sábado, 12 de janeiro de 2013

Editoria Jornalismo na Correnteza

O mundo que não se revela a quem olha de fora
Uma jornalista às voltas com o serviço social: encantamento e vertigem




 Ana Lúcia Vaz*


Desde junho, trabalho como jornalista no Conselho Regional de Serviço Social do Rio de Janeiro. Minha responsabilidade principal é atualizar o site e produzir as matérias para a revista PRAXIS. Neste pouco tempo, já pude participar de alguns eventos e debates significativos da categoria, como o Encontro Nacional do Conjunto CFESS/CRESS.

Há sempre, nesses encontros, um sentimento ambíguo, de reconhecimento e estranhamento. Em alguns momentos, me sinto revivendo a militância estudantil dos anos 80. Em outros, recapitulo experiências dos quase dez anos de imprensa sindical.

Atualmente, estou mais envolvida com lideranças de movimentos sociais de favela e ocupação urbana. São pessoas que trazem questões bem concretas da vida, do mundo que pouco enxergo com meus próprios olhos. Ainda assim, ouvir assistentes sociais tem sido uma experiência única para conhecer aspectos, em geral invisíveis, do mundo ao meu redor.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Editoria Estranha Semelhança com a Utopia

É possível uma sociedade sem prisões?



Jefferson Lee de Souza Ruiz*

Eis uma pergunta que, há tempos, não quer calar em minhas reflexões. Tenho acompanhado debates diversos acerca de como lidamos com o tema.

Num deles, em ótima contribuição, o professor Ignácio Cano, da UERJ, provocou os presentes a um debate a pensar se realmente somos contra uma "sociedade penal" (ou um "Estado penal"). Pena, dizia ele, faz parte de nossas vidas. Pensemos em como agimos quando uma criança "faz birra". Ou quando um aluno não produz o necessário em um semestre, ou mesmo faz "cópia e colagem" na internet para os trabalhos que entrega a seus professores. Ou, ainda, quando alguém fere o código de ética de uma determinada profissão, trazendo prejuízos a quem recebe os serviços prestados por aquele profissional. Podemos dar outros nomes, mas definimos "penas" a serem impostas ou cumpridas por estas pessoas.

Mas há uma distância enorme entre pena e prisão. Parece-me que esta, inequivocamente, é uma associação muito perversa, que não contribui para pensarmos o que há por detrás do discurso que alimenta a ampliação do sistema prisional mundo afora. No mundo todo tem crescido a defesa de um "Estado prisional" - já denunciado por diversos militantes e pesquisadores, como o colega Marcelo Freixo, com dados a respeito que chegaram ao filme Tropa de Elite 2.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Editoria Equipe Mídia e Questão Social

Jovens negros continuam sendo as maiores vítimas da violência letal no Brasil
Documentário relata vida de uma destas vítimas 


Em 2010 morreram 49.932 pessoas no Brasil por homicídio. 26,2 pessoas a cada 100 mil habitantes. 70,6% delas eram negras. 53,5%, jovens entre 15 e 29 anos.

Estes, e outros dados, foram colhidos do DataSUS (estatísticas desenvolvidas a partir das realidades vivenciadas pelo Sistema Único de Saúde no país) e pelo Mapa da Violência 2011. Contam de artigo produzido por Paulo Ramos, especialista em análise política e mestrando em sociologia (a íntegra foi publicada pela Carta Capital e pode ser consultada em http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-violencia-contra-jovens-negros-no-brasil/).

Republicamos, abaixo, entrevista sobre um documentário que retrata a vida de uma destas vítimas. Sabotage, o "Maestro do Canão" (localizada na capital do Estado de São Paulo), teve sua vida interrompida por quatro tiros em 2003. Para Ivan Vale Ferreira (diretor do filme que será lançado em 2013), trata-se de uma perda do porte das de Cássia Eller e Chico Science para a música brasileira.

sábado, 17 de novembro de 2012

Editoria Web@Tecno

UMA QUASE CERTEZA PARA MUITOS : A VELHICE


Foto: Google


                                                            "Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?"
Friedrich Nietzsche

Nelma Espíndola*

Uma frase criada recentemente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) diz: "O importante não é dar anos à vida, mas sim vida aos anos". E a traduz como sendo importante não a longevidade mais a qualidade de vida. Um quesito que nem sempre é alcançado pela massa de velhos das camadas populares no Brasil e no mundo.

