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terça-feira, 6 de julho de 2010

Editoria Caleidoscópio Baiano

O MAJOR E OS ANALFABETOS


Cláudia Correia*


O falecimento do Major Cosme de Farias completou em março 36 anos. Nascido no subúrbio de São Tomé de Paripe, em Salvador, em 1875, foi um personagem marcante na cena política baiana atuando como advogado provisionado ( rábula), jornalista, vereador e deputado estadual. A sua biografia está brilhantemente registrada no livro “Cosme de Farias”, lançado em 2007 pela Editora da Assembléia Legislativa, a partir da criteriosa pesquisa da jornalista e Mestre em História Social pela UFBa, Mônica Celestino.

Lembro que fui, quando criança, a um desfile do cortejo do 2 de julho, acompanhada da saudosa “Tia Zilah”, Zilah Moreira, jornalista falecida recentemente, para cumprimentar aquela figura frágil e carismática, adorada pelo povo pobre de Salvador, que se comprimia nas ruas do velho centro para chegar perto dele, sempre impecável no seu terno e chapéu. Dois de julho é feriado na Bahia, data histórica que marca as lutas pela Independência do país do domínio português que se estenderam até Cachoeira, no recôncavo baiano.

Hoje fui andar na praça do Campo Grande com meu filho, onde após o cortejo pelas ruas do centro histórico de Salvador, ficam expostas as imagens do caboclo e da cabocla, símbolos dos heróis do 2 de julho. É interessante perceber que eles são reverenciados tanto pela simbologia com os ideais nacionalistas como pela devoção. Muitos visitantes levam presentes, flores, perfumes, pedidos em bilhetes e rezam ao pé das imagens em tamanho natural, fixadas em uma espécie de andor ornamentado.

Voltando ao nosso personagem: com apenas o curso primário, Cosme de Farias, patenteado Major pela Guarda Nacional em 1909, dedicou-se a diversas ações sociais desde 1892 e fundou em 1915 a Liga Baiana contra o Analfabetismo(LBA). O Major também teve ativa participação no Liceu de Artes e Ofícios, que voltava-se para a capacitação profissional de escravos livres e seus descendentes. A LBA congregou cerca de 200 escolas públicas de ensino primário e implementou medidas que alfabetizaram mais de 10 mil pessoas editando até 1972, dois milhões de cartilhas de ABC. Considerando os parcos recursos da época, tais resultados certamente matam de inveja os gestores públicos atuais, empenhados na execução de programas nas três esferas governamentais, como o “Brasil Alfabetizado”, “TOPA- Todos pela Alfabetização” e “ Salvador Cidade das Letras”. Num país onde a Educação foi esquecida, esse é um desafio grandioso!