sexta-feira, 6 de junho de 2014

Editoria Jornalismo na Correnteza - Ano 04

Desculpem, vou torcer pela seleção de futebol e pelas manifestações. Pode?







Por Ana Lucia Vaz*

“Eu peço que o pessoal esqueça um pouco... eu sei que é difícil, mas esqueça um pouco os problemas para participar da festa. Depois a gente volta a cobrar nossos direitos”, foi o apelo de Daniel Alves, ao final do jogo amistoso com o Panamá, dia 3 de junho. As palavras foram mais ou menos essas. Eu não estava preparada, não tinha papel, nem caneta, nem gravador na mão. Fui pega desprevenida pela fala direta, verdadeira e corajosa de um jogador, no meio da enxurrada de abobrinhas que costumam ser ditas durante uma partida.

São falas como essas que podem salvar nossa paixão nacional pelo futebol. Mas são tão raras! Estamos mais acostumados às demonstrações de falta de noção da realidade de Pelés e Ronaldos. Também nos habituamos ao vazio das falas de jornalistas bem treinados em ocupar horas de microfone sem dizer nada que possa desagradar a toda-poderosa Fifa. E ainda dizem que censura é coisa de governos. Como dizem meus alunos: “só que não”.






Antes que me apedrejem de um lado ou de outro, não concordo com Daniel Alves. Não dá pra esquecer os problemas. E acho que eles, lá nos bastidores da seleção, devem estar fazendo muito esforço pra isso. Com pouco resultado. Deu uma sensação estranha, de desconcerto, ver todos reunirem-se no centro do campo, ao final do jogo contra o Panamá. O locutor, claro, acostumado a conduzir a cerimônia de acordo com o protocolo, dizia que eles se reuniram para agradecer à platéia. Houve, é verdade, alguns jogadores aplaudindo a torcida. Mas, sei não, eles pareciam mais cobras sem veneno que jogadores que acabaram de vencer uma partida por 4 a 0. O que será que pensavam ou sentiam? Difícil saber. Eles vivem sob forte censura.






Talvez eu apenas tenha projetado naquelas imagens meu sentimento. Eu tinha cinco anos quando o Brasil foi tri-campeão. “Todos juntos vamos, pra frente Brasil” é uma música mais forte que “atirei o pau no gato” pra me lembrar minha infância. Soube cedo que, enquanto a seleção jogava, o governo torturava. Me tornei militante, fiz muita passeata contra a Ditadura. E nada disso abalou minha paixão por futebol. Por muito tempo, contei nos dedos os anos para a Copa do Mundo. Conhecia de cor a escalação da seleção brasileira e dia de jogo era dia de muita festa.
Com o tempo fui me desencantando um pouco. A vitória da seleção de resultados de 1994 deu um gosto de cabo de guarda-chuva na boca. A Copa perdida para a França, com um Ronaldo desnorteado e uma seleção totalmente apática em campo foi outro balde de água fria. Perder tudo bem. O problema foi a sensação de perder para Nike, ou para Adidas, ou sei lá... E o futebol foi perdendo um pouco do encanto, cada vez mais negócio, menos arte, mais publicidade, menos esporte.






Assim mesmo, juntar a família ou os amigos pra torcer juntos continua sendo uma festa impagável. Ai, falei a palavra errada! Na festa da Fifa tudo é pago!!! Este ano está difícil demais. Com tantos amigos perdendo suas casas, tantos alunos e amigos apanhando nas ruas por exigir saúde e educação. E isso tudo em nome da Copa? Pobre seleção, pobres jogadores cujo sonho de heroísmo virou anteparo para a ganância das mega corporações imobiliárias, de comunicação e de esporte.
Eu vou torcer para a seleção sim, Daniel Alves. Vou torcer porque é divertido. Porque gosto da festa do futebol. Mas vou torcer sem esquecer que a Fifa não está nem aí para o sonho de vocês e tenta matar os nossos. Sem esquecer que o futebol foi engolido pelo mercado.

