Mostrando postagens com marcador Democracia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Democracia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Editoria Equipe Mídia & Questão Social

EM  OUTUBRO  DOIS  LANÇAMENTOS DE LIVROS DE DUAS BLOG-COMPANHEIRAS ACONTECEM NO RIO E EM SALVADOR



  
"A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro."
Gabriel García Marquez



A Equipe do Blog Mídia & Questão Social tem o prazer de compartilhar com todos dois acontecimentos que terão o mês de outubro como um desdobramento de três anos atrás, ou, mas precisamente de 11 de setembro de 2010, quando elas estavam "juntas e misturadas", com outros autores do livro Mídia & Questão Social.

Hoje, continuam a espraiar seus pensamentos, experiências cotidianas e profissionais, alimentadas pelas veias jornalísticas e de mestras, sendo essas entrecortadas pelo Serviço Social. São Elas: Ana Lucia Vaz* e Claudia Correia* que fazem, respectivamente, no Rio de Janeiro e em Salvador o lançamento de seus livros.

domingo, 24 de outubro de 2010

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta

SÉRIE MÍDIA E ELEIÇÕES - SEGUNDO TURNO PRESIDENCIAL

Este novo artigo da Série Mídia e Eleições - segundo turno presidencial traz Mione Sales com um artigo instigante e reflexivo sobre os desafios do que significa SER ESQUERDA (gauche) na vida!

Ela manifesta seu voto critico em Dilma e diz que esse voto não é um cheque em branco. A esquerda fora do governo junto com os movimentos sociais vão investir na interlocução pela garantia e ampliação de direitos, mas restarão mobilizados e atentos à luta e à necessidade de ir para as ruas, se for preciso.

Um abraço,

Equipe Mídia e Questão Social
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Vai ser gauche na vida

sobre a necessidade de (re)inventar a democracia

« Quem sabe faz a hora
não espera acontecer ».
G. Vandré

Mione Sales*


Depois do artigo de Nalu Vaz ficou difícil dar mais um depoimento sobre por que votar na Dilma no segundo turno. Ela disse o essencial. Vou puxar, então, a brasa para a sardinha coletiva e contribuir com a parte final do seu artigo: o enfrentamento dos próprios monstros. Não falo de monstros individuais, mas daqueles sobre os quais vale a pena escrever como quem pensa alto: os « monstros » da esquerda. O intuito é avançar alguns elementos para contribuir com o debate não apenas conjuntural, mas dentro de uma interlocução mais ampla com a esquerda – da universidade ao bairro, aos acampamentos urbanos e rurais, e ao sindicato.

Na verdade, se soubermos seguir a pista poética do escritor moçambicano Mia Couto, veremos que o escuro está onde o colocamos. Ou seja, o medo (de enfrentá-los) é o que, de fato, produz e mantém vivos os nossos monstros. Tentemos descortinar alguns deles.


Primeiro monstro: o medo de escutar o outro

                                                   Detalhe da porta de um templo japonês do século XVII 


Sou carioca de coração, pelos muitos anos vividos na cidade do Rio de Janeiro, mas para quem não sabe sou cearense. As minhas memórias políticas ultrapassam, assim, a Central do Brasil, a Cinelândia e a Candelária, e se estendem até a Praça José de Alencar e a Praça do Ferreira em Fortaleza.

Nos anos 80, fiz movimento estudantil (ME), essa grande escola do aprendizado político, da descoberta das diversas « tendências » à escolha por uma delas, aos primeiros posicionamentos, ao pânico de falar em público e às primeiras polêmicas - ainda sem uma história e experiência de vida para dar substância à convicção de esquerda ali estalando de nova. Tive, então, as melhores impressões sobre a militância política, em especial sobre alguns dos seus pares, mas também as primeiras decepções e frustrações com o que cada « palavra », conceito ou categoria quer dizer na prática.


