sábado, 17 de dezembro de 2011

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta

DIANE ARBUS e PAULA RÊGO -
HUMANAS, DEMASIADAMENTE HUMANAS
Fotografia e pintura numa sociedade saturada de imagens




Mione Sales*

      e
Maurílio Matos**
COLABORAÇÃO 


Aqui no Blog Mídia e Questão Social discutimos Comunicação e Cultura, com viés na política, na educação e também na arte. Profissionais da área social e jornalistas, interessamo-nos pela maneira como os sujeitos sociais, a mídia, grande e pequena, e nós próprios comunicamos nossos assuntos. Não basta, pois, apenas escrever. Não basta apenas fotografar. Não basta apenas divulgar. Não basta apenas difundir imagens. Deve haver atrás de cada gesto e iniciativa dessas uma reflexão, voltada a suscitar outras e a multiplicá-las, de acordo com os princípios que nos orientam.

Se pertencemos ao grande campo da esquerda, poderíamos estar todos de acordo, mas não. Temos diferenças justamente de olhar, de enfoque, de intensidade e também de radicalidade ao registrarmos nossas opiniões e manifestarmo-nos contra ou a favor de alguma medida governamental ou proposta dos diversos atores em disputa na sociedade civil. Podemos, por vezes, também estar de acordo no conteúdo, mas divergirmos na forma, o que pode parecer pouco, mas não é. Somos portadores e educadores de uma nova sensibilidade, ou se preferirmos de uma nova ética e utopia. Portanto, como dizemos e ilustramos integram batalhas discretas, embora fundamentais, de significado e de estratégia, travadas por vezes de maneira aberta e mais dura em outros campos da luta política.

Um dos debates polêmicos que integram historicamente os bastidores da comunicação e da política é o da instrumentalização da arte. Qual é o seu papel? Qual é o seu lugar? A arte se sobrepõe como linguagem à política, é dela autônoma ou deve servir apenas aos fins desta última? Há tantas opiniões a esse respeito como correntes artísticas e políticas, vocês devem imaginar. No entanto, nem por isso esse problema deve ser simplificado ou abstraído. Em tempos de luta mais aguerrida e revoluções, a relação entre arte e política é quase direta. Há belos registros históricos, inclusive no terreno da poesia e do teatro, em apoio à causa revolucionária, caso de Maiakovski e Bertolt Brecht. Noutros, belos cartazes que passado algum tempo mostraram-se como panfletos competentes de nossas ideologias, os quais sobreviveram inclusive a essas últimas. Lembramos especialmente de cartazes russos, cuja estética era, no fundo, mais interessante que a mensagem mecanicista que veiculavam a uma certa altura do estatismo stalinista. Nem o combalido realismo socialista foi capaz, porém, de apagar-lhe totalmente o brilho e a beleza.


 
Arte e questão social:
será possível escapar dos clichês?
Uma fotografia é um segredo de um segredo.
Quanto mais ela diz, menos se sabe ».
DIANE ARBUS

« Quanto mais somos precisos,
mais alcançamos o todo ».
LISETTE MODEL



Ao vivo ou virtualmente, tenho tido grandes conversas com amigos e companheiros de luta sobre a questão da arte. Há quem pense que devemos, sem meias palavras, chocar, surpreender o público. Outros pensam que a arte deve fazer pensar e portanto a mensagem nem sempre deve ser direta. Deve justamente requerer a participação de quem a vê para decifrá-la, entendê-la e senti-la. Tenho debatido ainda longamente com um amigo designer gráfico francês, Loïc Le Gall,  sobre como escapar das “armadilhas da facilidade » na hora de comunicar e criar. Diz ele com razão que temos uma responsabilidade em defender e lutar por aquilo que entendemos que deva ser a arte.






Certamente, vocês hão de ponderar, vivemos numa sociedade de massas em que a instrumentalização das imagens alcança níveis inimagináveis. As imagens consolidaram-se, é um fato, como mercadorias sob o capitalismo, que as vampiriza e esvazia de significados, produzindo e reproduzindo contradições políticas, culturais e subjetivas, como o narcisismo exacerbado e certo niilismo. O corpo é uma das principais vítimas desse comércio perverso, que tem que se ajustar a padrões rígidos, e vai se distanciando progressivamente do naturalmente belo, se quisermos resgatar duas noções importantes nesse debate: natureza e beleza. Acrescentaria o meu amigo, ainda, a questão da necessidade. Nem tudo o que comunicamos ou como comunicamos, tem ele razão, é necessário. Donde fechamos o círculo e voltamos ao começo dessa conversa: quem, o que, por que e como comunica?

Nesse debate, fico com Jacques Rancière, filósofo francês, que defende que a imagem deve nos convidar a pensar, logo exige uma abordagem e estratégias de comunicação singulares que suscitem e atuem na direção da emancipação do espectador. Associo à sua ideia uma outra, a da ética das imagens, sobretudo quando da necessidade de abordar o tema das imagens intoleráveis: reportagens de guerra, genocídios, chacinas, violência e outros, mas também bem mais próximo de nós: representações visuais da pobreza.

Esse apelo e responsabilidade com a qualidade e o teor dos conteúdos por ocasião da veiculação de imagens cabem tanto nos marcos de uma exposição individual ou coletiva, mas também no contexto do fotojornalismo e ilustração de revistas, cartazes, folders e outros materiais (audio)visuais. Como diria o nosso blog-camarada, o quixote Leandro Rocha, não basta apenas a liberdade de expressão. Esta deve primar por alguns parâmetros, o que é bem diferente da censura. Não operamos, portanto, uma cisão entre o ético e o estético.

