sábado, 7 de julho de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo da Volta

Mundo vasto mundo: acordes pra acordar!




Mione Sales*

Dos ataques sangrentos contra civis promovidos pelo governo da Síria nos últimos meses aos assassinatos e perseguições homofóbicas em crescimento exponencial no Brasil, parece que a maré do mundo não está muito para peixe. Fica-se sempre com aquela sensação de que com os meios de comunicação e sobretudo a Internet, o mundo talvez tenha ficado pequeno demais e cada vez mais próximo, inclusive a sua violência. Não se sabe se ficamos a par de mais notícias ruins ou se as notícias ruins juntamente com os seus fatos se multiplicam qual um vento galopante na contemporaneidade.

A charge que escolhemos para abrir a matéria, que traz a nossa pequena musa Mafalda, uma criação do argentino Quino, diz bem do desconforto e mesmo dor com que narramos ou lemos o que se passa na política mundial, como a crise econômica avassaladora em países da Europa como Grécia, Portugal e Espanha. O geógrafo marxista David Harvey assinalou muito bem, em Conferência na Escola de Arquitetura de Belleville (Paris, 2010), « não tarda a crise chega até você ». Faz parte do seu ciclo de expansão e reprodução, como característica intrínseca do capitalismo em sua etapa atual. Ela já esteve nos Estados Unidos, agora está impactante na Europa, mas o mundo gira…  Por isso, melhor não esquecer a solidariedade para com os países, povos e camadas oprimidas e exploradas da sociedade.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Editoria Jornalismo na Correnteza

Rio+20: sustentando a propaganda



Que ironia o Rio ser a sede-referência do debate sobre meio ambiente no mundo! “RIO, CAPITAL DA BICICLETA”, diz o site da prefeitura, que garante que temos a maior extensão de ciclovia do país, a segunda maior da América Latina. Vale a pena conferir (http://www.rio.rj.gov.br/web/smac/exibeconteudo?article-id=1534031). O mapa da prefeitura não mostra as “ciclofaixas” atravessando calçadas tomadas pelas raízes das árvores, na Mena Barreto, ou pelos carros, em várias partes da cidade. Nem as que passam rente à porta do hospital público, ou na calçada do supermercado.




O cinema norte-americano, por aqui, ia adorar uma comédia com perseguições em bicicleta, em vez de carros. Não ia faltar lugar para os personagens jogarem um cara de perna engessada pra cima, explodir bolsas de supermercado, se esborrachar numa árvore que toma a ciclovia, atropelar carrinho de criança, ou voar por cima de um fileira de carros estacionados sobre a ciclovia.

Na General Polidoro, a ciclovia (um dos poucos trechos aparentemente de verdade, feita na rua, não na calçada) toma toda a frente do Hospital Pró-Cardíaco. No site do hospital, informam que o cliente “tem como opção o estacionamento GPark”. Pago, evidentemente! Onde será que o pessoal prefere estacionar?



Mesmo no mapa da prefeitura dá pra ver que a preocupação é só com a quilometragem. Uma linha aqui, outra ali, com alguns quilometro, no meio, que o ciclista pode atravessar na base do “dá seu jeito!”



Sem problemas, se você não é bom em “dar seu jeito”, é melhor nem ter bicicleta. Que se danem as bicicletas! A prefeitura vai resolver o problema de transporte com ônibus. Tem obra pra todo lado, os ônibus mudaram de cor e de número, os pontos mudaram de lugar. Até agora, o resultado mais evidente é um monte de passageiros enlouquecidos, tentando adivinhar seu ônibus a tempo de dar sinal a tempo do motorista sair da terceira pista em que se encontrava, a 80km/h, e parar a 100 metros do ponto. Isso, claro, se ele estiver de bom humor.

Os ônibus continuam cheios, a não ser que você esteja totalmente no contra fluxo. Passando nos intervalos que bem entende a empresa e o despachante e dando voltas absurdas para completar seus trajetos juntando o maior número possível de passageiros.


E viva o fordismo!



Enquanto isso, o governo federal baixa, de novo, o imposto sobre a compra de carros. Mais carro na rua! A indústria automobilística agradece. Nossos pulmões que se virem! Principalmente se você for louco o suficiente pra preferir circular pedalando uma bicicleta e abrindo seus pulmões para os escapamentos dos carros.

E, como a palavra de ordem é "desenvolvimento econômico", como nos tempos de Juscelino, a presidente "ajeita" o código florestal para agradar gregos e troianos, ou melhor, empresários e coronéis. As florestas que se virem, como os ciclistas, se pretendem insistir em sobreviver à sombra do "desenvolvimento industrial".




Como já exaltava Tom Zé em Parque Industrial:





Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação
Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção
Tem garotas propaganda
Aeromoças e ternura no cartaz
Basta olhar na parede
Minha alegria num instante se refaz
Pois temos o sorriso engarrafado
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar e usar
É somente requentar e usar
O que é made, made, made
Made in Brazil
O que é made, made, made
Made in Brazil
Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação
Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção
A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar
É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado
É somente folhear e usar
É somente folhear e usar
O que é made, made, made
Made in Brazil
O que é made, made, made
Made in Brazil
O que é made, made, made
Made in Brazil
Made in Brazil


E como o que importa é a imagem...

  


O prefeito decretou feriado para o serviço público e para a educação. A TV informa: nos dias da Rio+20 é melhor evitar ir para o Centro da Cidade. Quer dizer, estamos convidados a deixar a cidade, ou ficarmos quietos em casa. E, como não é para nós, cariocas, os ônibus vão funcionar com a frota máxima. Ainda vão ser criadas duas ou três linhas especiais. Só assim os gringos poderão ver que o Rio é “a melhor cidade do mundo para se viver” (isso também é conversa do site da prefeitura).

Eu não reclamo. Adoro feriado. Mas será que dava para manter a frota máxima para nós, depois, e não reduzi-la a menos da metade nos fins-de-semana?