Li há pouco tempo na Revista Época, um artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, publicado em 20/02/2012, com um título que chamou minha atenção - Me chamem de velha / A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem. Através dele, faz uma reflexão muito interessante sobre o uso da palavra "idoso" ao invés de "velho", a troca do termo "velhice" por "terceira idade" ou "melhor idade". Este último eufemismo é o pior de todos, segundo ela. Quer que a chamem de velha, quando as rugas se fizerem presentes em seu rosto, mesmo que isto signifique a proximidade da morte, pois "quer viver sua morte". Não quer que a morte lhe seja roubada, apesar de ser uma realidade "duríssima", pois isto significaria o "sequestro da velhice". 

Brum acha que a palavra "idoso" é uma palavra "photoshopada, ou quem sabe, um "lifting" completo foi feito na palavra "velho". Concordei, de imediato,com suas interessantes e espirituosas considerações, e farei de tudo para não mais usar a palavra idoso, mesmo que seja utilizada por muitos estudos técnicos.

Outro aspecto curioso em sua argumentação é quando ela alerta para a "domestificação da velhice pela linguagem" na atual conjuntura. Basta pensar no culto da eterna juventude, em que se pretende nascer e morrer adolescente, porque esta é a lógica disseminada pela ditadura da beleza, alimentada  através do consumismo. Nesse new world, a cosmetodologia, a plástica e a estética são as protagonistas da vida de quem quer fugir da velhice, à medida que se aproxima essa fase da vida. 
  
Compartilho a mesma expectativa da escritora: quero viver minha velhice, embora não seja uma etapa fácil. É dura, difícil mesmo, mas faz parte da existência de quem a alcança.  Sabemos de relatos de violência, discriminação, desprezo e desrespeito na vida de muitos velhos. Negação de todos os seus direitos é, muitas vezes, um fato incontestável, pura falta de desumanidade praticada pelos que esquecem que um dia serão velhos também.

Tenho a consciência de que a solidão pode ser uma certeza na velhice. Daí penso no que Gabriel García Marquez disse: "O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão".

Simone de Beauvoir, em seu livro A Velhice (1970), trouxe a reflexão que quando não se respeita uma pessoa, em sua integridade emocional, intelectual e material, ela é excluída da sociedade pelos governos, instituições, famílias e pessoas em geral. Os grupos mais excluídos são, em geral, as crianças e os "velhos".

A velhice é o desfecho de uma trajetória , com seus encantamentos e experiências, a qual pode nos trazer a sabedoria de maiores acertos. A paciência torna-se uma lição, quando a espera é necessária para melhores escolhas. A grande questão é que, quando somos "jovens", o  ímpeto de viver não dá espaço e tempo para se ouvir a "experiência" e dela tirar o que se tem de melhor. Penso que estão certos os indianos e japoneses, que dedicam aos que chegam à velhice toda a valorização e cultivo aos seus saberes e vivências. São eles os indivíduos mais importantes da família.

Vemos  ainda como pode ser saborosa a opção de descompromisso que se pode usufruir na velhice, aquela de não necessariamente termos mais que levar a vida com tanto rigor. Podemos vê-la assim mais pelo lado do humor do que pela tragédia. Talvez  este meu pensamento esteja imbricado de uma realidade pouco comum. Mas tive ao meu lado uma Vó, como ela mesma se definia, "positiva", no sentido de dizer sem pudor o que pensava, associada a uma constante dose de humor, que sempre me fez vê-la à frente de seu tempo. Além disso, tenho muito próximo a mim uma turma entre os 80, 70 e 60 anos, com a qual me deleito, pelo que cada um que dela faz parte traz, em si mesmo, e me oferece ora com prazer ora com impaciência, mas, sobretudo, com o respeito ofertado mutuamente. Já estou próxima dos 50 anos e devo confessar que me surpreendo muitas vezes, quando me deparo com os que  vi crianças e hoje, são adultos, pais e mães. Vejo que o tempo se vai, sem volta... Passa... passa...