Neste debate, o humor constitui, porém, uma bela exceção – não em matéria de qualidade, bem entendido! -, mas porque é um rebelde nato. De características em geral ateias, libertárias e suprapartidárias, ele ataca praticamente a todos os que se puserem no seu caminho. Logo, é impensável opor-lhe qualquer tipo de amarras. Ao mesmo tempo, o riso, a ironia, o bufônico e o carnavalesco situam-se no âmbito de uma lógica que é a do exagero e do surreal. Ninguém é obrigado a acreditar. O objetivo principal é a crítica e o divertimento. Não obstante, recentemente, tem aumentado a quantidade de protestos a artistas e peças de teatro, quando a religião – as mais diversas – é objeto de ataque. O jornal Le Monde realizou uma excelente matéria a esse respeito recentemente (ver link abaixo).

Mas voltemos ao tema que mais de perto nos interessa: como escapar aos clichês sobre a questão social? Como conseguir comunicar quando tudo parece nesse terreno já ter sido dito? Trafegamos num espaço de imagens sociais saturadas? E nesse caso, como fugir à tentação do sensacionalismo que habita quase que permanentemente os grandes meios de comunicação? Um exemplo concreto do que qualifico como excesso sensacionalista foi-me apresentado pela fotógrafa e também designer gráfica carioca, Márcia Carnaval, em suas reflexões sobre imagem e cultura. Trata-se de uma matéria de capa da revista Times, com uma afegã sem nariz. Carnaval publicou recentemente um artigo sobre o assunto, apoiada em Georges Bataille. A questão é: em que o mundo e os carecimentos humanos se enriquecem a partir da visualização de tal imagem? Nem sempre a melhor foto, assim, ao nosso ver, é aquela que deve vir em primeira página. Ela pode ser muito boa do ponto de vista técnico, mas nem sempre o será do ponto de vista ético e educativo. Fotógrafos, jornalistas e profissionais da área social podem se ver, assim, momentanemente em lados opostos.

Como resguardar, portanto, a dimensão histórica dos fatos e sua relevância social e política, por meio da publicização, logo via registro fotográfico e audiovisual, sem que isso intensifique a espiral sensacionalista e aprofunde ainda mais a erosão da esperança? Que tipo de representações queremos fortalecer? Se, como dizem alguns, há sempre uma dimensão subjetiva em nossas escolhas profissionais, literárias, artísticas, ou seja, o real é e pode ser também em alguma medida como o tingimos ou reinventamos. Logo, podemos, desde já, acenar com práticas culturais e uma perspectiva comunicativa, que sejam, a um só tempo, informativas, mas também poéticas e utópicas, com vistas ao outro mundo possível que aspiramos.

Alargar consciências pressupõe, sem dúvida, um cuidado com o que mostramos e como o mostramos. Dar a ver o mundo pela arte requer em geral projetos. Para tanto, quero ilustrar essa conversa com o trabalho de duas mulheres, ambas com distintos, embora igualmente densos, projetos de captação de momentos da vida de homens e mulheres. Uma é a fotógrafa americana Diane Arbus. A outra é a artista plástica portuguesa Paula Rêgo. A ideia é mostrar em que elas acrescentaram ao mundo, em matéria de crítica e humanismo, a partir de seu olhar; em que medida contribuíram para desalienar nossas mentes, ainda que por momentos tenham nos desafiado a ver o real e as pessoas diferentemente, isto é, por ângulos tão ásperos quanto inéditos.

O professor e assistente social Maurílio Matos, que me apresentou a artista Paula Rêgo, é nosso convidado e contribui com um pequeno texto, em que fala da importância da obra dessa artista na interrelação com temas candentes ligados à questão social.



Diane Arbus: a estranheza é uma forma de beleza



Passeio de domingo no Brooklin (1966)


« A primeira vez que eu vi Teresa
A cara dela parecia uma perna… »
MANUEL BANDEIRA


Está em cartaz no Museu Jeu de Paume (Paris), uma excelente exposição sobre a arte fotográfica contemporânea de Diane Arbus (1923-1971). É a sua primeira grande retrospectiva na França. Olhos mais atentos, sem dúvida, vão se dar conta de já terem, em algum momento, pousado, ainda que rapidamente, sobre algum de seus principais trabalhos. Fui apresentada a ela, insisto, primeiramente pelas mãos de Jacques Rancière, num de seus livros, em que propunha uma leitura sobre a dimensão reflexiva das imagens fotográficas.

A primeira vista, as fotos de Arbus parecem fruto do puro investimento estético, pois, clicadas em preto e branco, transbordam bom gosto. Se olhadas em conjunto, porém, no quadro de uma exposição, logo nos damos conta de que a sensação de desvelo estético está ligada ao momento histórico em que foram tiradas: entre os anos 50 e começo dos anos 70. Aquelas décadas nos Estados Unidos fizeram história em matéria de vestuário e novos hábitos das classes médias urbanas, com seus padrões de consumo de massa.


Duas jovens em trajes de banho iguais (1967)