                                           China em 1970

::::::::::::::::::::::
*Ana Lucia Vaz, jornalista, mestre em Jornalismo (USP), membro da Rede Nacional de Jornalistas Populares (http://www.renajorp.net), professora de jornalismo e terapeuta craniossacral.

::::::::::::::::::::::

DICA:

PARQUE INDUSTRIAL - TOM ZÉ

sábado, 2 de junho de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta


América Latina
Pelas veias abertas da literatura



« (…) a verdadeira coincidência da sociedade e do ser humano requer
uma visão trágica, quer dizer, uma visão de conflito e reconciliação,
oposta à visão maniqueísta que regeu a história moderna,
visão de pecado e extermínio ».

[Carlos Fuentes]

Mione Sales*

Pensei em homenagear os ASSISTENTES SOCIAIS (cujo mês comemorativo: maio, vem de acabar agorinha) com algo diferente. Os diversos eventos pelo Brasil afora supriram meus colegas com o melhor da teoria, da política e da questão social. Então, insistir nesse viés seria, ao meu ver, um pouco como chover no molhado. A morte do escritor mexicano Carlos Fuentes (1928-2012), falecido no dia 15 de maio, forneceu-me uma comovida inspiração:  por que não reclamar o nosso pertencimento à América Latina e a essa condição de hermanos, embora sejamos o único país do continente que fala o idioma português? A língua espanhola nos separa, mas quantas coisas nos unem! Mário de Andrade evocou-as em grandes gritos no seu Macunaíma.  

Sim, somos loucos por ti, América Latina, apesar das guerras, da diferença de língua, de sermos psicologicamente mais próximos da Flórida e de Miami do que da Venezuela. Sim, fomos, sobretudo desde a ditadura militar, colonizados culturalmente pelos que dominaram Cuba nos anos 50 e dela foram expulsos pela revolução em 1959. Sim, nosso coração e sociedade de massa são paradoxalmente norte-americanos, antes de serem latino-americanos. Sim, tentamos reverter o atraso de mais de quinhentos anos, absorvendo, nas últimas décadas do século XX, ondas e mais ondas de igrejas pentecostais, evangélicas e protestantes, como uma maneira de nos reformarmos. « O Brasil ainda há de ter conserto! », pensam entusiasmados os que acreditam no lema do American way of life: dividido culturalmente entre vencedores e fracassados. O senso comum quer assim, tudo indica, ficar ao lado dos vencedores, inspirados ora pela ética puritana, calvinista e protestante ora pelo voluntarismo, combinado ao neopositivismo travestido de auto-ajuda.

Não há, então, na nova ordem, lugar para conflitos nem contradições e tampouco para sofredores, desempregados, degredados filhos de Eva, pobres e latino-americanos? Mostra-se bem contraditório esse novo ethos da salvação, para quem conclama com veemência o Cristo, aquele que teria se batido corajosamente por todos estes. Certamente, seu discurso – « Amai-vos uns aos outros ! » -, em tempos hiperindividualistas, talvez seja agora considerado demodê. Não cabe no produtivista século XXI, que exclui a fragilidade, a lentidão e a profundidade, em nome do côro dos contentes : a geração prozac e ritalina. No atual sistema, ninguém pode titubear nem falhar, corpos e mentes têm que estar sempre em plena forma, reformados, uniformizados.

Na contracorrente, o Serviço Social, ou melhor, o trabajo social,  vem por toda a América Latina, desde final dos anos 60, apostando, nos de bajo, isto é, na capacidade de fazer e de ser dos de baixo: camponeses e trabalhadores. Temos investido num trabalho de educação política, participação e luta por direitos. Brasileiros, somos caudatários todos de Cristóvão Colombo continentalmente falando, sim, pois somos um país novo. Essa novidade nos liberta de arraigados dramas, costumes e preconceitos do velho mundo: Europa, Ásia e África - embora solape também um tanto de cidadania e de civilização. Trazemos a capacidade de desbravar, mais a vontade de inovar sem medo, o que é uma virtude. Portamos, porém, igualmente em nosso seio problemas atávicos, que remontam à Antiguidade, no que concerne às relações de gênero, por exemplo. Somos assim muito velhos ainda quanto a certos temas. Precisamos, especialmente nesse sentido, nos redescobrir. Precisamos nos refundar. Precisamos ousar pensar e fazer diferente, sem trair a nossa cultura e valores.


                                           FOTO : Direito achado na rua

A homenagem à profissão e por extensão ao falecido escritor Carlos Fuentes dá-se aqui por intermédio de um outro autor mexicano que ele admirava e eu também particularmente. Refiro-me a Juan Rulfo (1917-1986), celebrizado por seu romance Pedro Páramo (1955), que é, de fato, uma obra prima da literatura em língua hispânica.

Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente

Li há algum tempo um de seus contos « É que somos muito pobres » - publicado no livro O planalto em chamas (El lhano en llamas), de 1953, conto que desde o primeiro momento me interpelou. Penso que se trata, para o contexto brasileiro acima aludido, de um título deveras provocador, mas foi justamente sua alusão direta à classe trabalhadora que suscitou a minha curiosidade em lê-lo. Queria ver que tratamento o autor tinha dado para esse tema. Gostei, mas experimentei uma sensação de excesso ou desacordo na relação título e texto. Um amigo e interlocutor ontem mesmo me falava que algo parecido se passa com um dos livros de Jean Genet, Nossa Senhora das Flores [Notredame des Fleurs] - já devidamente anotado para ser conferido.

O que acontece com o conto de Rulfo « É que somos muito pobres », ao meu ver, é que, em certa medida, título e texto ficaram aprisionados num tempo histórico, embora tendo imortalizado o México: aquele da problemática da terra e da revolução mexicana em suas diversas faces. Não obstante, esta tensão entre literatura e história, entre relatos do passado e o presente dos leitores, renova a sua função cultural, pelos ângulos da ética e da estética.