Vou torcer porque estou cansada do debate polarizado que tomou conta das redes e das mídias em geral. O debate burro de marcação de posição, onde o que importa é descobrir, ou inventar, argumentos contra o outro. Neste debate burro, o futebol é o ópio do povo. De um lado, alguns torcem pela seleção para afirmar a Copa e apostar na “alegria” que vai acalmar o espírito do povo e isolar esses baderneiros que tomaram as ruas. De outro, os que torcem para que a seleção brasileira perca, apostando na mesma tese sobre o futebol. Uma tese velha e mofada, que acha que é preciso indignação e tristeza para fazer a revolução. Desta revolução amarga eu estou fora!

Pois eu quero que o Brasil seja campeão nesta Copa. E que a alegria da vitória no futebol esquente os tambores dos protestos e da esperança em um Brasil e um mundo melhor.

                




Para começar a juntar protestos com futebol, sugiro espalharmos a campanha: #liberdadedeexpressaonofutebol contra a censura imposta pela Fifa!

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* Ana Lucia Vaz, jornalista do Conselho Regional do Serviço Social do Rio de Janeiro (CRESS-RJ), mestre em Jornalismo (USP), membro da Rede Nacional de Jornalistas Populares (http://www.renajorp.net),  professora de jornalismo e terapeuta craniossacral.


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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Editoria Web@Tecno - Ano 04

A METAMORFOSE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
Quando as redes sociais são as coadjuvantes

                                                                                          
  Foto Google - Passeata na Av. Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em 17/06/2013, 
com mais de 100 mil manifestante.

                                                                                                                                               

                                                                                                                                      POVO NOVO 


                                                                                                                                     "A minha dor está na rua

                                                                                                                                     Ainda crua

                                                                                                                                     Em ato um tanto beato, mas

                                                                                                                                     Calar a boca, nunca mais!

                                                                                                                                     O povo novo quer muito mais
                                                                                                                                     Do que desfile pela paz(...)

                                                                                                                                     Já me deu azia, me deu gastura
                                                                                                                                     Essa politicaradura

                                                                                                                                     Dura,

                                                                                                                                     Que rapa-dura!"

                                                                                                                                                                  Tom Zé

*Nelma Espíndola
                                                                                                           

O mês de junho de 2013 marcou um novo tempo na dinâmica do povo brasileiro em se fazer ouvir. O cantor e músico Tom Zé em sua composição O Povo  Novo,  música feita para esse movimento de protesto diz: "O povo novo quer muito mais / Do que desfile da paz". Trata-se de uma expressão significativa de rejeição a algumas práticas reformistas, que desejam calar as vozes dos que superaram a alienação em fazer valer os direitos sociais. Já vimos muitas vezes, em momentos de tensão política, essa prática ser utilizada por quem tem o poder instituído, quando do exercício de representatividade conferido pelo voto.  Mas é preciso que se entenda que a escolha e legitimação desse poder se situam numa relação entre ética e política, e se estendem do mesmo modo na vida social e profissional de todos os sujeitos sociais.

No contrafluxo do poder, o povo se reveste do direito à rebeldia contra as práticas políticas impostas pelos que o governam. Suas ações contestatórias vão, assim, se espraiando em meio a um cenário de reivindicações e exigências “de um povo heroico”, com seu “brado retumbante”. Brasil, o “gigante deitado em berço esplêndido”, que acorda na primeira década da Nova Era e não quer mais deixar de ser partícipe das decisões da sua história, e luta por plenos direitos sociais e políticos.

domingo, 27 de abril de 2014

EDITORIA VOLTA DO MUNDO - Ano 04

SOMOS CRIATURAS EMOCIONAIS
Meninas-mulheres em monólogos que traduzem percursos e lutas





Em memória de Cláudia da Silva Ferreira.

 « (…) dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô."