Diane Arbus, poder-se-ia dizer, segue ao pé da letra a filosofia de Caetano Veloso, quando diz que « de perto ninguém é normal ». Sua obra caracteriza-se de modo geral por retratos de pessoas, que ela vai flagrando nas ruas e bairros americanos, assim como em comunidades marginais e símbolos da contracultura: profissionais de circo, pessoas com transtornos mentais, grupos de nudistas, entre outros. O foco está no contraste, tendo como pressuposto uma ruptura com os lugares comuns em matéria de expectativas imagéticas americanas. Empenhada em dar visibilidade às mitologias do cotidiano, quase sempre algum detalhe mais bizarro ressalta nos rostos fotografados. Há, pois, algo na forma dos retratados que instaura um desconforto naquele que vê: um olhar, uma boca, um nariz, para não falar da disposição dos corpos. Tudo comunica e, ao mesmo tempo, provoca certo mal-estar, que no fundo não procede da imagem vista propriamente dita, mas da situação ou estado da alma da(s) pessoa(s) fotografadas. São silêncios entre casais, corpos nus displicente e naturalmente desajeitados, artistas travestis, a solidão das pessoas, entre outros. Como diz Judith Butler, a câmera fotográfica de Arbus não participa do jogo voyeurista e invasivo dos corpos em voga na sociedade contemporânea. Suas fotos mostram inclusive uma relação de tensão e resistência à captura da imagem : « ela(s) nos permite(m) um modo de compreender como o corpo algumas vezes só se torna resolvido em sua impermeabilidade, objetividade, superfície e solidão ». [she gives us a way of understanding how the body only sometimes becomes resolved into its impermeability, its objectness, its surface, and its solitude].


Homem de bob (1966)


Libertária, ousada e avançada para o seu tempo, as suas inúmeras fotos de homossexuais presentes no mundo do circo e do espetáculo servem de termômetro e indicador do seu vanguardismo cultural. Eles foram clicados em geral em camarins, acentuando ainda mais a perturbadora e assaz enevoada passagem entre a identidade sexual desejada e o aspecto camaleônico de todo artista, ao se maquiar e se fantasiar.

Agora o ponto alto da exposição é, ao meu ver, a série que ela dedicou a algumas mulheres e adolescentes, atingidas por síndrome de Down, clicados num contexto de uma colônia de férias no campo. Tal é o seu sentimento de respeito pelas pessoas que Arbus consegue uma verdadeira façanha: a uma determinada altura, ela  inverte a lógica do senso comum. Depois de vermos por tanto tempo pessoas ditas normais com suas estranhezas e tristezas - embora, como diz o poeta Vinícius de Moraes, com « uma esperança de um dia não ser mais  triste, não » -, ao olharmos as fotos do grupo de pacientes com deficiências intelectuais, vemo-las mais alegres e festivas que doentes. Perturbadora essa linha entre a dita « normalidade » e a   « anormalidade ».





A foto mais surpreendente e bela, na exposição, é justamente a de uma adolescente com síndrome de Down num campo a sorrir e a segurar uma flor. Tudo nela sugere graça, feminilidade e beleza desabrochando, não fosse o nosso olho treinado constatar paralelamente que ela apresenta o dito transtorno. Mesmo se tudo isso é revestido de intencionalidade, pois há um projeto, uma tese em desenvolvimento no momento dos registros fotográficos, há também a interferência do acaso e da beleza flagrada em sua espontaneidade. A condição humana é exibida assim em suas múltiplas e desconcertantes faces – « personagens singulares que aparecem como metáforas, autores e heróis de um sonho real » (D.A.) -, as quais nem mesmo o glamour do show business é capaz de ocultar.


O corpo tem muitos cotovelos
ou mulheres, prazer e dor, segundo Paula Rêgo


O amor (1995)

Se a obra de Diane Arbus transmite uma certa frieza e mostra as pessoas como que aprisionadas em uma fixidez melancólica, os quadros, desenhos e esculturas de Paula Rêgo (1935-…), mesmo tratando de temas humanos e sociais difíceis, é puro calor e cor. Como diria o poeta Fernando Pessoa, « eu sou à esquerda de quem entra ». Também essas artistas o são. Mostram a vida por seus recantos menos evidentes. Diane Arbus fotografa as pessoas na rua, ao ar livre ou sob a mira de luzes nos camarins. Paula Rêgo explora outra ordem da privacidade, menos a tristeza e mais a dor, menos as paixões e mais as taras humanas, menos a liberdade e mais a exposição à violência. Tudo isso se passa, porém, em ambientes fechados: casas, quartos, colégios e orfanatos.


Anjo (1998)


Na maior parte das suas telas e desenhos, ela retrata as contradições humanas, seu desnorteamento frente à falta de soluções, mas também o desejo concupiscente de pessoas idosas, a androginia que desmistifica anjos. O desejo está lá. O corpo está lá. Inegáveis, por mais pesadelos que se sofra e crimes que se cometa por eles.

Trata-se de uma leitura crítica, que propõe que aspectos impiedosos do privado sejam objeto de uma apreciação social e pública, mas ao mesmo tempo esses quadros e instalações não julgam. Deixam esse trabalho para o espectador, que, desavisado, pode muito bem imaginar meras cenas íntimas familiares e entre homens e mulheres. Paula Rêgo, porém, juntamente com as pesquisas mais recentes sobre violência doméstica e sexual, alerta a todos para o fato de que o perigo, por vezes, mora literalmente ao lado. Casas de família são também alcovas e nem mesmo a diferença de gerações basta para proteger crianças e mulheres. Ela não opera nenhum julgamento direto, mas mostra, graças ao belo traço de seus pincéis e sem nenhum disfarce, a vida como ela é. Nos anos 90, seu trabalho vai adquirir força e expressividade, veiculando doravante temas relativos à complexidade da natureza humana, que vão particularizar o seu estilo e consagrar o seu nome internacionalmente.

Sua obra dialoga com livros de Eça de Queiroz e Júlio Ribeiro, autores naturalistas respectivamente de Portugal e Brasil. A atmosfera naturalista está lá na denúncia, mas ao mesmo tempo Paula Rêgo não deixa de prover sua obra com a beleza plástica. O onírico mostra-se numa linguagem pictórica que remete às fábulas, com presença lendária de animais e faunos. Ora percebe-se a influência das « Pinturas Negras » de Goya em suas gravuras. Ora seus quadros coloridos fazem-nos lembrar de Gauguin: nele a leveza taitiana, nela a densidade portuguesa. As casas e famílias, ao que parece, podem ser território de outros tipos de colonização e dominação.