Sua circulação na terra brasilis - terra atualmente sendo disputada ideologicamente por apologetas e «vencedores » - torna-se, no entanto, quase blasfematória, pois a força do texto incita, em quem o lê, no mínimo uma sensibilidade para o realismo, em suas várias expressões literárias latino-americanas. Por isso, hesitei, quanto a esse projeto de tradução e de partilha, embora tivesse certeza de que esse conto merecia ser divulgado. Cheguei mesmo a pensar em propor um outro título mais poético (« Serpentina »), num esforço de atualizá-lo e resgatá-lo parcialmente do pathos – referente à ênfase no drama e na tragédia -, em que esteve mergulhada a América católica e a literatura do então jovem autor Rulfo. No conto – um porta-retrato de uma família camponesa mexicana -, por exemplo, o narrador é uma criança, o que adiciona mais um elemento à auto-piedade de que o texto é imbuído e pode levar de roldão outros aspectos ricos que ele comporta. No entanto, a argumentação que construí para justificar a sua publicação convenceu-me do contrário: do papel importante, ainda que paradoxal, do título original.


                                               O escritor mexicano Juan Rulfo


Quisemos por meio dele aproximar o leitor contemporâneo das chagas da América Latina, mas pelas vias fecundas da literatura, mostrando o que nos une e separa. Temos um país em que muitos de seus habitantes se assemelham aos personagens do conto, com suas potencialidades e dificuldades. Grandes contingentes, em nosso país, ainda vivem, pelo menos na década de 50, do ponto de vista das necessidades necessárias e sociais, dos valores e da relação pais-filhos, assim como de homens e mulheres. Ou seja, muitas famílias brasileiras são ainda atravessadas pela rigidez e pelo moralismo, e não sabem muito bem o que fazer com a juventude, enquanto outras perderam toda e qualquer referência de limite, criando filhos, mas não os educando. Se falamos de literatura, falamos de representações, enquanto percepções de si e do outro, criações artísticas, mas que constituem, de modo complexo e intermitente, ecos das relações intersubjetivas e sociais.


                                                       Edward Munch


A ideia não é absolutamente julgar o texto de Rulfo, até porque podemos lê-lo, se quisermos, pela chave da ironia, travestida de conformismo social camponês. Ou do desespero irônico, segundo Le Clezio. O intuito é sobretudo mostrar que autores como ele e William Faulkner, respectivamente da corrente do realismo fantástico e poético, põem em evidência personagens femininos presos ao naturalismo e a uma condição inexpugnável de vivência da sexualidade como fatalidade e perdição. Não são exatamente eles que pensam assim. É a sociedade do seu tempo e por que não dizer ainda da nossa, apesar de sua máscara de modernidade e mundanidade. A opinião de Le Clezio acerca dos personagens femininos rulfianos, contudo, é : « neste mundo violento, são elas que resistem aos segredos das famílias, ao triunfo cruel dos homens, aos ciúmes, ao incesto, à desonra. » (Prefácio de Le lhano en flammes). No conto a seguir, fica a interrogação: mais vale uma vida de labuta, opaca, conformista e de sacrifícios ou a liberdade dos atos  e do próprio corpo?  Tudo indica que a liberdade pode ter um gosto amargo e um custo para os seus, como parte de um dilema fáustico. A ética, entretanto, parece fazer parte tanto do enigma quanto de sua solução, em que um final feliz torna-se secundário.

No Brasil, a recente Marcha das Vadias ousou assumir justamente o estigma e resignificá-lo: « se uma de nós é chamada de vadia, somos todas vadias ». A liberdade requer, portanto, ainda longas caminhadas pela noite, de forma a banir os pesadelos que cercam o desejo e a iluminar a necessidade de emancipação de homens e mulheres brasileiros, mexicanos, venezuelanos, ou seja, latino-americanos. Com vocês, então, Juan Rulfo !

::::::::::::::::::::::::::
É que somos muito pobres



Juan Rulfo*

Aqui, tudo vai de mal a pior. Na semana passada, tia Jacinta morreu e no sábado, quando já a havíamos enterrado e ia baixando a poeira da tristeza, começou a chover como nunca. Isso deixou meu pai muito zangado, porque toda a colheita de cevada estava secando no pátio, e o aguaceiro chegou de repente, em grandes ondas, sem nos dar tempo de esconder um punhado sequer. A única coisa que pudemos fazer, todos os da minha casa, foi nos reunirmos no alpendre, assistindo a água fria que caía do céu estragar aquela cevada amarela recém cortada.

E ontem, mal minha irmã Tacha completou doze anos, soubemos que a vaca que o papai lhe oferecera pelo seu aniversário havia sido levada pelo rio. 

Há três noites, ainda de madrugada, o rio começou a subir. Eu dormia profundamente, mas o forte ruído que o rio fazia, ao se arrastar, logo me despertou. Pulei para fora da cama com meu cobertor nas mãos. Podia acreditar que o teto da casa estava desmoronando. Pouco depois, porém, voltei a adormecer, quando reconheci o barulho do rio e ele se tornou constante até me trazer novamente o sono.
Quando levantei, a manhã estava cheia de nuvens e parecia ter chovido sem parar. O ruído do rio estava mais forte e era possível ouvi-lo mais de perto. Sentia-se, qual o cheiro de queimado, o cheiro podre das águas revolvidas.

Na hora que fui ver o que se passava, o rio já havia transbordado. Ia subindo pouco a pouco pela rua principal, e logo em seguida precipitou-se na casa da mulher que chamam de Dona Tambor. Ouvia-se o ruído da água, a entrar pelo celeiro e a sair em grandes jorros pela porta. Dona Tambor ia e vinha caminhando, pelo que era já um pedaço do rio, espantando suas galinhas para que fossem se esconder em algum lugar protegido da corrente.

