. 

Fazer valer o direito de resposta após um ato de agravo, depreciação e humilhação pública é agir contra  a perpetuação  de um estigma, rompendo efetivamente a “cultura do silêncio”.
Em nossa Constituição Federal  de 1988 no Título II, Dos Direitos e Garantias Fundamentais, Capítulo I – Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos,  no Art. 5º, inciso V, está dito: “é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem”.

Faço destaque para o inciso VI que traz:  « é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantia, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”.

O Código Penal Brasileiro em seu Artigo 208 afirma: “escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; expedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto reliogioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. Pena de detenção, de 1 mês a 1 ano, ou multa. Parágrafo único – se há violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo de correspondente à violência ».

O movimento contra a intolerância religiosa vem ao longo dos últimos três anos ganhando, assim, forma e consistência.  Em 2008 foi entregue à Presidência da República o Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Em 18 setembro de 2011, aconteceu em Copacabana a IV Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, onde se reuniram umbandistas, candomblecistas, mulçumanos, católicos, judeus, protestantes, espíritas (que muitos identificam como kardecistas), além de adeptos do Santo Daime, hare krishnas, entre outros. Inicialmente, a caminhada era feita majoritariamente por adeptos da umbanda e do candomblé, hoje, se constitui num movimento em que a diversidade religiosa se faz presente.

Para o babalaô Ivanir dos Santos, a “intolerância é uma semente do fascismo”. Trata-se, segundo ele, de se lutar pelo respeito, pela tolerância e pela cultura da paz, bem como de se buscar a livre escolha da religiosidade, já assegurada constitucionalmente, sem que para isto seja necessário, a todo o momento, recorrer ao “Direito de Resposta”, como  resultado de uma ação de civil pública. Ainda em suas palavras:

Nós não excluímos ninguém. Somos um segmento da sociedade brasileira e tudo que nós fizermos serve para a sociedade no seu conjunto. Foi assim no samba, na cultura popular e a caminhada está se tornando uma causa cidadã porque não é um movimento religioso. É um movimento de religiosos, com cidadania, respeito, dignidade e liberdade.

E nós que lutamos pela democratização da comunicação, almejamos que essa bandeira torne-se, de fato, um princípio ético e politico atuante junto a televisões, rádios e a internet, bens tecnológicos e culturais da humanidade, capaz de fortalecer ali tanto a igualdade como o direito à diferença. Nossa militância é para que os meios de comunicação possam ser artifices e portavozes dos direitos humanos.

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Racistas? Nós?




Leandro Rocha***



“O Brasil não é um país racista”. Esta é a máxima repetida à exaustão em todos os espaços coletivos de nosso país. Nossa sociedade repete isso para si mesma na esperança de que um dia se torne uma verdade, graças ao eco dessa simples cantilena, ou de que um dia se esqueça o que realmente quer dizer o termo “racismo”.

O racismo, assim como a intolerância religiosa e o desrespeito à diversidade, tem sua gênese na ignorância, mas não na daqueles que simplesmente o desconhecem. Seu cerne é a ignorância daqueles que escolhem ignorar. Daqueles que ignoram que a sociedade é diversa e, por este mesmo motivo, rica e fecunda. Daqueles que ignoram que todas as pessoas possuem direitos e, dentre eles o de liberdade de credo. 

Falar sobre a conquista deste direito de resposta e sobre as determinantes que o ocasionaram é antes de tudo falar de racismo, de desrespeito aos direitos básicos contidos na Constituição Federal e em diversos tratados e convenções dos quais o Brasil é signatário. É falar de pessoas que contrariam a sua própria fé, ao praticarem o ódio e a intolerância em nome da mesma.

Indo além, o ataque às religiões afrobrasileiras pode ser entendido no contexto de um país que ainda não consegue mensurar a importância das contribuições dos diversos povos cuja ação neste território possibilitou que hoje tivéssemos uma nação tão diversa e tão bela em suas várias expressões. Considerar as religiões afrobrasileiras como “menores” é desvalorizar a cultura negra e desconsiderar sua contribuição para a formação da identidade deste país. É um resquício irracional de uma cultura etnocêntrica que remete ao início da aproximação dos pesquisadores europeus dos povos que consideravam à época como primitivos, pelo simples fato de não compartilharem de seus costumes. 

Divulgar esse tipo de ideias e de concepções, em uma emissora de televisão, que trabalha através de uma outorga pública torna a ação mais grave, uma vez que, contrariando sua finalidade, a emissora presta um desserviço à sociedade, ao propagar o preconceito. 

Enfim, este é mais um dos casos que nos trazem a materialização de uma demanda que a sociedade reprime por medo do que verá refletido no espelho: o Brasil infelizmente ainda é um país racista e intolerante! Apenas tem muita vergonha de assumi-lo.

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*Claudia Correia é responsável pela Editoria Caleidoscópio Baiano. Assistente social, jornalista, profª da ESSCSal, Mestre em Planejamento Urbano e Regional. Contato:ccorreia6@yahoo.com.br

**Nelma Espíndola é responsável pela Editoria Web@Tecno. Assistente social, Webmaster do Blog Mídia & QuestãoSocial. Contato: nelmaespindola@gmail.com
***Leandro Rocha é responsável pela Editoria O Efeitor Quixote. Assistente social, pós-graduado em Psicologia Jurídica pela UCAM, integrante da Comissão de Comunicação e Cultura do CRESS-RJ. Contato: e-mail: leorochas@hotmail.com.

Colaboração: Mione Sales, reponsável pela Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta. É doutora em Sociologia (USP), professora da FSS/Uerj e tem M1 em Literatura Comparada (Paris 3 Sorbonne). Contato : mionesales@gmail.com

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LINKS
« Cobertura do Culto Ecumênico dia 21/01/2011 - Diário Oficial do Legislativo – Câmara Municipal de Salvador –BA

« Andar com fé », de Gilberto Gil

« Bat Macumba », Mutantes e Gilberto Gil

Caminhada contra a intolerância religiosa lota Copacabana – vídeo RJ TV

Caminhada contra a intolerância religiosa reúne milhares em Copacabana – Agência Brasil


Inrtevozes  Coletivo Brasil de Comunicação Social – Projetos: Direitos  de Resposta
[http://www.intervozes.org.br/projetos/direitos_resposta/Direitos de Resposta, nome dado a série de 30 programas produzidos em conjunto por seis entidades da sociedade civil organizada, entre elas o Intervozes, e que suspenderam por um mês programa veiculado na emissora Rede TV. Os programas foram ao ar de 12/12/2005 a 13/01/2006, das 17h às 18h. Foi o Direito de Resposta concedido pela Ação Civil Pública, movida pelo Ministério Público Federal e as seis entidades por conta das violações aos direitos humanos, em especial os dos homossexuais, no programa « Tardes Quentes », do apresentador João Kléber. Num fato histórico, pela primeira vez foi interrompido o sinal de transmissão de TV comercial aberta, antes da sentença.]

Sobre o direito de resposta aqui mesmo no Blog Mídia e Questão Social


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