Entre mulheres (1997)


Para concluir essa breve introdução à arte de Paula Rêgo, gostaria de sugerir aos blog-leitores a visita ao seu museu em Cascais, o belo e moderno espaço Casa das Histórias Paula Rêgo, inaugurado em 2009. Pela obra, pela arquitetura, pelo verde do lugar e também pela orla que nos conduz e nos devolve à Lisboa, vale a ida até lá. Depois de Vieira da Silva, Paula Rêgo é uma das artistas plásticas portuguesas que conquista notoriedade internacional. A semelhança não acaba aí. Seu marido, Victor Willing, era igualmente pintor como o de Vieira da Silva, Arpad Szenes. O mais curioso é que a obra dessas mulheres é dotada de uma força que sobrepuja largamente a delicadeza dos homens artistas que as acompanharam pela vida.

Mais que isso, Paula Rêgo é autora de uma das obras mais eróticas e criativas que há tempos não via: a gravura « Rapariga engolindo um pássaro » (1996).

Com a palavra agora, Maurílio Matos, que nos apresenta a obra de Paula Rêgo, por um ângulo raro e assaz reflexivo do ponto de vista do humano e do feminino, a partir de um extrato de seu livro A criminalização do aborto em questão, publicado pela editora Almedina em 2010. A arte vem somar, assim, com os versos da canção brasileira, O Bêbado e o Equilibrista: « uma dor assim pungente não há de ser inutilmente ».


Série “Sem título”, de Paula Rego




Maurílio Matos**


A artista lusitana Paula Rego, mesmo radicada em Londres, possui uma relação visceral com seu país. Seus quadros tratam de valores e assuntos universais a partir da particularidade dos temas em Portugal. Paula Rego também junta a isso sua preocupação, ou “necessidade”, de abordar as mulheres e suas questões, numa perspectiva de questionamento do papel que tradicionalmente lhes cabe.

As mulheres representadas nos quadros de Paula Rego permanecem dentro de casa, mas a pintora transforma a casa num autêntico campo de batalha (Cabral e Rodrigues, 2009:05).

Após o plebiscito de 1998, em Portugal, sobre a descriminalização do aborto – que teve um grande índice de abstenção e no qual o “não” saiu vitorioso – a artista pintou uma série de quadros sobre o aborto, expostos em 1999. Sobre essa série de quadros, intitulada “Sem título”, já disse a artista:

Arte é arte, mas nem sempre se vê o que se passa nela. Um quadro não é apenas cores e formas, mas história. Essa série surgiu da minha indignação. Fiquei triste com o que se passou em torno da questão do aborto. Houve vergonha. As pessoas não foram votar por desleixo. A Assembléia tinha tido a palavra final, nem sequer havia que realizar o referendo. Há anos, em Portugal, é evidente o sofrimento das mulheres: as ricas vão abortar ao estrangeiro, as pobres não podem. É inacreditável considerar criminosas mulheres que praticam aborto. Isto faz-me lembrar coisas do passado (Diário de Notícias, 23/01/2008).

A série de quadros retrata mulheres sozinhas vivendo as agruras de um aborto clandestino. São mulheres jovens e maduras que passam extrema força nos seus olhares. Concordamos com Macedo (2001) que essa série foi um gesto da artista de tornar público aquilo que se quer privado e silenciado, ou melhor, “as vergonhas privadas”.

Dessa série, o quadro mais divulgado é o “Sem título número 08”, que retrata uma mulher sentada em uma cama com uma toalha em baixo de si, uma tigela ao seu lado e há, também, uma bacia abaixo da cama. Nesse quadro a mulher nos olha diretamente. Inevitavelmente nos inquire sobre a necessidade de passar por aquilo. Esse olhar é de dor, mas também de determinação.





Essas mulheres, retratadas por Paula Rego, chamam atenção para o sofrimento de um aborto clandestino, mas não há penúria nos seus rostos. Há, como diz a própria artista, em algumas mulheres retratadas “uma expressão de desafio”, uma vez que elas “tomam conta do seu próprio destino”. Afinal, como disse a artista nesta mesma entrevista:

As mulheres que abortam sofrem, mas o espírito pode sobreviver à dor. Não suporto a idéia de culpabilização em relação ao acto. Já basta o que cada uma sofre por ter de o praticar (Diário de Notícias, 23/01/2008).

A série de quadros de Paula Rego aqui tratada é bela – como só uma obra de arte pode ser – mas também educativa, pois nos possibilita refletir sobre a importância da descriminalização do aborto. Vale a pena ser vista e refletida.

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Mione Salesé doutora em Sociologia (USP), professora da FSS/Uerj e tem M1 em Literatura Comparada (Paris 3 Sorbonne).

Maurílio Matos – é professor Doutor da Faculdade de Serviço Social da UERJ e assistente social do SUS / Sistema Único de Saúde em Duque de Caxias.
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Referências Bibliográficas

BUTLER, Judith. Diane Arbus: Surface Tensions. Artforum, fevereiro 2004. Disponível em: http://www.americansuburbx.com/2010/11/theory-surface-tensions-judith-butler.html
CARNAVAL, Marcia. A face humana em Georges Bataille e a afegã sem nariz da 'Time Magazine’. Comunicação oral durante o 18° Encontro  PPGAV /UFRJ, novembro 2011.
GATTINONI, Christian e VIGOUROUX, Yannick. La Photographie (1839-1960). Paris, Editions Scala, 2001.
LAROUSSE. Dictionnaire de la photo. Paris, Larousse, 1966.
MATOS, Maurílio. Aborto: População não quer ver a mulher presa por isso. Entrevista 5 dedos de prosa, Blog Mídia e Questão Social, 14/10/2010. Pode ser consultado no link:
http://midiaequestaosocial.blogspot.com/2010/10/cinco-dedos-de-prosa.html
_____.  A criminalização do aborto em questão. Lisboa, Almedina, 2010.
RANCIÈRE, Jacques. Le spectateur émancipé. Paris, La Fabrique, 2008.
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LINKS