Mais um ano está por terminar e a capacidade de persistir por mais dez anos na maturidade vai se fazendo uma nova forma de determinação na minha vida. Com prazer saboreio esta esperança, já fazendo minhas tiradas de humor com o que já não faço mais com a mesma rapidez e perspicácia de vinte anos atrás. Sinto-me feliz, porém, porque ainda sonho! E muito!

Posso morrer de repente, mas há a grande possibilidade de me tornar uma velha, em 2025, engrossando a projeção de que nesta década o Brasil será o sexto país mais envelhecido do mundo, conforme informa a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) e Vice-presidente do Conselho Nacional do Idoso, Ana Amélia Camarano, com base nos resultados do Censo 2000. Em seu livro Os Novos Idosos Brasileiros - Muito Além dos 60?, Camarano traçou um perfil dessa nova velha geração.

Por isto, não resisto e exercito a provocação de Eliana Brum, fazendo minhas suas palavras: "Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição".


MAIS É PRECISO QUE SE DIGA:
O mundo terá mais de 1 bilhão de "idosos" , daqui há dez anos, diz a ONU



Em reportagem da BBC Brasil, focalizou-se um relatório de uma agência da ONU  com previsões sobre o perfil demográfico global, que reflete o aumento da expectativa de vida em diversos países do mundo. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês) sinaliza que a tendência é que os (idosos) "velhos" constituam em breve maior número que os jovens. E aponta que já em 2000, esta população no estágio da velhice superou pela primeira vez o número de crianças com idade inferior a cinco anos. Sua previsão é de que, em 2050, o número de pessoas com mais de 60 anos vá superar também a população de jovens com menos de 15 anos.

A UNFPA sinaliza que o envelhecimento da população será mais perceptível em países emergentes. A estimativa é de que 66% da população acima dos 60 anos vivam em países em desenvolvimento. Em 2050, esta proporção subirá para 80%. A agência da ONU diz que o aumento da expectativa de vida no planeta é "motivo de celebração", mas destaca que "as implicações sociais e econômicas deste fenômeno são profundas, estendendo-se para muito além do idoso e sua família". O desafio será encontrar políticas públicas para lidar com o envelhecimento desta população nas próximas quatro décadas. A previsão é de que no Brasil este número de envelhecidos triplique de hoje até 2050, passando de 21 a 64 milhões. A partir dessas previsões, os 10% de pessoas mais velhas existentes hoje na população brasileira, em 2050, passaria para 29%.

O relatório sugere a adoção de novas políticas, estratégias, planos e leis específicas para os mais velhos. Ao contrário do que se pensa, há a constatação de que 47% dos homens acima dos 60 anos e 23,4% das mulheres na mesma faixa etária participam da força de trabalho, contribuindo ou, por vezes, sustentando suas famílias. Em países como o Brasil, México, Estados Unidos e Uruguai, essa contribuição financeira dada pelas pessoas mais velhas, segundo a UNFPA, é essencialmente maior do que a que eles recebem.

Qual será a realidade a ser vivenciada, quando as condições físicas não mais os deixarem integrar a força de trabalho? Apenas um terço dos países do mundo, que somam 28% da população mundial, dispõe de planos de proteção social para esta população.


O Brasil, o jovem país velho



A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Mia Couto


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou, com base no resultado da Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílio (PNAD) de 2011, que a questão previdenciária também é apontada como o principal problema decorrente do envelhecimento. No olhar do geriatra Fernando Bignardi, coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento da UNIFESP, todo o processo de cálculo de aposentadoria foi previsto para pessoas com até 70 anos. Hoje, vive-se mais, o que proporciona, segundo ele, um "furo no cálculo" desse benefício. É preciso garantir uma renda mínima para as pessoas que envelhecem. Outro  problema  apontado por ele é que a medicina tradicional não se preparou para atender os (idosos) velhos, pois a cada diagnóstico, um tratamento é dado, o que faz ser comum, para cada um deles a prescrição de 80 cápsulas de medicamentos por dia.

