(...) O frio soluçante e amargura
Envolve o coração num fundo luto.
(…) A alma por mais feliz e por mais pura
Tem de sofrer o esmagamento bruto.
(…) Em tudo derramar o amor profundo,
Derramar o perdão no caos do mundo,
Sorrir ao céu e bendizer o Inferno!
“Fruto envelhecido”. Cruz e Sousa
Dois fatos recentes indignaram profundamente os brasileiros e merecem nossa análise aqui pela tematização da questão social e vínculo explícito com a esfera pública midiática nacional, em particular a TV: um deles refere-se ao caso dos garis paulistas filmados pela Band, para o programa de telejornal de final do ano (31/12/2009) do jornalista Boris Casoy; e o outro fez parte de uma crônica televisiva sobre o Haiti (13/01/2010), da autoria de Arnaldo Jabor.
Catástrofes da natureza, religião e «alteridade»:
LIÇÕES HUMANAS TIRADAS DOS ESCOMBROS DO HAITI
2010 fez sua entrada em cena com arroubo quase apocalíptico. A última vez que um ano chegou com essa força e fúria da natureza foi em 2005 com o Tsunami na Ásia. Angra dos Reis e Haiti, nesse começo de ano, viram-se, assim, não obstante a distância geográfica que os separa, latinamente irmanados pela tragédia natural, a qual deixa entrever também sob a lama mãos e decisões humanas. Se fosse apenas uma questão de deuses, como no Olimpo, em que os mortais achavam-se submetidos aos humores e gestos punitivos de Zeus, entenderíamos.
Não temos, aliás, problema algum em admitir a fé e respeitar os ritos haitianos, brasileiros, africanos ou de qualquer credo. Não dá, por outro lado, para isolar tais escolhas e práticas numa redoma de vidro, circunscrevendo-as apenas à esfera da metafísica e do irracional. A religião e outras manifestações confessionais acham-se embebidas de história e nela puseram também os seus vincos, integrando hoje inclusive o epicentro das guerras contemporâneas. Por isso, enganam-se aqueles que querem soterrar o tema como um mero tabu ou algo estritamente primitivo.