[Quinze imagens que chocaram Deus, artigo no jornal Le Monde]

[O Bêbado e o Equilibrista, Elis Regina]

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Editoria O Efeito Quixote

Mitos, distorções e realidade em torno da liberdade de expressão


                                      Foto: Google



Leandro Rocha*


Antes que o leitor me considere um autoritário defensor da censura, convém explicitar aqui que a intenção deste texto não é compor um tratado sobre os “males da liberdade de expressão” e sim refletir sobre como algumas pessoas e/ou segmentos da população têm distorcido o real significado deste direito, de maneira a justificar e/ou garantir a legitimidade em ações de violações de direitos.

Para iniciar nossa reflexão, vamos partir da conceituação do direito à liberdade de expressão, em que o mesmo é tido como garantia de que o indivíduo e/ou o grupo ao qual ele pertence tenha protegido o seu direito de manifestar claramente suas ideias e sentimentos. No entanto, a liberdade de expressão muitas vezes é tratada como um direito de cunho individual e/ou individualizante, o que acaba fortalecendo a concepção liberal de direito formalmente estabelecido, sem que haja, na verdade, um investimento para que seu amplo alcance seja democratizado. Ou seja, todos têm assegurado o direito a se expressar, porém, nem todos têm acesso aos meios para dar visibilidade à sua expressão.

Um exemplo claro desta afirmação é o tratamento dispensado às outorgas de rádio e TV no Brasil. Enquanto um pequeno grupo de empresas possui a propriedade de grande parte dos veículos de comunicação (inclusive exercendo propriedade cruzada destes), ainda há um processo de burocratização da liberação de autorização para funcionamento de emissoras de rádio e TV comunitária, bem como um processo de criminalização da primeira categoria e a inexistência de política relacionada à segunda.

Dada a importância da descentralização e da regionalização da produção, de forma a contemplar a diversidade cultural da população, é inegável que o incentivo a espaços onde democraticamente sejam garantidos estes aspectos é parte vital em uma configuração de realidade social que efetivamente tenha como norte a liberdade de expressão.

Há ainda a discussão acerca do potencial libertário da internet, com relação à produção e circulação de informação e, consequentemente, de seu estabelecimento como território ideal para o exercício pleno da expressão livre. No entanto, é preciso problematizar que o acesso a este meio no Brasil ainda é limitado a 43% da população, segundo informações do Censo 2010 do IBGE. O que comprova que, ainda que haja uma maior possibilidade de veiculação de informações contra-hegemônicas, tal fluxo não atinge a maioria da população, principalmente os segmentos menos privilegiados na balança da desigualdade social. Estes dados nos trazem a constatação de que, ainda que o espaço internético seja considerado mais democrático do que a maior parte dos canais de comunicação, seu acesso ainda não é. Dificulta-se, desta forma, a exploração de seu potencial pela sociedade como um todo.

Caberia ainda aqui a discussão sobre a instrumentalização da população para a utilização das tecnologias de informação e comunicação, que também tem influência direta no aproveitamento destas tecnologias, incluindo neste rol a internet.

Em momento mais oportuno, discutiremos mais profundamente a questão do monopólio dos canais midiáticos e da repressão aos espaços populares de comunicação, no entanto, os pontos trazidos nos auxiliam na conclusão de que o direito à liberdade de expressão não encontra condições objetivas em nossa sociedade para ser exercido plenamente pela população em seus diversos segmentos e configurações.

De volta ao ponto principal de nossa reflexão, é preciso que estejamos atentos à garantia do exercício do direito à liberdade de expressão, assim como também devemos atentar para que este direito não seja distorcido em prol da negação de outros direitos e/ou de ações de discriminação, agressão ou mesmo de outros delitos e crimes.

Discursos e ações que pregam a intolerância e a violência contra pessoas consideradas por alguns grupos ou indivíduos como diferentes (quer seja por sua etnia, orientação sexual, classe social, origem ou mesmo forma de se vestir) têm sido apresentados sob a égide do exercício do direito à liberdade de expressão e, quando questionados, tentam argumentar que este direito se sobrepõe a vários outros, inclusive o próprio direito à liberdade de expressão e de escolha (conforme o princípio da liberdade e da autonomia) de outras pessoas.

Os casos citados abaixo podem ilustrar melhor a situação e dar um panorama do quão nociva é esta distorção:

1)       Motivada pela revolta com o pleito eleitoral de 2010, em que a candidata Dilma Roussef sagrou-se presidente, uma jovem paulistana publicou em seu twitter a seguinte afirmativa: “Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado”. A postagem creditaria a vitória de Dilma aos nordestinos, em razão do Programa Bolsa Família do Governo Lula naquela região, e colocava como solução para evitar coisas do tipo o extermínio desse segmento da população.  Os defensores da jovem alegaram que ela estava fazendo um comentário em sua página pessoal e que não havia pensado na extensão do alcance do mesmo. Também foi alegado que a jovem estava apenas exercendo seu direito de se expressar livremente. No entanto, a justiça considerou pertinente a denúncia apresentada pelo Ministério Público e a jovem aguarda o julgamento por crime de racismo, podendo ser condenada a pena prevista de 2 a 5 anos de prisão e multa (agravados pelo uso de meio de comunicação social ou publicação).