O rio, na altura onde faz a curva, deve ter levado, não se sabe desde quando, o pé de tamarindo do quintal de tia Jacinta, porque agora já não há mais sinal dele. Era o único que havia no povoado, e por isso demo-nos conta de que essa enchente é a maior de todas as que se abateram sobre o rio em muitos anos.

De tarde, minha irmã e eu fomos de novo olhar aquele monte de água cada vez mais espessa e escura, já muito acima de onde deveria estar a ponte. Ficamos horas e horas sem nos cansarmos de ver tudo aquilo. Depois subimos o barranco, porque queríamos saber o que as pessoas diziam, porque embaixo, junto do rio, há muito barulho e de longe só se veem as bocas de uns e de outros que se abrem e se fecham, como a quererem dizer algo; porém não se ouve nada. Por isso subimos o barranco, onde havia muitas pessoas a observar o rio e falar dos prejuízos que tiveram. Foi lá que soubemos que o rio tinha levado Serpentina, aquela vaca com uma orelha branca e outra vermelha, e olhos muito bonitos, que pertencia à minha irmã Tacha, e tinha sido um presente do papai no dia do seu aniversário.




Não sei por que Serpentina quis atravessar o rio, quando ela sabia que não era o mesmo rio de todos os dias. Serpentina nunca ficou tão atarantada. O mais provável é ela ter sido arrastada dormindo para deixar-se matar assim sem mais nem menos. Muitas vezes, ao lhe abrir a porta do curral, precisei acordá-la para que despertasse, porque senão, por sua conta, teria continuado o dia inteiro com os olhos fechados, quieta e suspirando, como costumam suspirar as vacas quando dormem.

Foi isso provavelmente o que aconteceu, ela devia estar dormindo. Talvez ela despertou, já sentindo o peso da água golpear-lhe as costas. Talvez ela tenha se assustado e tentado recuar; porém ao recuar, viu-se encurralada no meio daquela água escura e dura, como um deslizamento de terra. Talvez tenha mugido pedindo que lhe ajudassem. Só Deus sabe o quanto deve ter mugido.

Perguntei ao senhor que viu quando o rio a arrastava, se não havia visto também o bezerrinho que andava com ela. Porém, ele não estava certo de tê-lo visto. Só disse que a vaca malhada passou com as patas para cima bem perto do lugar onde ele estava e que ali ela dera uma cambalhota e depois ele não conseguiu mais ver nem os chifres nem as patas nem mais nenhum sinal da vaca. Pelo rio flutuavam muitos troncos de árvores, inclusive com raízes, mas ele estava tão ocupado em pegar lenha, que não podia precisar se eram animais ou troncos que iam sendo arrastados.

Por isso mesmo, não sabemos se o bezerro continua vivo, ou se seguiu a mãe rio abaixo. Se assim foi, que Deus ampare os dois.




O que nos aflige, em casa, é o que pode suceder no dia de amanhã, agora que minha irmã Tacha ficou sem nada. Porque nosso pai com muito sacrifício adquiriu Serpentina, ainda uma novilha, para dá-la à minha irmã, a fim de que ela tivesse um pequeno dote e não viesse a se tornar prostituta como minhas duas outras irmãs maiores.

Papai diz que se elas se perderam é porque somos muito pobres em nossa casa e elas eram cabeças duras. Desde pequeninas, já eram insolentes. E tão logo cresceram lhes deu na cabeça de andar com homens da pior espécie, que lhes ensinaram o que não presta. Elas aprenderam rápido e compreendiam muito bem os assobios, quando as chamavam tarde da noite. Depois saíam até de dia. Iam a todo instante pegar água no rio e às vezes, quando menos se esperava, lá estavam elas no celeiro, rolando no chão, nuas, cada uma com um homem por cima.

Meu pai então correu com as duas de casa. Primeiro aguentou tudo o que pôde; entretanto mais tarde já não podia mais suportá-las e jogou-as na rua. Elas foram embora para Ayutla ou não sei para onde; lá vivem como putas.


                           Foto : Juan Rulfo

Por isso, papai preocupa-se muito com Tacha, porque não quer que ela termine como suas duas outras irmãs, pois ele sabe que ela ficou muito pobre depois do que aconteceu  à sua vaca, logo não vai ter com o que se entreter enquanto cresce até se casar com um homem bom, que a queira para sempre. Isso agora vai ser difícil. Com a vaca era diferente, pois não faltaria quem tivesse ânimo de se casar com ela só para se apropriar de tão linda vaca.

A única esperança que nos resta é que o bezerro ainda esteja vivo. Tomara que não tenha tido a ideia de atravessar o rio atrás de sua mãe. Porque se assim foi, minha irmã Tacha não tardará a se prostituir. E isto, mamãe não quer.

Minha mãe não sabe por que Deus a castigou tanto, dando-lhe umas filhas assim, quando na sua família, de sua avó até hoje, nunca houve gente desse tipo. Todos foram criados no temor de Deus, eram muito obedientes e não faltavam com respeito a ninguém. Todos mantiveram a decência. Sabe-se lá onde suas filhas foram desencavar esse mau exemplo! Ela não se lembra. Passa em revista todas as suas lembranças e não vê com clareza qual foi a sua culpa ou o seu pecado para nascer uma filha atrás da outra com esse mau costume. Não consegue perceber. E cada vez que pensa nelas, chora e diz: "Que Deus proteja as duas!"

Mas papai fala que aquilo não tem mais jeito. Quem corre risco agora é essa que continua aqui, a Tacha, que cresce como talo de pinheiro, e cujos seios já afloram, prometendo ser como os de suas irmãs: pontudos, empinados e suficientemente desenvoltos a ponto de chamar a atenção.

-Sim – disse -, ela vai encher os olhos de qualquer um, onde quer que vá. E acabará mal, pelo que estou vendo, ela acabará mal.

Esta é a grande preocupação do meu pai.