                Ato de artistas em frente ao Teatro José de Alencar e teatro de rua em Fortaleza


Uma das coisas, aliás, que me chamou atenção, quando começaram a aflorar as primeiras inquietações na relação entre o que se defendia e o que se era, de fato, foi a questão da escuta do outro. Causava-me mal-estar a maneira como criávamos, durante as reuniões de estudantes, uma espécie de bloqueio interno à escuta do que tinham a dizer os que pensavam diferente. Isso, infelizmente, não era privilégio de uma corrente apenas. Quase todas se valiam desse estratagema: o que importava era falar, com o fim de convencer os demais e os eventuais « independentes », e sobretudo ganhar a reunião. O que os demais tinham a dizer interessava somente na medida em que era preciso contestá-los e derrubar os seus argumentos. Na melhor das hipóteses, para se construir uma proposta mais avançada.

Claro que essa é uma « caricatura » de como as disputas políticas se processavam e ainda se processam desde os centros acadêmicos (CA) até o Congresso Nacional. No ME, uma dose de sectarismo pode até ser compreensível em razão da necessidade de autoafirmação da juventude na relação com os seus ideais. Afinal de contas, quanto mais se pensa - com o « auxílio luxuoso » de leituras, conferências, muito estudo etc. – e quanto mais se sabe a respeito do que os outros pensam, dá-se vazão ao grande « temor-monstro » do risco de flexibilizar as fronteiras das próprias convicções. No entanto, a liberdade não tem muros e, como o amor, não tem rede de segurança. Já prevenia Guimarães Rosa: “viver é muito perigoso”, donde a exigência de se saber escolher e de se tentar ser coerente vida afora com as opções feitas. No caso da política, são aprendizados coletivos, mas com uma dimensão pessoal intransferível e insubstituível.


Foto: Frédéric Hugon  /  Arte: Mione Sales


O medo do outro, isto é, do debate e consequentemente da democracia e da liberdade assemelha-se ao medo do escuro de que fala Mia Couto, o que explica os desenhos ainda mais obscuros que produzimos para preenchê-lo. Talvez por isso seja proposto à esquerda o desafio de « endurecer », por vezes, infelizmente, sem qualquer espaço para a ternura.

Em tempo: flagrei-me ainda no ME e do alto da minha « indisciplina », tentando ouvir realmente o que cada um tinha a dizer no seio do grande bloco de esquerda da universidade e percebendo que, apesar das resistências recíprocas e da proposição de diferentes estratégias para atingir os objetivos, havia muito em comum entre todos eles.


Segundo monstro: da união ao dissenso




Descobriria, todavia, mais tarde, com o filósofo francês Jacques Rancière, que a política é um território propício muitas vezes ao desentendimento - não à briga propriamente, mas à não-compreensão mútua. Segundo ele, muitas vezes, alguém diz « branco » e o outro ouve « branco » à sua maneira, isto é, os dois não conseguem ouvir e ver o « mesmo branco ». Parece simples, mas não é. Basta colorirmos e preenchermos essa tese com significados mais densos, como « democracia », « socialismo », « liberdade de expressão », « distribuição de renda », « reforma agrária », « diversidade sexual », « multiculturalismo », « globalização » e, para retomar um dos temas candentes dessa campanha eleitoral, « aborto ».

Seria fácil se o mundo se dividisse apenas em burguesia e trabalhadores, ou se pensássemos apenas em termos de « Serra » e « Dilma ». No entanto, fazer política e pensar de maneira « complexa » e sob o signo da totalidade exige nuances. É, a esquerda não começa e nem acaba no PSTU (com todo o respeito que tenho por essa legenda e sua história), bem como a direita pode ser muito, muito pior do que o próprio Serra, muito embora este venha se superando em seu conservadorismo, estabelecendo alianças com ícones da ditadura militar, como a Tradição, Família e Propriedade (TFP).