2)       Há também o exemplo do blog, denunciado em setembro deste ano, pela ABLGT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) que incentivava, além da morte de homossexuais, a prática do crime de estupro como forma de “correção de lésbicas”. O blog ainda sugere as técnicas e indica material para a prática do crime. Após a denúncia, a página foi colocada sob investigação.




3)       A discussão do direito à moradia e direito à cidade, tão em voga em tempos da escolha do Brasil para recepção dos megaeventos, passa a ser utilizada como argumentação para o ataque a uma parcela da sociedade que tradicionalmente já tem seus direitos e muitas vezes seu reconhecimento como cidadãos negados.




Os casos são muitos e com questões tão complexas sobre as quais poderíamos trabalhar uma série de artigos a respeito de cada um deles. No entanto, o tema fundamental que os unifica é exatamente a necessidade de se discutir que o exercício de um direito não é motivo para isenção de sua responsabilidade ao exercê-lo, bem como não justifica a negação de outros direitos e/ou a prática de crimes.

O direito à liberdade de expressão, assim como qualquer outro direito, deve ser garantido a toda a sociedade. E, para além da garantia formal, discutido e instrumentalizado, de forma que todos possam fazer uso pleno deste.

Também é urgente que seja feita uma discussão qualificada sobre este direito tão importante, a fim de que ele não seja utilizado, como apresentado nos exemplos acima, de forma distorcida, legitimando ações que, ao invés de promover uma transformação societária pela troca de ideias e impressões, visam apenas propagar o ódio, a violência e o desrespeito pelo próximo.




*Leandro Rocha, assistente e "insistente" social, pós-graduado em Psicologia Jurídica pela UCAM, integrante da Comissão de Comunicação e Cultura do CRESS-RJ. Contato: e-mail: leorochas@hotmail.com.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta

Ya basta! –
25 DE NOVEMBRO - DIA MUNDIAL DE LUTA CONTRA A VIOLENCIA FEITA AS MULHERES





Mione Sales*

Todos os anos, desde 1999, comemora-se em 25 de novembro o dia mundial de luta contra a violência feita às mulheres. Esta é uma ocasião em que as entidades feministas dos mais diversos pontos do globo tentar dar visibilidade às consequências dramáticas da violência sexista. Procuram interpelar os governos e atrair a sensibilidade e atenção da população.

Para não tingir ainda mais de vermelho as nossas páginas com dados de mortes, espancamentos e torturas feitas a meninas, adolescentes, mulheres e idosas, preferi pôr em evidência aquele momento que precede a coragem da denúncia. A poeta, Cecília Meireles, fala disso. Sabemos todas que basta dar um passo e não se está mais no mesmo lugar. Façamos!

Em memória de todas a mulheres que não chegaram a dar esse passo e pereceram tristemente em vão.

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Tu tens um medo

Arquivo Google


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.


"Ophélie et Hamlet"
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...

"La Victoire"
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterna.

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[Fonte: MEIRELES, Cecilia. « Cântico VI ». Cânticos: oferenda. SP, Moderna, 1990.]

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Mione Sales – é assistente social, doutora em Sociologia (USP) e professora de Serviço Social (FSS/Uerj).

CECILIA MEIRELES


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Editoria Jornalismo na Correnteza

O ESPAÇO DA CRÔNICA


Ana Lúcia Vaz*


A classificação dos diferentes gêneros jornalísticos nunca foi assunto que me interessasse muito. O resultado é que, depois de 20 anos de jornalismo, 11 também como professora de jornalismo, continuo compreendendo mal a tal classificação. Portanto, não me arriscarei, aqui, a explicar o que é a crônica, muito menos a dissertar sobre seu espaço ou importância.

Apenas sei que, se existe algum lugar no campo da produção jornalística, para o que publico a seguir, é o lugar da crônica.

Se existe algo capaz de caracterizar todo o tipo de jornalismo, em sua dimensão ideal, é a busca da verdade. O que, depois de Marx e Foucault e a globalização da comunicação, ninguém mais pode acreditar como algo universal. Então, resta ao jornalismo buscar, não a Verdade (inatingível), mas o verdadeiro. Em minhas experimentações, ando, neste momento, convencida de que o texto verdadeiro é aquele que nasce da própria experiência. Que, longe de buscar generalizações a partir desta experiência, se permite mergulhar fundo no que há de único, e ao mesmo tempo compartilhável, em cada experiência. Esse é o lugar da crônica.


Sobrou pro pé




- Caraca Ana! O que houve? Cheguei agora e me disseram que você foi atropelada?! Foi saindo lá de casa?

- Pois é. Na Praia de Botafogo.

- Mas foi uma bicicleta?

- Não. Um carro.

- Ah! Me disseram que uma bicicleta tinha te atropelado. Mas você saiu de lá de bicicleta, né?

- Foi. O carro atropelou a bicicleta.

- E machucou muito?

- Não. Só o pé. Acho que torci.

- Ai, tô me sentindo super culpada.

- Deixa de bobeira! Cada um tem seu carma.

- Mas você foi lá só pra me ajudar no trabalho da minha filha.

- É, mas fica tranquila que eu tenho minhas questões também. E muitas!!!

- É? Vou tentar. Ah? Peraí!... A Beth está mandando você tomar um banho de descarrego.

- Qualquer um? Como é o banho de descarrego?

- Ih! Espera que ela já sumiu. Vou achar e te ligo.

- Oi minha filha!

- Oi, Beth.

- Anota aí: Desata-nó, aroeira,...

- Beth! Eu não consigo andar. Como vou arranjar essas ervas?

- Ah! O que você tem aí?

- Boldo, sal grosso, amônia, tenho as ervas pro banho que a Velha receitou.

- Então faz a limpeza com amônia, depois o banho da Velha.