E Tacha chora, ao se dar conta de que sua vaca não voltará, porque o rio a matou. Ela está aqui ao meu lado, com seu vestido cor de rosa, olhando o rio da beira do barranco, sem parar de chorar. Pelo seu rosto as lágrimas formam um rastro de água suja, como se o rio se tivesse entrado dentro dela.

Abraço-a, tentando consolá-la, porém ela não entende. Chora muito mais. De sua boca sai um ruído semelhante ao que se arrasta junto com o rio, o que a faz tremer e sacudir-se toda, enquanto o rio não pára de subir. Uma bruma com o cheiro podre que sai das águas salpica a cara molhada de Tacha e seus dois peitinhos se movem, para cima e para baixo, sem cessar, como se tivessem começado de repente a inchar, a serviço de sua perdição.

:::::::::::::::::::::

Mione Sales - é assistente social, doutora em Sociologia (USP) e tem mestrado em Literatura Comparada (Paris 3 Sorbonne). No contexto globalizado do precariato, trabalha em Paris como revisora e tradutora, e faz jornalismo cultural no Blog Mídia e Questão Social. Além disso, ensina a língua de Camões aos patrícios de Voltaire. Contato: mionesales@gmail.com

:::::::::::::::::::

Sugestões de leitura

FUENTES, Carlos. Aquilo em que acredito. Lisboa, Dom Quixote, 2002.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Várias edições.

Links
[« Baby », Caetano Veloso]

[« Podres poderes », Caetano Veloso]

[« O Bêbado e a Equilibrista”]
  

terça-feira, 15 de maio de 2012

Editoria O Efeito Quixote

De olho no Serviço Social



Leandro Rocha*


         Neste mês de maio, mais especificamente no dia 15, comemoramos o dia do Assistente Social. É neste período que as entidades representativas da categoria tradicionalmente realizam uma série de atividades sistematizadas com o intuito de propiciar junto aos assistentes sociais reflexões sobre a prática profissional, políticas sociais e demais temas pertinentes ao nosso desenvolvimento ético-político-teórico-prático (uma vez que estes fatores se complementam e fortalecem no exercício profissional).
           Também vale a pena aproveitar este período para refletir sobre a visibilidade da profissão, as formas como ela tem se evidenciado, seus prós e contras e as estratégias para obtê-la.
Quando falamos em visibilidade do Serviço Social podemos nos referir a duas esferas onde a mesma se dá: a macro esfera e a micro esfera. Sendo a macro correspondente à visibilidade buscando junto à população com ações globais, coletivas, com o intuito de atingir a grupos/segmentos da população. A micro-esfera corresponderia então às ações que realizamos na nossa intervenção cotidiana, ao “trabalho de formiguinha” que realizamos em nosso espaço de trabalho junto a colegas, usuários de nossos serviços e parceiros institucionais.
Fica claro que, se a esfera micro é realizada por cada um de nós em nossas equipes e locais de trabalho, a macro exige uma organização coletiva geralmente organizada pelas entidades representativas através de campanhas, entrevistas, confecção de material sobre a profissão, representações em espaços políticos e midiáticos, dentre outras coisas.
Convém ressaltar que esta divisão não é estanque e que nada impede que as ações alternem entre estas esferas, de acordo com a articulação dos atores envolvidos. No entanto, podemos utilizar esta distinção para fins didáticos.
Ao longo dos últimos anos, em especial dos últimos oito anos, têm se observado um crescente investimento da categoria dos Assistentes Sociais na busca por uma visibilidade correta da profissão e das políticas sociais que são instrumentos de sua ação, condizente com seu momento atual, bem como o projeto ético-político ao qual ela está vinculada. Mais do que um avanço, isso é fundamental quando pensamos que esta é uma categoria que tem como norte a luta pela garantia de direitos e o enfrentamento à desigualdade social.
Esta é uma categoria comprometida com um projeto ético-político, que mais do que um conjunto de regras a serem seguidas, é um projeto de transformação societária. Transformação essa que só será alcançada através da coletividade, não só entre os profissionais pertencentes a esta categoria, como entre as demais categorias profissionais, a população usuária de nossos serviços, os movimentos sociais e demais sujeitos da história. Para que esta coletividade seja real, é preciso que aqueles a quem pretendemos nos aliar nos compreendam e consigam discutir conosco nossas idéias e propostas. Isso implica em nos prepararmos para falar entre os “iguais” (nossa própria categoria) e os “diferentes” (os demais atores sociais). Isso implica em sair das nossas zonas de conforto e dialogar com categorias filosóficas diferentes das nossas, com pessoas com histórias de vida e concepções distintas e, em alguns momentos, confrontar alguns dos nossos conceitos.
Enfim, trabalhar visibilidade é, acima de tudo, disputar ideologia e para tal investir em estratégias, técnicas e tecnologias de comunicação (Isto serve tanto para o macro quanto o microcosmo social em que estamos inseridos).
Quando analisamos a imagem historicamente propagada da profissão, temos que ter em mente que a gênese de nossa profissão remete às damas de caridade, cujo intento era mediar as relações entre trabalhadores e os ditos donos dos meios de produção, atuando de forma moralizadora de forma a evitar conflitos que ameaçassem a “ordem”.
Também é necessário lembrar que o processo de ruptura com esta concepção e construção da hegemonia da atual concepção defendida pela categoria é relativamente recente e encontra seu ápice em meados da década de 1980, estando ainda em um processo de assimilação por parte dos diversos segmentos da sociedade.
O processo de substituição da hegemonia da concepção da “moça boazinha” para o profissional técnico-operativo com uma intervenção teoricamente embasada e politicamente direcionada não é instantâneo e tampouco se dá sem risco de distorções e críticas.
Pleitear visibilidade requer autocrítica; conhecimento profundo de nosso papel, limitações e potencialidades; disponibilidade para nos colocarmos como referência e para explicar várias vezes quem somos e o que fazemos.
Visibilidade correta, coerente e positiva tem que ser batalhada no dia a dia e estimulada. Não se obtém apenas pelo desejo, mas também com muito trabalho e com o reconhecimento do trabalho desta categoria e da possibilidade de sua contribuição na análise e intervenção na realidade social.
Nós temos uma estrada longa ainda a percorrer, mas muito também já foi alcançado. Já estamos nas páginas de jornais e revistas, nos sites e blogs, nos programas de rádio e televisão. Somos personagens nas obras de ficção e nas histórias da vida real. Somos sujeitos, atores da história e não meros expectadores.
Então, deixo aqui a minha homenagem a todos e todas as assistentes sociais que lutam a cada dia não só por visibilidade, mas também por reais condições de trabalho no atendimento aos nossos usuários.
Como diria o grande poeta: “Canta, que o teu canto é minha força pra cantar!”