ADÉLIA PRADO


Mione Apolinario Sales*

Ainda nos anos 90, Zezé Polessa montou e representou no Brasil a peça Monólogos da Vagina. Foi um sucesso monumental, com várias temporadas no Rio e São Paulo. Na época, minha vida docente combinada a uma intensa militância no Conjunto CFESS/CRESS não me permitiu conferir o espetáculo. Mas não o esqueci. Desde sempre, achei o título desta peça de uma tremenda ousadia e por isso mesmo me parecia tão instigante. Como naqueles idos dos anos 90 eu não estava diretamente envolvida com a temática feminista, o meu interesse afogou-se em meio a outras demandas e prioridades. O tempo seguiu seu curso qual um rio, mas…

FEMINISMO, UMA TRINCHEIRA ATUAL




Muita água passou embaixo da ponte. Casei, tive uma filha e por um misto de afinidades, necessidades e coincidências, fui me reaproximando do movimento feminista. Deste interesse renovado, surgiu, no final de 2012, o grupo Lutas Lobas no Facebook, onde tenho confirmado, ao lado de várias mujeres do Brasil e do mundo a premência desta frente de lutas. O balanço do final da primeira década do novo milênio veio mostrar que, a despeito dos avanços dos debates de gênero (neste caso, a luta se ampliou com novos atores, parceiros e parceiras e suas demandas), a problemática feminista está mais do que nunca na ordem do dia.


  

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Editoria Equipe Mídia & Questão Social

EM  OUTUBRO  DOIS  LANÇAMENTOS DE LIVROS DE DUAS BLOG-COMPANHEIRAS ACONTECEM NO RIO E EM SALVADOR



  
"A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro."
Gabriel García Marquez



A Equipe do Blog Mídia & Questão Social tem o prazer de compartilhar com todos dois acontecimentos que terão o mês de outubro como um desdobramento de três anos atrás, ou, mas precisamente de 11 de setembro de 2010, quando elas estavam "juntas e misturadas", com outros autores do livro Mídia & Questão Social.

Hoje, continuam a espraiar seus pensamentos, experiências cotidianas e profissionais, alimentadas pelas veias jornalísticas e de mestras, sendo essas entrecortadas pelo Serviço Social. São Elas: Ana Lucia Vaz* e Claudia Correia* que fazem, respectivamente, no Rio de Janeiro e em Salvador o lançamento de seus livros.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Editoria Equipe Blog Mídia & Questão Social

MANIFESTAÇÕES & CIDADANIA 

"Cadê o Amarildo? A equipe do Blog Mídia & Questão Social também quer saber: 




Reprodução reportagem Domingo Espetacular 


Toda nossa solidariedade aos familiares e à Comunidade da Rocinha!




Reprodução entrevista Mídia NINJA


Abaixo a violência policial!  Abaixo os métodos inescrupulosos da ditadura!
 

Assista ainda o curta-metragem 'Eu, um Amarildo', com Direção e Edição: Rômulo Cyríaco. Clique aqui.


Equipe do Blog Mídia & Questão Social.


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Editoria Jornalismo na Correnteza

O RUÍDO QUE VIROU GRITO



                                                        Foto: Google


Ana Lucia Vaz*

Cada geração tem seus desafios, suas possibilidades e limites. Há mais de dez anos trabalhando como professora universitária, me convenci de que a minha foi uma geração privilegiada. Entrar na universidade nos anos 1980, quando o Brasil se democratizava, nos permitiu ir às ruas mil vezes, sonhar juntos, construir utopias maravilhosas.

Não sofremos a repressão violenta dos que nos antecederam, mas herdamos deles o poder de sonhar um mundo melhor. Descobrimos a sociedade quando ela se transformava e, arrastados pela onda de mudanças, não foi difícil sonhar tantas outras que poderiam vir. Fizemos muitas festas nas ruas, “sem medo de ser feliz”.