Mas voltando a Rancière, tem-se como consequência do desentendimento (que não é apenas fruto da racionalidade ou do exercício lógico e cognitivo) o dissenso, ou seja, o ponto em que não há consenso. O dissenso pertence, pois, ao campo das divergências: em decorrência de interesses de classe e visões de mundo diferentes; experiências de trabalho e de vida, pertencimento social e escolhas ideológicas distintos, mas também de dificuldades de apreensão do debate, linguagem e terminologia políticas.

Não se consegue entrar num acordo, porque não se vê do mesmo modo, nem se sente na pele da mesma maneira e não se julga também que as propostas que os « outros » trazem como correspondendo aos interesses daqueles a quem se representa. Por isso, as prioridades de uns não são as de outros, justamente porque se vê diferente, se compreende diferente e se é diferente (como indivíduo e classe social). Da mesma maneira, pessoas que veem parecido e aspiram a coisas afins, associam-se, inclusive de forma transversal socialmente, contra os demais que pensam diferente deles. Por isso, luta-se, age-se e se combate.

Propostas e reações inconciliáveis frustram as expectativas mais ingênuas e idealistas que jazem escondidas dentro de nós, que nos sentiríamos mais confortáveis em preconizar a união de todos. No entanto, como diz o ditado, é pelo atrito com a areia que se forma a pérola. Por isso, não devemos temer o conflito. E é isso que alimenta a política e a luta pelos direitos contra os ataques e ameaças dos que defendem o status quo, as elites e o lucro desenfreado.


Terceiro monstro: o medo do consenso



Acordos e consensos, porém, também precisam ser encontrados, porque é a partir desse patamar que se dá a construção social. Senão, como erigir e desenvolver uma sociedade num mar de hostilidades e (in)diferenças mútuas?

Ao refletir sobre a esquerda, o que cabe no contexto eleitoral, mas também nas demais situações de troca, confronto e tentativa de construção de projetos em comum, costumo me valer do exemplo do desafio da convivência num «fusca »: se, por vezes, é difícil ou quase impossível os seus passageiros entrarem num acordo sobre o percurso, quem dirige e para onde se vai ou como se dividem as despesas de óleo, gasolina etc., imaginemos essas tensões, relativas a decisões partidárias ou da relação entre os movimentos sociais e o governo - decisões altamente complexas que envolvem recursos financeiros, o destino e os interesses de muitos!

No entanto, por vezes, a saída enxergada por alguns, quando se torna difícil coexistir no « fusca » não é procurar descobrir novas respostas coletivas, mas abrir a porta do carro e convidar os demais a descerem.


Quarto e decisivo monstro: a relação entre poder e democracia


 « Saturno devorando seus filhos », do pintor Goya


« Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado ».
Chico Buarque


A sensação de ficar para trás depois dos investimentos feitos na vida a dois ou no usufruto de um bem, um equipamento de uma associação, de uma torcida ou um time de futebol, é a mesma ou parecida com a aquela de lutar por um ideal coletivamente e ver depois os seus sonhos frustrados.

Eu assim como muitos camaradas e amigos experimentamos esse tipo de sensação no campo da esquerda na esfera local e também nacionalmente. O elemento desencadeador costuma ser justamente as vitórias eleitorais. Costuma haver, senão de um dia para o outro, na sequência do primeiro ano de mandato, a explicitação das diferenças, com possibilidades de « rachas políticos ». Muitas vezes, quem ganhou rompe com uma parte dos apoiadores e pretende dali para a frente dar sozinho as cartas do jogo. Todos os demais são, assim, total ou parcialmente excluídos do âmbito das decisões de poder, mesmo que prossigam atuando perifericamente em alguns projetos da gestão local ou nacional.

Esse tipo de « crise » sempre tem dois lados: o dos vitoriosos, que pensam apenas na liberdade de agir, sem o inconveniente de ter que discutir, partilhar e acatar opiniões divergentes relativas aos membros da mesma tendência e partido. Nesse momento, eles só enxergam o gozo do poder, o triunfo, a sensação de « bastarem a si mesmos », o « enfim sós » rumo ao socialismo (ôps!) !