A OMS e a ONU adotam o seguinte critério biológico para classificar o envelhecimento:

- Meia idade = 45 a 59 anos;

- Idoso = 60 a 74 anos;

- Velho = 75 a 89 anos; e

- Muito velho = acima dos 90 anos.

O geriata Paulo Camiz, professor da Faculdade de Medicina  da USP, ressalta que faltam programas de prevenção da saúde e quando se chega à velhice, a condição de saúde é muito ruim. Chama a atenção sobre a necessidade de se criar um trabalho educacional amplo, para que o Brasil atinja esse estágio, de forma que as pessoas velhas não sejam mais vistas como "estorvos".


O Dia do Idoso, no Brasil: 01 de outubro




A ONU desde 1982 vem se posicionando na abordagem dessa fase de "transição do processo demográfico único e irreversível", que é o envelhecimento da população mundial, devido à diminuição das taxas de fertilidade. Em 1982 foi convocada a primeira Assembleia Mundial das Nações Unidas sobre o Envelhecimento, sendo a segunda realizada em 2002. Em 1991, Assembleia Geral adotou o Princípio das Nações Unidas em Favor das Pessoas Idosas, com a enumeração de 18 princípios, dentre eles: a independência, participação, cuidado, autorrealização e dignidade. De acordo com o Plano de Ação, em reunião na Conferência Internacional sobre o Envelhecimento, no ano de 1992, foi adotada a Proclamação do Envelhecimento. Seguindo a recomendação da Conferência, a Assembleia Geral da ONU declarou em 1999,  Ano Internacional do Idoso, o dia 1º de Outubro como o seu dia. O objetivo foi chamar a atenção do mundo para o envelhecimento da população e criar mecanismos para garantir o amadurecimento saudável e digno das pessoas com mais de 60 anos. O Brasil seguiu esse propósito, criando o Dia Nacional do Idoso.


Visibilidade das Políticas Públicas



De acordo com o envelhecimento da população brasileira, os investimentos em benefícios assistenciais vão crescendo. Atualmente, há uma oferta de atendimento nos equipamentos de proteção social básica e especial, para os velhos que se encontram em situação de vulnerabilidade ou sofrem violações de direitos.

Mas sabe-se que, conforme a realidade nacional, é preciso haver uma implementação de políticas públicas que atendam às demandas desse segmento por saúde, previdência e assistência social, com base nas prerrogativas da Constituição Federal de 1988 e da LOAS, que ensejou a Política Nacional de Assistência Social e aponta o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), como aquele que deverá unir para garantir, a universalização de direitos à proteção social fundada na cidadania.

É preciso olhar o envelhecimento, em sua complexidade e heterogeneidade, pois este  comporta distintas questões de gênero, classe social, religião e etnia. Segundo dados do Censo 2010, vai se confirmando a tendência da "feminização" da velhice, pois em números absolutos o registro é de 96 homens para cada 100 mulheres, sendo apenas a região norte do país a mais jovem em população, com maior número de mulheres para cada homem.