Mas os anos 1990 chegaram com sabor de contra correnteza. Quando comecei a dar aula na universidade, no início dos anos 2000, encontrei uma juventude muito diferente da minha. Me assustei, algumas vezes, com o pragmatismo de meus alunos. A universidade passando por profundas mudanças, alguns poucos mobilizando uma reação, recebo a pergunta da turma, desconfiada de que não “valia a pena” participar: professora, você acha que adianta alguma coisa essa manifestação?” Perguntas que eu só sabia responder ensinando para eles sobre o meu ponto de vista. “ Se vai dar resultado? Não sei. A gente nunca sabe antes de entrar na briga. Mas tenho dificuldade de entender sua pergunta. Porque pra mim, pra minha experiência política, a pergunta principal não era sobre o resultado. Mas sobre a causa. Se é justa vale a pena!”

sábado, 1 de junho de 2013

Cinco Dedos de Prosa


Cinco dedos de prosa 


Blog Mídia & Questão Social
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Entrevista com Beto Moreira e com o Fórum Comunitário do Porto
















Foto: Blog Mídia & Questão Social, 2010.


  “Minha casa, minha vida é o lugar onde eu moro!”
Márcia, moradora do Morro da Previdência


Prezados leitores,

O Brasil começou a “inaugurar” estádios para a Copa do Mundo. Vários deles, segundo a própria imprensa (ver o blog do jornalista Juca Kfouri, da UOL), têm suspeitas e apurações em curso acerca de superfaturamentos. Foram previstos com um custo inicial muito abaixo do que efetivamente já se gastou em sua “modernização”. A imprensa brasileira tem indicado ainda outro efeito destas alterações: a alta dos preços dos ingressos, que tendem a expulsar dos jogos e eventos destes locais segmentos da população que costumavam ter na presença no estádio uma possibilidade de diversão. Outras análises apontam para a grande probabilidade de, em curto espaço de tempo, alguns dos estádios se tornarem inúteis, tendo em vista a baixa utilização prevista para seus espaços.

No Rio de Janeiro, além da Copa do Mundo de 2014, haverá, em 2016, as Olimpíadas. Grandes transformações estão assolando a cidade.

Embora o discurso oficial dos governos e das instituições internacionais prometa deixar “legados”, traduzidos em melhora de condições de vida para a população, não é o que vem ocorrendo. Insegurança, perda de referências culturais, remoções e despejos, autoritarismo na relação com moradores; todas estas vêm sendo práticas e consequências das ações em torno dos jogos que se aproximam.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta


Elas são muitas mulheres
O ACIRRAMENTO DA VIOLÊNCIA MACHISTA E O FIM DO SUPERHOMEM




“O problema são problemas demais
Se não correr atrás da maneira certa de solucionar.”
CHICO SCIENCE


Mione Sales*


A violência contra a mulher, por sua amplitude e gravidade, exige a produção de muitos estudos e pesquisas, e levantamento de dados, de forma a mapeá-la e a contribuir com a formulação de políticas públicas. Como a violência é um fenômeno relacional, a sua decifração requer também a reflexão sobre quem a comete e por que a comete. As hipóteses são muitas. No entanto, ponho-me a refletir, pelo ângulo cultural e social, acerca de um tema candente: a violência do estupro (rape, em inglês, e viol, em francês), especificamente aquela do agressor desconhecido em relação a uma vítima, dele também desconhecida. Sabe-se, contudo, que uma parte significativa dessas agressões contra as mulheres é cometida por um homem conhecido da vítima.

O acaso, porém, muitas vezes, promove encontros infelizes. O ônibus atrasou, perdeu-se o trem, desencontrou-se do amigo, andava-se um tanto quanto distraída, talvez pensando nos problemas do coração ou do bolso, ante a ameaça iminente de perda do emprego ou da chance ainda não vingada de um primeiro trabalho, resolveu-se pegar um atalho por uma rua um pouco mais deserta, saiu-se da reunião para ir ao banheiro do campus universitário, tinha que ir embora logo, pois senão ia levar bronca da mãe, entre outros. O que, na maioria das vezes, constitui um risco é a combinação explosiva de um horário avançado mais um local ermo, e sobretudo a situação da mulher estar sozinha na rua, no carro, no estacionamento ou a fazer jogging, com os seus fones de ouvido. Se a música ajuda a dar ritmo e coragem de se manter em forma, as mulheres deixam de contar com o auxílio precioso de sinais, como o barulho dos passos de aproximação do agressor.