Do outro lado, os circunstanciais perdedores - ou melhor, os que sofreram o « golpe », porque submetidos a um « racha» à revelia, despejados de um projeto em comum - sentem vergonha pelo desrespeito individual e coletivo que lhes foi infligido, mais um duro choque emocional pelo encurtamento abrupto das possibilidades imaginativas e prático-críticas. O sonho tão ao alcance da mão, de repente, vira pesadelo.

Como tudo tem o seu revés, esse tipo experiência não conduz necessariamente a vitórias maiores posteriores. Duas tendências mostram-se possíveis: * se se trata da defesa de ideias muito radicais e inconciliáveis com o restante da esquerda, este tipo de atitude pode conduzir ao isolamento e a derrotas eleitorais mais tarde, em contraste aos onipotentes desejos de poder inicialmente ostentados ; ** outra possibilidade é a da ampliação excessiva da base de apoio, com a flexibilização de certos princípios e valores históricos, o que contribui para o afastamento e ruptura com antigos militantes. A gestão adquire cores diversas, cada vez menos escolhidas na palheta da esquerda. O que é recorrente nessas experiências de choque de expectativas e autonomização de projetos coletivos é a questão do poder e da democracia.

Vale a pena recordar que o Partido dos Trabalhadores nasceu rompendo com problemas clássicos dos “partidos de esquerda”. O PT não veio do alto, pelo contrário nasceu das bases, lá no ABC paulista, pólo do operariado brasileiro. Sua experiência de luta e organização classista sugeriam uma nova maneira de fazer política e, portanto, uma espécie de reforma intelectual e moral. A partir dali, poder-se-ia refazer o valor das palavras, atentos aos princípios libertários da práxis política de esquerda; tudo nutrido cotidiana e dialeticamente com a substância das lutas e exigências democráticas dos movimentos sociais.

No Rio de Janeiro, tornei-me « petista » na prática e no coração. Ademais, supri minha paixão pela militância por meio do engajamento no Conjunto CFESS/ CRESS, espaço de organização política da categoria dos assistentes sociais. Ali, participei desde o âmbito da fiscalização do exercício profissional ao da ética do Serviço Social, às bases de uma política de comunicação para o Conjunto até a esfera das políticas sociais e da lutas por direitos de crianças e adolescentes.

Fique claro que não havia nem há expectativas, nem de minha parte nem dos meus colegas, de que a militância nesse espaço profissional opere uma substituição das necessidades do partido, mas acredito que dali é possível, sim, contribuir para transformações e conquistas na relação com o Estado, a sociedade civil e a própria categoria.

Se não me filiei a uma nova corrente especificamente, foi porque mesmo aquela com a qual flertei em terras cariocas, também reproduzia velhos erros, que não somente eu e meus antigos camaradas cearenses já criticávamos, mas como diz a poeta Adélia Prado, « sua raiz vai ao meu mil avô ». Não gostaria, assim, de endossá-los nas relações entre companheiros, espécie de avant-première do socialismo. Resta, aliás, saber se certos problemas não são estruturais à esquerda e não somente a esta ou àquela « tendência ». O que nos leva a concluir que o tema da democracia ou da « reinvenção democrática », para ampliar a categoria do intelectual francês Claude Leffort, permanece como um desafio da esquerda brasileira.

Inovar e agir diferentemente não parecem nada simples e em muitos casos talvez sequer constituam uma tentação ou um problema que inquiete certos tipos de militantes mais apegados aos dogmas ou seduzidos pelos ganhos materiais que emanam do poder e da burocracia partidária.