Feliz dia do Assistente Social!

:::::::::::::::::::::::::
*Leandro Rocha, assistente e "insistente" social, pós-graduado em Psicologia Jurídica pela UCAM, integrante da Comissão de Comunicação e Cultura do CRESS-RJ. Contato: e-mail: leorochas@hotmail.com.

domingo, 29 de abril de 2012

Editoria Web@Tecno

Jogue fora a violência.
MULHER É SUJEITO NÃO DESCARTÁVEL.


                                       Fonte: Google


Nelma Espíndola* 

A violência contra as mulheres vem sendo definida como uma violação dos seus direitos humanos, isto graças aos movimentos feministas internacionais que deram visibilidade ao problema. É aviltante, assim, saber que em pleno século XXI, aquele em que acontecem grandes descobertas e avanços tecnológicos e das ciências, a violência contra as mulheres continua tendo destaque no cenário mundial. Os homens também sofrem outros tipos de violação dos seus direitos humanos, porém isto não lhe confere o direito de ser violento. A violência em relação às mulheres caracteriza-se, portanto, como uma manifestação de poder e expressa uma “dominação masculina de amplo espectro”.




Muitos casos têm como contexto a família ou a casa, onde muitas vezes há tolerância e um pacto de silêncio, que impede que se denuncie. Este tipo de negligência, conivência ou intimidação dificulta, sem dúvida nenhuma, a detecção e denúncia do abuso físico e sexual, regular ou eventual, o estupro de meninas, crianças e mulheres, em geral, por pessoas muito próximas da vítima. O Social Watch Report (2004), dedicado à incidência da violência contra as mulheres e suas formas de manifestação, enfatiza um aspecto interessante. Essa violência seria “um dos principais mecanismos sociais para forçar as mulheres a se manterem em posições subordinadas”.




Em alguns acompanhamentos sociais que fiz a famílias assistidas, por dentro de minha atuação profissional numa determinada instituição assistencial no Rio de Janeiro, chocaram-me especialmente certos relatos, que mostram a reprodução intergeracional da violência: mães e filhas “meninas” sofrem abusos sexuais.  


O cenário latino-americano                                                                                                                                                                                                                                  
Na América Latina, três entre dez mulheres sofrem algum tipo de violência e 16% delas já foram vítimas de constrangimento e abuso sexual alguma vez na vida, segundo denuncia da ONU Mulheres, no dia 21 de março de 2012. Ainda há muito o que fazer para que este contexto seja transformado, mas, na última década, o Brasil vem alcançado progressos.

Essa caminhada pelos direitos humanos das mulheres no continente começou em 1928, ainda sob a União Pan-Americana, com a criação do primeiro organismo de proteção a esses direitos: a Comissão Interamericana de Mulheres [CIM]. Mesmo após a extinção da União Pan-Americana, isso não resultou o fim da CIM, a qual foi incorporada pela Organização dos Estados Americanos [OEA]. Sua criação ocorreu durante a 6ª. Conferência Internacional Americana, em Cuba, com o objetivo de promover e proteger os direitos das mulheres, dando-lhes acesso aos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, a fim de atingir uma igualdade de gênero.

A importância dos direitos das mulheres alcançou, em 1979, a esfera global, quando foi criada pelas Nações Unidas, a Conferência sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Esta traz em sua gênese uma dupla obrigação: eliminar a discriminação contra a mulher e de assegurar a igualdade de gênero, declarando a importância de os Estados-membros criarem ações afirmativas para o cumprimento desses objetivos. Em 1993, foi, então, criada a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. Nela acaba-se com a divisão entre o público e o privado, pois propõe a proteção da mulher nas duas esferas, com a ênfase na importância de os Estados-membros condenarem e eliminarem a violência contra a mulher. No mesmo ano foi elaborada a Declaração e Plataforma de Ação de Viena e no ano de 1995, a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim que enfatizam “que os direitos das mulheres são parte inalienável, integral e indivisível dos direitos humanos universais.”

Seguindo essas diretrizes, em 1994, durante a Assembléia Geral da OEA, foi criada a Convenção de Belém do Pará, mais conhecida como Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. De acordo com Flávia Piovesan, autora do livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional:

“a Convenção entende por violência contra a mulher ‘qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado” (p.199).

Outro aspecto importante desta Convenção é que ela qualifica a violência tanto como uma violação dos direitos humanos quanto da liberdade fundamental das mulheres. Foi responsável ainda por ratificar e ampliar a Declaração e o Programa de Ação de Viena e pela exigência de que os Estados-membros da OEA erradiquem a violência contra as mulheres. A visibilidade desta problemática ganhou amplitude e maior visibilidade mundial, o que incidiu na geração de meios mais eficazes de fiscalização e de combate.

Segundo pesquisadores, até 2003, 31 países ratificaram a Convenção de Belém, um  número significativo de países-membros com a preocupação em eliminar essa quadro de violência contra a mulher, cujo respeito e cumprimento às obrigações assumidas são de responsabilidade dos Estados. O Brasil ratificou-a em 27 de novembro de 1995. De acordo com o § 2º da Constituição Federal de 1988, isso significa que internamente ela tem força de lei.