A gratuidade desta violência aleatória, cuja vítima poderia ser qualquer mulher que atravessasse o caminho do agressor choca as pessoas em geral e sobretudo a nós,  feministas. Este tipo de violência, no entanto, abate-se também sobre outras vítimas da violência banalizada e homófoba da sociedade, com o estupro e por vezes o assassinato também de homossexuais, travestis ou simplesmente jovens gays. Se nem sempre estão a portar vestimentas que façam apelo ao desejo masculino – velho argumento que faz parte da cantilena conservadora que tenta justificar o porquê deste tipo de agressão -, o que chama atenção em ambas formas de violência é o componente misógino nelas inscrito. A feminilidade, portanto, e tudo a ela relacionado parece consistir numa potencial forma de risco.

sábado, 30 de março de 2013

Editoria Fazendo Arte & Educação

Um MAR de contradições:
a arte nas escolas da prefeitura do Rio de Janeiro


Fonte: Google


Ricardo Pereira e Dione Lins*


Em 2012, com a chamada de novos professores de Artes Visuais, Artes Cênicas e Música para atender as turmas da Educação Infantil ao 5° ano do Ensino Fundamental da Rede de Ensino Municipal do Rio, acreditávamos que a Prefeitura estava finalmente implementando o ensino de Arte em todos os segmentos das escolas no município. Mas, logo percebemos que a medida se restringia a cumprir a legislação em vigor sobre a obrigatoriedade de o professor (neste caso, o PII, o qual trabalha com o segmento citado) ter 1/3 da sua carga horária para planejamento. Todos os professores – antigos e novos - foram obrigados a cumprir a carga horária de 1 tempo semanal por turma no segmento do EI ao 5º ano. Ou seja, um professor de Arte, hoje na rede, com uma matrícula pode ter até 12 turmas e os que têm 2 matrículas, até 24 turmas, caso atenda apenas este segmento. Resultado: professores extremamente cansados, estressados e desestimulados.

Ainda no início do ano (para cumprir outra Lei – a de obrigatoriedade do ensino da Música) a SME orientou colocar a disciplina música no 6° ano. Mais uma decisão tomada sem a consulta aos principais interessados – professores e alunos. Neste caso, a decisão foi revertida, pois não havia o número suficiente de professores para atender as classes nem tampouco uma explicação plausível para o 6º ano ter música e os demais anos não. 

No final de 2012, a SME manda acabar com os Núcleos de Extensão, onde se incluem os Núcleos de Arte. Tais núcleos realizam há décadas trabalhos de desenvolvimento do conhecimento em Arte e produção artística. A mobilização de professores, pais e alunos destes núcleos fez com que a secretaria voltasse atrás. Mesmo assim, muitos Pólos de Educação para o Trabalho e Clubes Escolares foram fechados.

terça-feira, 12 de março de 2013

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta


RETRATOS FALADOS
ou sobre alteridade e esperança
  


   

  
Mione Sales*

« Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
(…)
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens »
.

FERNANDO PESSOA

« Mulher lendo » - Picasso

Folheava meio a esmo um livro de crônicas e comecei a ler algo que me interessou. Era de Clarice Lispector. Gosto muito do jeito corriqueiro, quase banal que ela empresta aos seus escritos… Sempre algo fortuito a conduz para o labirinto profundo dela e de nós mesmos. Nessa leitura rápida, gostei em particular da crônica « Uma Encarnação Involuntária », talvez por já ter experimentado sensação semelhante. Dizia a personagem-narradora:

As vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria auto-acusação: ao nela, me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queria o retorno a mim mesma.