Tudo é uma questão de produzir uma convivialidade democrática e libertária


Foto: Mione Sales - “Monumento à Paz”, em Berlim


« O medo de amar é o medo de ser / livre para o que der e vier
livre para sempre estar / onde o justo estiver
(…) é o medo de ter / de a todo momento escolher
com acerto e precisão / a melhor direção
(…) medo de (…) não arriscar / esperando que façam por nós
o que é nosso dever - recusar o poder »
Beto Guedes e Fernando Brant


A democracia burguesa pode ser insuficiente, mas uma esquerda desatenta ou indiferente às exigências da democracia não deve ser o seu contraponto. Fala-se em socialismo, mas muitos não têm noção ou subestimam (d)a imensa complexidade do que significa reinventar as regras de uma convivialidade efetivamente democrática e libertária. Desde a Grécia clássica, vimos potencializando essa categoria como forma de diminuir os vícios do poder e ampliar os direitos da maioria à representação. O que soma, por exemplo, com o « direito de fala » ou direito de expressão. Por isso, muitos morreram e lutaram.

A tese de Carlos Nelson Coutinho sobre a « democracia como valor universal » revela-se, assim, cada vez mais de uma extrema atualidade no Brasil e no mundo, enquanto princípio do qual não se pode abrir mão, pois é antídoto contra todas as formas de casuísmo, fisiologismo, totalitarismo, fascismo, terrorismo, entre muitos outros desvios à direita e à esquerda do espectro político.

Assim, com o passar dos anos, quanto mais observo gente e a esquerda em particular – objeto aqui da nossa reflexão -, mais me convenço da necessidade da « democracia », reinventada, porque não se satisfaz com a formalidade da mera igualdade jurídica. Há felizmente em curso alguns exemplos desse tipo de reinvenção coletiva da democracia, mas não sem contradições evidentemente: os acampamentos do movimento dos trabalhadores sem-terra (MST) no Brasil e a criativa experiência zapatista em Chiapas no México.

Quando falamos em democracia, vale a pena recorrer à definição presente no Código de Ética dos Assistentes Sociais: « democracia como ampliação da participação política, mas também como socialização da riqueza socialmente produzida ». Nesse tocante, é importante incorporar nessa utopia as conquistas da modernidade e do desenvolvimento das forças produtivas, como condição da felicidade de todos e não mais como privilégio de poucos. Essa é, aliás, a doce utopia da juventude: direitos, rock n’roll, rap, funk e tecnologia.

A democracia é, portanto, salvaguarda de qualquer projeto coletivo, partidário e societário. Ela depende fundamentalmente de cada um de nós, das nossas reflexões no meio da luta e da nossa capacidade em oferecer resistência às injustiças e ao papel destruidor da sociabilidade representado pelas mais diversas formas de autoritarismo e personalismo. A democracia não é algo que vem apenas de fora ou de cima, somos nós que a alimentamos cotidianamente e a construímos individual e coletivamente.


Sem medo de ser feliz
votar em Dilma não é passar um cheque em branco


                Fotos: Cynthia Studart – « Onda vermelha », campanha eleitoral 2010, em Fortaleza

Quem fala em dissenso diz, portanto, muitas vezes, discordâncias e fundo ou inconciliáveis tanto no que se refere às candidaturas majoritárias quanto também no seio da própria esquerda, do que resultam, nesse momento, leituras e posicionamentos políticos distintos: voto crítico na candidata Dilma ou voto nulo.

No primeiro turno, votei no Plínio, um nome legitimado nacional e internacionalmente, construído junto aos movimentos sociais. Votar no Plínio foi um posicionamento contra todo e qualquer tipo de golpismo da esquerda, de « tapetão », contra todas as formas de « nepotismo », isto é, aqueles que tiram proveito material ou almejam fazê-lo em qualquer parte da administração federal, estadual e municipal escudados na legenda do PT (ou também de outras legendas de esquerda que ocupem cargos e estejam à frente de gestões de governo), contra os que tiram proveito pessoal ou empresarial do Lulismo, contra a não escuta dos antigos companheiros do PT e do atual « bloco de esquerda » na definição dos projetos de governo, contra a escuta privilegiada, muitas vezes, dos que representam o capital e as velhas oligarquias no Brasil. Esse é, inclusive, o meu ponto de consenso com o também colega de blog, Ricardo Pereira.