Década de 1980: início das conquistas no Brasil

O progresso das ações para enfrentamento da violência contra as mulheres no período de 2003-2010, no Brasil, segundo Leila Linhares Barsted, deve ser compreendido a partir da contínua atuação do movimento feminista no país. Desde sua gênese, articula-se contra a violência e discriminação feita às mulheres. Sua agenda política incluiu a luta pela conquista “da plena igualdade entre homens e mulheres, nos espaços públicos e privados; apontou a necessidade de leis e políticas públicas que concretizassem a cidadania das mulheres, com o reconhecimento e o acesso aos direitos até então negados, dentre eles o direito a uma vida sem violência.”

Fruto desse trabalho, a Constituição Federal de 1988 reconheceu a plena cidadania das mulheres, mais os instrumentos internacionais de proteção aos direitos das mulheres elaborados pela ONU e da OEA.

A década de 1980 foi, assim, o marco regulatório das primeiras conquistas do movimento feminista junto ao Estado, para a implementação de políticas públicas voltadas ao enfretamento à violência contra as mulheres. O ano de 1985, no ápice da Década das Mulheres, conforme declaração da ONU, é inaugurada a 1ª Delegacia  de Defesa da Mulher e criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher [CNDM], por meio da Lei nº 7.353/85. No ano seguinte foi criada pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, a primeira Casa-Abrigo para Mulheres em Situação de Risco de Morte no país. Esse foco também serviu de base a implantação do Programa Nacional de Combate à Violência contra a Mulher, vinculado ao Ministério da Justiça.

Em 1998 foi criada a Norma Técnica para prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual pelo Ministério da Saúde, que garantia o atendimento a essas vítimas nos serviços de saúde. Este tipo de serviço permitiu às adolescentes e mulheres acesso imediato aos cuidados de saúde, à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e à gravidez indesejada. Em 2003, aconteceu a promulgação da Lei nº 10.778/03 que resultou em um novo avanço: a Notificação Compulsória dos casos de violência contra as mulheres atendidas nos serviços de saúde, públicos e privados, em todo o território brasileiro.

Neste mesmo ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, promulgou a criação da Secretaria de Políticas para Mulheres. Com status de Ministério, suas ações para o enfretamento à violência contra as mulheres passam a receber investimentos maiores e as políticas têm a promoção de novos serviços, tais como: o Centro de Referência da Mulher, os Serviços de Responsabilização e Educação dos Agressores, as Promotorias Especializadas e a proposta da construção de Redes de Atendimento às mulheres em situação de violência. Já foram realizadas a I e a II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres ( I e II CNPM) e a construção de dois Planos Nacionais de Políticas para Mulheres e Enfrentamento à Violência contra  as  Mulheres. Todo esse avanço foi consolidado com o lançamento do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, em agosto de 2007.

É importante salientar que o conceito de violência contra as mulheres foi adotado pela Política Nacional, e tem como fundamento a definição da Convenção de Belém do Pará (1994). Ele refere-se a “qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como privado” (Art. 1º). 




Uma das leis mais avançadas do mundo no combate à violência contra as mulheres é  a Lei Maria da Penha - Lei nº 11.340, que teve como base a Convenção de Belém. Ela foi decretada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Lula em 07 de agosto de 2006, entrando em vigor a partir de 22 de setembro de 2006. Provocou principalmente várias mudanças no cenário jurídico, dentre elas: o aumento no rigor das punições das agressões contra as mulheres ocorridas no ambiente doméstico ou cometida por familiares. Um exemplo disso foi a prisão, no dia seguinte à sua aprovação, do primeiro agressor, preso no Rio de Janeiro: um homem que tentou estrangular a ex-esposa.

Para tanto, a lei Maria da Penha também alterou o Código Penal Brasileiro. Desde então, os agressores de mulheres no âmbito doméstico ou familiar presos em flagrante não podem ser mais punidos com penas alternativas, aumentou-se o tempo máximo de detenção de um para três anos. A lei prevê ainda medidas que vão desde a saída do agressor do domicílio e a proibição de sua aproximação da mulher agredida e filhos.




Antes da Lei Maria da Penha, os juízes privilegiavam a Lei nº 9.099/95 que trata de crimes de menor potencial ofensivo, cujo delito não tem pena prevista no Código Penal superior a dois anos. Tal lei propunha uma solução rápida para os conflitos provocados pela violência doméstica, estimulando as mulheres a desistirem de processar seus maridos ou companheiros agressores.

Por isso, para acabar de vez com essa subestimação da gravidade da violência contra a mulher e no intuito de criar uma política pública de enfrentamento da violência contra a mulher, ONGs feministas se articularam, no período de 2002-2006, para a elaboração de um Anteprojeto de Lei.  Aperfeiçoado, este resultou mais tarde resultou na Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha. A partir da entrada em vigor dessa Lei, a “interlocução com o Poder Judiciário passou a fazer parte da agenda e das estratégicas das feministas para promover o acesso das mulheres à justiça.”

As Redes de Atendimento




As Redes de Atendimento caracterizam-se pela atuação articulada entre as instituições /serviços governamentais, não-governamentais e a comunidade, cujo objetivo é a ampliação e melhoria da qualidade do atendimento; a identificação e encaminhamento adequado das mulheres em situação de violência; e o desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção.  A Política Nacional de Enfretamento a Violência Contra as Mulheres enfatiza ainda que a constituição dessa rede de atendimento procura dar conta da complexidade e do caráter multidimensional da violência contra as mulheres, o qual requer a interlocução de diversas áreas, tais como: a saúde, a educação, a segurança pública, a assistência social, a cultural, entre outras.

Segundo a OMS/OPAS/1998, a criação de uma Rede de Atendimento faz-se necessária, pois leva em conta a “rota critica”, que a mulher em situação de violência percorre. São os vários caminhos percorridos por ela, mediante uma resposta do Estado e das várias redes sociais. São diversas portas-de-entrada, dentre elas: serviços de emergência na saúde, delegacias, serviços da assistência social, que  devem trabalhar de modo articulado, para que a assistência seja então qualificada, integral e não-revitimize a mulher em situação de violência.