Num ônibus carioca certa vez fui tomada de enorme empatia por alguém que eu jamais vira antes. Tratava-se de um homem. Um jovem trabalhador, como tantos outros. Uma pessoa comum. No entanto, a dureza percebida nos seus traços, a falta de beleza, uma espécie de desamparo existencial tocaram-me. Sua presença ali a pouco mais de um metro conferia-me a certeza de que aquela pessoa era real e tinha, como eu, uma vida, por mais difícil que fosse a sua: uma vida que de algum modo lhe dava um sentido para levantar, trabalhar, lutar ou simplesmente se revoltar por tudo isso.  Eu não o conhecia e nem por isso, ele deixava de existir. Fechava e abria os olhos e ele continuava ali, na minha frente, existindo. Como aquele homem, milhões. O mundo vai continuar girando, cada vez mais veloz, a despeito de mim e de nós. Por mais que a consciência das coisas seja marcada por uma indelével pegada subjetiva, as coisas e o mundo existem à revelia de mim: aquele trabalhador, o ônibus, ou os versos e tabuletas de que falava o poeta Fernando Pessoa.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Editoria Caleidoscópio Baiano

Devaneios de viagem

(Ou como entender o mundo e a si mesmo com o pé na estrada)
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Claudia Correa*


Enfim, de volta ao nosso blog, reestreando na produção de artigos neste início de 2013 para compartilhar reflexões e sonhos. Ainda é tempo (antes que o festejado Ano Novo envelheça) de desejar a todos um ano rico de criatividade, paz e muitos projetos realizados para todos nós.

Em férias, de passagem pelo Rio e Paraty neste janeiro de esquentar até baiano, alguns fatos me chamaram atenção no cenário da eterna “cidade maravilhosa”. Na verdade, o poeta tem razão: o Rio de Janeiro continua lindo, continua sendo o “coração do meu Brasil”. Alguns podem dizer que meu olhar de viajante não conta, turista é sempre deslumbrado, complacente. Quem vive o cotidiano urbano é quem sabe as mazelas e os problemas que transformam qualquer paisagem paradisíaca em um inferno. Ainda assim, o olhar “estrangeiro” é sincero, resgata aspectos da realidade que superam a banalização daquele que já se acostumou com as imagens e seus significados no dia a dia de um lugar. Por acreditar que esta percepção também é legítima, arrisco compartilhar algumas impressões e reflexões que marcaram minha rápida passagem pelo ensolarado (e chuvoso )Rio.




Toda vez que viajo gosto de comprar jornais locais para me inteirar do contexto, conversar com jornaleiros, motoristas de taxi e de ônibus e pessoas comuns, principalmente as que tem muito contato com o público, como porteiros e garçons. Sempre acreditei que elas traduzem bem o modo de ver e viver o lugar, são “a alma” viva da cidade.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Editoria Web@Tecno

NAS RUAS, O EXÍLIO DOS INCONSCIENTES:

 Será possível "forçar portas, inventar saídas"?!



Museu do Insconciente: Obra de Davi Pereira da Silva 
Sem título - Outubro 2000 Óleo sobre eucatex 55 x 71 cm


"O osso da fala dos loucos têm lírios"
Manoel de Barros


Nelma Espíndola*


O seu codinome era Coronel, seguido da alcunha de "Fura Poço".  A imagem desse homem com quem convivi num certo período de minha adolescência me veio à mente. As lembranças me chegaram, num misto de saudade, ponteada de tristeza e enternecimento.

Um velho negro, andarilho das ruas de meu bairro àquela época. Um ser social simbólico, que fazia dos seus delírios uma afirmação de existência. Vivia a sua história personificada de “coronel”, cujo uniforme militar, se compunha de um casaco azul, calça comprida, botas e um quepe, ganho de alguém que alimentava o seu devaneio. Nada simbolizava um uniforme autêntico. O visível em suas vestimentas era só o desgaste feito em cada peça, com o tempo.  No peito de seu casaco, muitas fitas amarradas com medalhas e latas penduradas. Nunca vi nenhum familiar dele.  Sua casa por vezes era  nas calçadas ou na praça.