No entanto, felizmente, o governo Lula não é somente isso. Por isso, vou votar criticamente na Dilma no segundo turno, para fortalecer o apelo à efetivação de uma pauta de governo, em que haja uma presença cada vez maior de estratégias de inclusão dos pobres, com participação também deles na definição das prioridades e nos rumos das políticas sociais. A esperança é que a preservação de valores humanistas na condução do país contribua para o « processo de libertação dos invisíveis » por suas próprias mãos; esperança que não é somente minha, mas também dos que metem a mão na massa, porque desenvolvem trabalhos e fertilizam os talentos em potencial das periferias, por meio de uma sensível escuta às suas demandas e ideias. Essa chama encontra-se acesa e forte hoje, por exemplo, em Fortaleza entre assistentes sociais, artistas e militantes, como Preto Zezé, retrato do inconformismo, aliado à reinvenção prático-crítica e criativa da utopia, « sem medo de ser feliz ».

Fazer diferente, vale repetir, começa por nós mesmos. O socialismo expressa-se, portanto, nos gestos e escolhas de cada um, no poder ou não. O socialismo, pois, não é apenas uma confortável e distante utopia, para a qual devo dar provas de caráter e de coragem somente daqui a 10, 50 anos ou, quiçá, nunca. Essa é a diferença – da perspectiva libertária, emancipadora e autônoma - dos que defendem a construção de um projeto democrático popular desde baixo, « desde bajo »: o futuro começa hoje.

::::::::::::::::::::::

Mione Sales – é assistente social, doutora em Sociologia (USP) e professora do Depto de Políticas Sociais (FSS/Uerj). Contato: mioneecia@hotmail.com

::::::::::::::::::::::

Links
(Bloco na Rua)
(Pra não dizer que não falei das flores)
(O medo de amar é o medo de ser livre)
(Os sonhadores, de B. Bertollucci)
(Zapatistas)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Editoria Web@Tecno

Quando a liberdade de expressão se torna um « delito de opinião »

Imagem: Google
Nelma Espíndola*


É no mínimo curiosa a maneira da grande imprensa brasileira assegurar a “liberdade de imprensa”, quando ela se choca, na prática, com o exercício da “liberdade de expressão”. Triste realidade vivida recentemente pela psicanalista Maria Rita Kehl, que foi demitida do jornal O Estado de São Paulo, após ter publicado na véspera das eleições (02 de outubro), em sua coluna, um artigo que fala sobre “a desqualificação dos votos dos pobres”, com o título “Dois pesos...”

Neste caso, sua “liberdade de expressão” contrapôs-se aos interesses do Grupo O Estado de São Paulo, o que lhe custou a censura e o corte do espaço que dispunha naquele jornal para comunicar-se com uma parcela significativa da sociedade.

Os limites da liberdade de imprensa ficaram bem explícitos com sua demissão, no último dia 06 de outubro. Isto significa que esse tipo de liberdade de imprensa possui, de fato, dois pesos. Constitui um direito e poder para a “máquina de fazer e reproduzir notícia”, de “informar” o que for de seu maior interesse, associado aos de outros grupos das classes sociais mais abastadas. Por isso, este conceito restrito de liberdade cabe inteirinho à imprensa burguesa.

A liberdade de expressão ou a liberdade de comunicação, como alguns conceituam, foi, por outro lado, literalmente expurgada de Maria Rita. Em entrevista com Terra Magazine < Política, no dia 07 de outubro, a jornalista definiu sua demissão da seguinte forma: “Fui demitida por um ‘delito’ de opinião”. E acrescenta: “como é que um jornal que anuncia estar sob censura [referência à perseguição desse jornal pela ala do PMDB com poder no Planalto], pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?”.