Estes foram os primeiros socorros. Além do gelo, evidente. No final estava exausta, mas finalmente em paz comigo e com os últimos acontecimentos. O pé já não doía parado, embora não conseguisse pisar. Descansei um pouco e fui ao Centro, pendurada em muletas, para o primeiro atendimento de emergência. À base de ervas, suspiro e tamborzinho xamânico.
No dia seguinte foi a vez do ritual médico. Emergência do Quinta D’or. O pé fazia lembrar aquelas luvas de borracha, tipo de cirurgião, quando a gente enche de ar para fazer balão, com os dedinho abertos e inchadinhos.



Apresentamos os documentos. A moça da recepção chamou. Fornecemos os dados para preenchimento da ficha. Mais espera. Outra moça chamou. Esta usava jaleco branco. Me levou por uma porta onde me sentaram numa cadeira de roda e um daqueles homens de dois por dois metros, vestindo terno preto e com o ouvido plugado, barrou minha sobrinha. – Aqui não pode acompanhante!

Na sala de triagem, a moça me perguntou o que houve enquanto apertava meu braço com o aparelho de pressão, enfiava um termômetro debaixo do meu suvaco. O pé, mesmo, ela só olhou para ter certeza de que não faltava um pedaço ou coisa parecida. Preencheu outra ficha e prendeu uma fitinha verde com uma etiqueta cheia de informações no meu pulso.

Devidamente etiquetada, fui para outra sala de espera. Toda sala tem uma televisão passando um programa idiota, para nos manter imbecilizados enquanto os médicos cuidam do nosso corpo. Ou melhor, da nossa doença ou avaria.

Finalmente fui chamada. O ortopedista que me atendeu carregava uma dezena de fichas nas mãos. A minha era a primeira da pilha. Olhou meu pé, sem tocar, e mandou pro raio-x.

Foram seis chapas! Enquanto esperava ser chamada novamente, consegui que o rapaz que me carregava pra cá e pra lá na cadeira de rodas me estacionasse num corredor onde a televisão passava futebol. Menos mal!

Nenhuma fratura, pra estranheza do próprio médico, impressionado com o tamanho do hematoma. Uma semana de pé pra cima. Gelo, anti-inflamatório e uma semana de licença do trabalho. Esta, aliás, era a parte boa. O estresse do trabalho, no último período, chegou ao ponto de me fazer aceitar a receita de ansiolítico, dada pela endocrinologista.

Passada uma semana, o pé ainda doía muito para pisar. Lá fui, de novo, a uma emergência! Documentos, ficha, triagem, etiqueta. Desta vez um ortopedista que, pelo menos, examinou meu pé. Mais radiografias, hipóteses, novas radiografias, agora do outro pé, para comparação. Nenhum diagnóstico! Como a burocracia dos planos de saúde não deixa o pessoal da emergência pedir exames mais complexos, o doutor me mandou para um especialista de pé.

Pesquisando na internet, cheguei à conclusão que todo especialista em ortopedia de pé é, na verdade, um cirugião de pé. Tô fora! Quem escapa à tendência de procurar, no mundo, os problemas que melhor sabemos resolver? Nem eu, nem o padre, nem minha mãe-de-santo, nem o médico. Eu é que não ia começar a corrida atrás de um diagnóstico por um cirurgião!!!

A essa altura os hospitais já acumulavam nove radiografias do meu pé esquerdo e três do direito. Nenhuma fratura! A alternativa era a ressonância magnética para analisar os tecidos moles. Fui no primeiro ortopedista, especialista em qualquer coisa, do plano de saúde, que pode me atender. Mais um ortopedista com nojo de pé! E olha que eu mantinha o meu bem limpinho! Deu duas apertadinhas tímidas no coitado, só olhou para o outro porque eu insisti e garantiu que não era nada grave – “Ou você não estava sassaricando por aí assim tranquila!”

Quer dizer, não tinha chegado ao consultório dele, calçando uma bota ortopédica, pendurada em duas muletas?

Finalmente a ressonância! E quatro dias para conseguir que a burocracia médica parisse o resultado: duas fissuras ósseas, no primeiro e quarto metatarsos.

O quarto ortopedista, desta vez numa clínica ortopédica, apertou meu pé com um pouco mais de interesse. Mas sem exageros! Olhou a ressonância e mandou imobilizar o pé por, no mínimo, três semanas.

Mostrei o exame à fisioterapeuta, que me acompanha há anos, e todo o tempo insistia que, pelo tipo de hematoma, devia ter fratura. Diferente dos ortopedistas, ela já apalpou muito pé, inclusive o meu.

Mas também gosta de um exame de imagem.

- Tá vendo? Ainda tem bastante hematoma. E é muito interno. Um monte de líquido, mas tudo pelo meio do pé, olha só! – comentou espantada.

Na imagem invertida, um monte de manchinhas de luz, pontos em branco, mostrava os líquidos espalhados pelo interior do pé.

A imagem dos líquidos espalhados pelo meio do pé me fizeram voltar a Ewá e à âncora esculpida em purê de batata-doce, a pouco antes do acidente.

Quando cheguei à casa do Eraldo, a batata-doce tinha acabado de cozinhar. Descasquei e amassei com as mãos, até virar uma massa de modelar. Sentei num canto do chão com a massa, um prato branco e uma vasilha branca de água. Comecei a modelar a âncora que seria oferecida em ritual a Ewá.

Enquanto esculpia a âncora, fui sendo tomada por uma umidade escura, aconchegante e profunda.



 
- Quem é Ewá? É da profundeza das águas, né? – Perguntei à Mãe-Pequena.

- Não, é da floresta.

- E por que a âncora?

- Não faço a menor idéia! – respondeu enquanto escancarava a boca numa risada frouxa.