Hoje, percebo, que de fato, eu, meus amigos e todos os que o ajudavam, de algum modo, se constituíam em membros de sua família, mesmo que para ele e para nós, naquele dado momento essa representação social nunca tenha se clarificado.  Talvez esse sentimento seja a manifestação da impotência e ignorância, repensados hoje. Esse resgate de culpa, consequência da omissão na luta concreta de se fazer valer os seus direitos e a proteção social, que lhe garantissem o atendimento digno e respeitoso à sua saúde mental.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Editoria Jornalismo na Correnteza

O mundo que não se revela a quem olha de fora
Uma jornalista às voltas com o serviço social: encantamento e vertigem




 Ana Lúcia Vaz*


Desde junho, trabalho como jornalista no Conselho Regional de Serviço Social do Rio de Janeiro. Minha responsabilidade principal é atualizar o site e produzir as matérias para a revista PRAXIS. Neste pouco tempo, já pude participar de alguns eventos e debates significativos da categoria, como o Encontro Nacional do Conjunto CFESS/CRESS.

Há sempre, nesses encontros, um sentimento ambíguo, de reconhecimento e estranhamento. Em alguns momentos, me sinto revivendo a militância estudantil dos anos 80. Em outros, recapitulo experiências dos quase dez anos de imprensa sindical.

Atualmente, estou mais envolvida com lideranças de movimentos sociais de favela e ocupação urbana. São pessoas que trazem questões bem concretas da vida, do mundo que pouco enxergo com meus próprios olhos. Ainda assim, ouvir assistentes sociais tem sido uma experiência única para conhecer aspectos, em geral invisíveis, do mundo ao meu redor.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Editoria Estranha Semelhança com a Utopia

É possível uma sociedade sem prisões?



Jefferson Lee de Souza Ruiz*

Eis uma pergunta que, há tempos, não quer calar em minhas reflexões. Tenho acompanhado debates diversos acerca de como lidamos com o tema.

Num deles, em ótima contribuição, o professor Ignácio Cano, da UERJ, provocou os presentes a um debate a pensar se realmente somos contra uma "sociedade penal" (ou um "Estado penal"). Pena, dizia ele, faz parte de nossas vidas. Pensemos em como agimos quando uma criança "faz birra". Ou quando um aluno não produz o necessário em um semestre, ou mesmo faz "cópia e colagem" na internet para os trabalhos que entrega a seus professores. Ou, ainda, quando alguém fere o código de ética de uma determinada profissão, trazendo prejuízos a quem recebe os serviços prestados por aquele profissional. Podemos dar outros nomes, mas definimos "penas" a serem impostas ou cumpridas por estas pessoas.

Mas há uma distância enorme entre pena e prisão. Parece-me que esta, inequivocamente, é uma associação muito perversa, que não contribui para pensarmos o que há por detrás do discurso que alimenta a ampliação do sistema prisional mundo afora. No mundo todo tem crescido a defesa de um "Estado prisional" - já denunciado por diversos militantes e pesquisadores, como o colega Marcelo Freixo, com dados a respeito que chegaram ao filme Tropa de Elite 2.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Editoria Equipe Mídia e Questão Social

Jovens negros continuam sendo as maiores vítimas da violência letal no Brasil
Documentário relata vida de uma destas vítimas 


Em 2010 morreram 49.932 pessoas no Brasil por homicídio. 26,2 pessoas a cada 100 mil habitantes. 70,6% delas eram negras. 53,5%, jovens entre 15 e 29 anos.

Estes, e outros dados, foram colhidos do DataSUS (estatísticas desenvolvidas a partir das realidades vivenciadas pelo Sistema Único de Saúde no país) e pelo Mapa da Violência 2011. Contam de artigo produzido por Paulo Ramos, especialista em análise política e mestrando em sociologia (a íntegra foi publicada pela Carta Capital e pode ser consultada em http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-violencia-contra-jovens-negros-no-brasil/).

Republicamos, abaixo, entrevista sobre um documentário que retrata a vida de uma destas vítimas. Sabotage, o "Maestro do Canão" (localizada na capital do Estado de São Paulo), teve sua vida interrompida por quatro tiros em 2003. Para Ivan Vale Ferreira (diretor do filme que será lançado em 2013), trata-se de uma perda do porte das de Cássia Eller e Chico Science para a música brasileira.