Terra Magazine < Política entrevistou no mesmo dia, Ricardo Gandour, diretor de conteúdo do Grupo Estado de São Paulo, que diz inicialmente que “não houve demissão”, simplesmente afirma que: “Colunistas se revezam, cumprem ciclos” e que “Não houve censura a Maria Rita Kehl”. Segundo Gandour, o projeto original do caderno C2 + música era o de constituir um “espaço em torno da psicanálise. Um divã para os leitores. Mas este não era o enfoque que ela vinha praticando e frequentemente conversávamos sobre isso.”

Desde quando é impossível em psicanálise falar sobre política? Viver em sociedade é viver num emaranhado político, com acordos, discordâncias, e correlação de forças. Mas tudo fica subitamente transparente, na medida em que o processo de demissão foi motivado por um artigo reflexivo e questionador, na véspera de eleição majoritária, sobre a “desqualificação” dos votos dos pobres por uma classe minoritária, mas com influência de “mando”.

Este fato nos faz ver como o “quarto poder” ou o que hoje ironicamente se conceitua como PIG – Partido da Imprensa Golpista – utiliza-se de seus meios de influências para fazer valer o seu pensamento e credo.

A Web@Tecno não poderia deixar de se solidarizar e re-produzir em seu espaço o artigo da colunista e psicanalista Maria Rita Kehl, que originou a sua demissão, por nossa responsabilidade em contribuir com o debate sobre a mídia, assim como sobre o que pode ser determinante no destino de nosso país, no próximo dia 31 de outubro.

Nem é preciso dizer que os ditos "desqualificados" - até recentemente « sem-cidadania », conforme diz Kehl - têm todo o direito constitucional de opinar e de também decidir sobre uma eleição por todos os meios e possibilidades disponíveis ao exercício da cidadania e justiça social, sem que isto seja apenas um jargão de marketing político.


* Nelma Espíndola é assistente social, webmaster e Colaboradora do Blog Mídia e Questão Social.

::::::::::::::::::::::::::::::

Dois pesos...


02 de outubro de 2010 0h 00

CPFL Cultura/Divulgação

Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo


Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Editoria Caleidoscópio Baiano

O AMOR FALA TODAS AS LÍNGUAS

Claudia Correia*


O Conselho Federal de Serviço Social – CFESS lançou em 2006, uma campanha em defesa da liberdade de orientação sexual. Lembro que o belo cartaz, de fundo vermelho, trazia fotos de casais homo e hetero afetivos. O slogan era “O amor fala todas as línguas”.

Aqui na Bahia o lançamento desta campanha mobilizou, num ato político, entidades de direitos humanos e representantes do movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais – LGBT e denunciou o preconceito e a homofobia como crimes. Esta articulação foi uma ótima oportunidade para o Cress-Bahia estreitar nossos laços de aliança política com este importante movimento social.

Já na década de 80, o Grupo Gay da Bahia-GGB, era um aliado essencial nas lutas políticas de entidades aqui em Salvador, no combate à AIDS e no trabalho socioeducativo em escolas e associações de moradores. Na época, eu militava no movimento indigenista e o GGB estava sempre presente nas nossas manifestações em repúdio ao genocídio e a violação dos direitos das 12 comunidades indígenas do estado. Até hoje a entidade se mantém firme na defesa dos direitos humanos e constrói um trabalho sério.

Este mês, o CFESS e a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS divulgaram cartas de repúdio à Faculdade de Minas – FAMINAS em Muriaé, Minas Gerais, por ter proibido a veiculação de um cartaz da 7ª Semana Acadêmica de Serviço Social que continha uma fotografia de um casal homoafetivo se beijando. A empresa Lael Varella Educação e Cultura Ltda, mantenedora da FAMINAS alegou que a imagem deporia contra a instituição e sugeriu algo “menos ofensivo à família”.