Voltei à minha umidade escura, agora sentipensando a umidade escura das florestas fechadas, densas. Algo de umbilical.

Saí de lá ainda um pouco fora de fase. O corpo tomado pela quietude escura e aconchegante da floresta úmida. A mente, ultimamente super-acelerada, correndo na frente do corpo.

Chegar em casa, tomar banho, almoçar e correr para o Centro. Na Praia de Botafogo, os dois carros embicados na direção da rua Farani se preparavam para entrar à esquerda. O Doblô, que estava à direita, com a seta piscando à esquerda, já se colocava à frente do carro preto à sua esquerda. Decidi atravessar, apesar do sinal fechado para mim. Já no meio da rua percebi que o carro preto chegava em velocidade. Bateu desespero. Não acredito! Diante de mim, um tapume de obra, na esquina, não deixou espaço de fuga. O carro pegou a roda de trás da bicicleta. Na queda, meu pé, junto com o chinelo de dedo, se torceu no asfalto. O motorista me socorreu, mas eu mal conseguia apoiar o pé no chão.

Na volta para casa, o balanço inevitável. Havia duas semanas, vinha percebendo momentos, na bicicleta, em que pequenas imprudências me colocaram em riscos desnecessários.

Andar de bicicleta, no Rio de Janeiro, tem que ser exercício de meditação. Se não, vira atividade suicida. As ruas e calçadas esburacadas, o trânsito impermeável à ordem. Ocupamos os espaços que sobram da luta violenta entre ônibus enlouquecidos, pedestres estressados ou desligados com suas músicas enfiadas nas orelhas e carros afobados. Nesta guerra, a bicicleta é invisível. Não lhe pertence à rua, nem a calçada, nem as ciclovias fictícias que a Prefeitura desenha pelas calçadas ou ruas.


Van estacionada na ciclovia em Ipanema

A sobrevivência, como ciclista, depende da consciência de nossa insignificância e do permanente estado de vigília e permeabilidade.

Usar chinelo, por exemplo, é uma estupidez. E o que é pior, consciente. Percebi que estava de chinelo, quando saí de casa. Mas tive preguiça de trocar. “Vou só até ali rapidinho e volto!”, pensei. Só da Fonte da Saudade, na Lagoa, até a Senador Vergueiro, no Flamengo.

Avançar sinal é burrice. “Deduzir” o movimento dos carros e confiar nisso, como eu fiz, coisa de quem perdeu totalmente a noção do perigo. A raiva do arrependimento chegou a se manifestar. Mas já cheguei em casa ciente de que precisava agradecer por ter apenas torcido o pé, a tempo de perceber meu enlouquecimento.

No Centro, o primeiro atendimento de emergência empurrou muita lágrima para fora. A criança da Mãe-Pequena encharcou meu pé em banho de ervas. Depois começou a esmigalhar suspiros e esfregá-los, produzindo uma lama pegajosa, que mataria de asco os ortopedistas. Meus olhos se fecharam e voltei àquele lugar úmido e escuro, meio como um útero. Uma espécie de tristeza muito profunda, muito antiga e desconhecida, quase ancestral, transbordou pelos olhos. O tamborzinho xamânico, na mão da criança, chamava os espíritos da floresta. Ao final, a Mãe-Pequena me explicou que Ewá é a deusa das florestas das ilhas virgens, aquelas que nunca foram pisadas pelos homens. Uma entidade ancestral, já quase esquecida. Desaparecida como as florestas virgens.

 
Ewá


Com o pé para cima, o ritmo foi desacelerando. Depois de dez dias quase sem me mover de casa, acordei com a sensação desagradável de quando a gente toma remédio pra dormir. Mesmo dormindo bem, o corpo pesava para sair da cama. Parei de tomar o ansiolítico. Algumas noites foram um pouco agitadas, mas no geral continuo dormindo muito.

A clausura se transformou em retiro espiritual. Estudo, escrevo, me comunico com o mundo, mas dedico muitas horas aos cristais, ao silêncio, ao auto-cuidado. A vida vai ganhando sentido à medida que perde velocidade. A sensibilidade também se amplia.

Depois de duas semanas voltei ao centro. Desta vez para gira de exu. Recebi passes maravilhosos, alguns apenas através do olhar. As mensagens se repetiram: você precisava parar!

Esta semana, de novo no centro, Maria Padilha, que comanda as festas de exu, olhou meu pé e disse que eu já podia tirar a bota. Mesmo esperando que o médico me autorizasse a tirá-la no da seguinte, vacilei. Não sou de sair jogando muletas para o alto porque um santo ou entidade me disse: “levanta e caminha!” Mas voltei para o meu lugar mais confiante, começando a apoiar o pé (com bota!) no chão. Então foi o meu Tranca Rua que veio tirar a bota para dar um passe e iniciar a fisioterapia.

No dia seguinte, no médico, tive que fazer algum esforço para não dar a perceber que já sabia o resultado da consulta.

Andei procurando na internet quem me ensinasse sobre Ewá. Algumas belas histórias, muito diferentes entre si. Nada que me tocasse profundamente. A gratidão que cresce em meu corpo, por esta energia que fez vazar águas profundas, se alimenta dos rituais a que me dedico no cotidiano. Não importa os nomes e estórias que lhe atribuam.


 
Ewá

Em breve retorno ao trabalho. Nesta última semana de licença, todo ritual está focado em recuperar os movimentos e músculos do pé e descobrir o jeito de manter a consciência da floresta, de volta às ruas e à sala de aula.

Salve Ewá!


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*Ana Lucia Vaz, jornalista, mestre em Jornalismo (USP), membro da Rede Nacional de Jornalistas Populares (http://www.renajorp.net) , professora de jornalismo e terapeuta craniossacral.