Hoje, mais de 1,7 milhão de pessoas acima dos 65 anos recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que é financiado pelo Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome (MDS). O BPC garante o valor de um salário mínimo às pessoas com deficiência e pessoas idosas, com renda familiar abaixo de um quarto do salário mínimo, que não recebem aposentadoria, ou outro benefício, exceto a saúde. Anualmente, o MDS investe R$ 27,5 bilhões no pagamento do BPC para quase 4 milhões de brasileiros, somando idosos e pessoas com deficiência. Já o Programa Bolsa Família é pago atualmente a 824.512 pessoas idosas.
Ampliação de serviços – Além de garantir renda e outros benefícios às pessoas idosas, o MDS também tem ampliado continuamente o atendimento aos maiores de 60 anos que estejam em situação de vulnerabilidade ou sofram negligência, maus tratos, abusos, violência física e psicológica ou qualquer outro tipo de violação de direitos.
Vicente de Paula Faleiros, professor da UnB e da Pontifícia Universidade Católica de Brasília, destaca dois momentos importantes no Brasil no trato da população na fase da velhice. O primeiro em 1994 com a criação do Conselho Nacional do Idoso, seguido pela aprovação do Estatuto do Idoso, em 2003. Este último trouxe o referencial para a criação das políticas públicas voltadas para esta população e a dimensão de seus direitos. 
Faleiros avalia ainda a necessidade de se investir no "envelhecimento ativo" dessas pessoas, e o aumento do nível de comprometimento dos gestores. Ele acredita que "estamos na direção correta". “É preciso que as cidades promovam a participação e atividades voltadas para a pessoa idosa”, diz.
Deixo aqui a minha homenagem e respeito a todos os velhos, com os quais convivo, àqueles que encontro casualmente nas ruas, nos ônibus e no cotidiano da minha vida. E agradeço cada sorriso largo que recebo de cada rosto marcado pela vida.
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* Nelma Espíndola – é assistente social, webmaster do Blog Mídia e Questão Social, atua como assessora da Presidência  do PREVINIL / ANEPREM.

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ARTIGOS

- "Me chamem de velha" - Eliane Brum - Revista Época, 20/02/2012.
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html     
- "Sociedade – A nova velha geração" - Revista Desafios do desenvolvimento, 32ª Edição, mar/2007.
- ONU EM AÇÃO
- "Em dez anos, mundo terá mais de 1 bilhão de idosos", diz ONU

VÍDEO

- Reflexões sobre o Idoso - Vlog do Fernando

MÚSICA

É / O que é o que é - Gonzaguinha
http://www.youtube.com/watch?v=SlcHRLNfQ9g  

“Sapato Velho” – Roupa Nova

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta

DESAPEGO –  A última lição de Saramago




« Volto as costas ao mar que já entendo
A minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço ».

JOSÉ SARAMAGO


Mione Sales*

Vou começar essa crônica em homenagem ao escritor português José Saramago (1922-2010), que, em 16 de novembro, completaria 90 anos, por uma espécie de mea culpa, admitindo que as aparências, de fato, muitas vezes nos enganam. Certa vez, uma colega de docência no Rio de Janeiro, me escreveu carinhosamente em uma dedicatória do seu livro para eu ser menos arisca. Fiquei refletindo longo tempo sobre o que ela quisera dizer, embora estivesse segura de que era sobretudo discrição de minha parte o que ela não via ou não estava acostumada. Com o passar dos anos, porém, assumi meu lado índio (tenho um pezinho lá no Amazonas): com todas as suas doçuras e ingenuidades, abertura ao outro, mas também com um instinto de defesa quase selvagem. Por vezes, isso é bom, pois serve de bússola e permite que nos afastemos de pessoas que realmente não valem a pena. Noutras, contudo, pode adiar belos encontros. 


De ilhas vulcânicas, transatlânticos e unanimidade


O escritor em Lanzarote

Incluo esse pequeno fato, a título de prólogo, para confessar que, como muitos dos seus leitores, até bem pouco tempo atrás, conhecia José Saramago apenas superficialmente. Se meu respeito por sua figura era imenso, havia qualquer coisa em mim que discretamente a ele resistia. Reservas contra qualquer tipo de colonialismo cultural à parte, Saramago era, porém, incontestavelmente, um intelectual completo, um dos maiores expoentes das Letras Portuguesas, aquele cuja obra foi agraciada com o Prêmio Nobel em 1998. Saramago pertence, assim, às hostes dos monstros sagrados da literatura. Com isso, não pretendo estar dizendo nada de novo ou original. Mas a admiração, por vezes, é semelhante à sensação de alguém num pequeno bote inflável frente a um transatlântico. Díficil transpor. Difícil acessar.