Esta rede no âmbito do governo é composta de:

v  - Centro de Referências de Atendimento à Mulher
v  - Núcleos de Atendimento à Mulher
v  - Casas-Abrigo
v  -Casas de Acolhimento Provisório
v  - Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher [DEAMs]
v  - Núcleos ou Postos de Atendimento à Mulher nas Delegacias Comuns
v  - Polícia Civil e Militar
v  - Instituto Médico Legal
v  - Defensorias da Mulher
v  - Juizado de Violência Doméstica e Familiar
v  - Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
v  - Ouvidorias
v  - Ouvidoria da Mulher da Secretaria de Políticas para as Mulheres
v  - Serviços de Saúde voltados para o atendimento dos casos de violência sexual e doméstica
v  - Postos de Atendimento Humanizados nos Aeroporto
v  - Núcleo da Mulher da Casa do Migrante

É importante lembrar que os princípios que norteiam a Política Nacional para as Mulheres, propostos no I e II Plano Nacional de Políticas para as mulheres são: Igualdade e respeito à diversidade; Equidade; Autonomia das Mulheres; Laicidade do Estado; Universalidade das Políticas; Justiça Social; Transparência dos atos públicos e Participação e Controle social.

As diretrizes dessa Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres são:

ü  - Garantir o cumprimento dos tratados, acordos e convenções internacionais firmados e ratificados pelo Estado Brasileiro;
ü  - Reconhecer a violência de gênero, raça e etnia como violência estrutural e histórica que expressa a opressão das mulheres e que precisa ser tratada como questão de segurança,. Justiça, educação, assistência social e saúde pública;
ü  - Combater as distintas formas de apropriação e exploração mercantil do corpo e da vida das mulheres, como  a exploração sexual e o tráfico de mulheres;
ü  - Implementar medidas preventivas nas políticas públicas, de maneira integrada e intersetorial nas áreas de saúde, educação, assistência, turismo, comunicação, cultura, direitos humanos e justiça;Incentivar a formação e capacitação de profissionais para o enfrentamento à violência contra as mulheres, no que tange à assistência; e
ü  - Estruturar as Redes de Atendimento à mulher em situação de violência nos Estados,
             Municípios e Distrito Federal.


Pesquisas mostram avanços e retrocessos




Nas diversas pesquisas que fiz na web sobre a situação de violência contra as mulheres, destaco a Agência de Notícias Patrícia Galvão, uma iniciativa do Instituto Patrícia Galvão, criada em 2009, cujo objetivo é a produção de notícias e conteúdos  sobre os direitos das mulheres.

Dados interessantes são apontados no mês de março quanto à violência contra as mulheres. Dentre eles, selecionei alguns:

I -

- Seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica;
- São apontados como principais fatores que contribuem para a violência: o machismo (40%) e o alcoolismo (31%);
- 94% conhecem a Lei Maria da Penha, mas apenas 13% sabem o seu conteúdo. A maioria das  pessoas pensa que, ao ser denunciado, o agressor vai preso;
 - 52% acham que juízes e policiais desqualificam o problema.
[fonte: pesquisa do Instituto Avon/Ipsos entre 31 de janeiro a 10 de fevereiro de 2011]

II -

- Uma em cada cinco mulheres considera já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência por parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”;
- O parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais de 80% dos casos  reportados.
[fonte: Da Pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado (2012), realizada pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC]

Já a pesquisa feita pelo DataSenado, concluída em 2011, destaca que “o medo continua sendo a razão principal  (68%) para evitar a denúncia dos agressores. Em 66 dos casos, os responsáveis pelas agressões foram os maridos ou companheiros. O levantamento de 2011 indica que o conhecimento sobre a Lei Maria da Penha cresceu nos últimos dois anos: 98% disseram já ter ouvido falar na lei, contra 83% em 2009. Só no Ligue 180, houve o registro de quase 2 mil ligações por dia em 2011.

Quanto aos Serviços de Atendimento à Mulher disponíveis no país, há uma demanda enorme, conforme sinaliza a Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, pois o Brasil tem mais de 5.500 municípios e apenas:

  • - 190 Centros de Referências (atenção social, psicológica e orientação jurídica);
  • - 72 Casa Abrigo;
  • - 466 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher;
  • - 93 Juizados Especializados e Varas adaptadas;
  • - 57 Defensorias Especializadas;
  • - 21 Promotorias Especializadas;
  • - 12 Serviços de Responsabilização e Educação do Agressor; e
  • - 21 Promotorias/Núcleos de Gênero no Ministério Público.
“Quem ama abraça”




Sei que ainda há um longo caminho a percorrer, para que todo esse contexto de violência contra as mulheres sofra a metamorfose tão desejada. Mas acredito na superação de todas elas: da lagarta virando a mais bela borboleta... Que voa ao vento, que se redescobre e traça o seu melhor caminho!

::::::::::::::::::::::::::::::::

Nelma Espíndola - é assistente social, webmaster do Blog Mídia e Questão Social.

:::::::::::::::::::::::::::::::

1. Leila Linhares Barsted – advogada, coordenadora executiva da Ong Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação [CEPIA], membro do Comitê de Especialistas do Mecanismo de Monitoramento da Conveção de Belém do Pará da OEA.
2.  O Progresso das Mulheres no Brasil 2003–2010 / Organização: Leila Linhares Barsted, Jacqueline Pitanguy – Rio de Janeiro: CEPIA ; Brasília: ONU Mulheres, 2011.

:::::::::::::::::::::::

Links

Agência Patrícia Galvão – www.agenciapatriciagalvao.org.br

Secretaria de Políticas das Mulheres – www.sepm.gov.br

Quem ama abraça! – www.quemamaabraca.org.br

Músicas

Quando o Sol Bater – Legião Urbana

Sonho Impossível – Maria Bethania