I Conferência Nacional de Comunicação abre o debate sobre Política Pública de Comunicação
Claudia Correia
Estou na capital da democracia, apesar das tentativas de alguns em corromper, roubar, fraudar e burlar os mais caros princípios que devem reger as relações com a sociedade num verdadeiro Estado democrático de direitos. A cidade amanheceu fria mas, os debates da Confecom certamente vão esquentá-la.
O presidente Lula abriu ontem à noite, aqui em Brasília a inédita Confecom. Nunca antes na história deste país, em bom “lulês”, tanta gente, com tantos interesses conflitantes se reuniu para pensar uma política pública de comunicação que assegure a liberdade de imprensa, os direitos de cidadania para se ter acesso à informação de qualidade e a democratização dos conteúdos veiculados.
A tônica do discurso presidencial foi a imprensa livre, a necessária democratização da discussão sobre como conduzir a política de comunicação num país de dimensão continental onde convivem rádios comunitárias e grandes monopólios articulados internacionalmente. Comentou sobre as rádios comunitárias e a tendência em alguns casos ao aparelhamento por políticos tradicionais. A cobrança é grande porque um dos objetivos da Confecom é abrir espaço para a radiodifusão comunitária que vive em parte na clandestinidade.
Ele criticou a saída dos grandes empresários do setor, onde a Associação Nacional de Jornais-ANJ se inclui.Na verdade este grupo desde o início dos preparativos para a Confecom mostrou preocupação com o controle social sobre a política de comunicação alegando que este caminho é perigoso pois pode levar a uma censura. Sabemos bem a diferença, afinal a sociedade e os jornalistas conheceram de perto os horrores da tortura e da repressão na ditadura militar. Vladimir Herzoc e outros estão na nossa memória com sua luta em defesa de uma imprensa à serviço da democracia.
Ao contrário da maioria das teses da Confecom, que prega o controle social e público dos meios de comunicação, Lula disse ter "orgulho em dizer que a imprensa no Brasil é livre, apura e deixa de apurar o que quer, divulga e deixa de divulgar o que quer, opina e deixa de opinar quando quer." Destacou que o Estado de Direito só existe por causa dessa liberdade. Lula criticou o que chamou de "excesso" da imprensa, mas disse que o remédio é a própria liberdade. "Os telespectadores são capazes de separar o joio do trigo. São críticos implacáveis e juízes muito severos. Quem não trabalha com respeito acaba perdendo a credibilidade."
Cledson Cruz , portador de deficiência, que representa a sociedade civil e integra a delegação baiana na Confecom afirmou que o presidente “encheu linguiça” e que não espera muito de um ministro que praticamente é empregado da Rede Globo. Veio aqui disposto a participar dos debates como na etapa estadual e fazer valer as propostas aprovadas pelo movimento social.
Por enquanto o que mais me chamou atenção foi a mobilização social: cerca de 1.600 delegados de todo o país, representando todos os segmentos, 300 jornalistas na cobertura, 130 “observadores livres” , cidadãos que se inscreveram pela internet para participar como ouvintes. Uma mega estrutura foi montada e os debates prometem.
As mulheres vieram com plataforma de propostas pronta e afiada, vou divulgar no nosso próximo encontro. Vou dando notícia até quinta-feira.
Claudia Correia, assistente social, jornalista, professora da ESSUCSal, Mestre em Planejamento Urbano.
ccorreia6@yahoo.com.br
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Editoria Web@Tecno
Observatório da Imprensa, primeiro media watching do Brasil.
Hoje em nosso cyber-papo, vamos falar de “veículo jornalístico focado na crítica da mídia”, o Observatório da Imprensa. Claro que como todo veículo jornalístico, em sua maioria, ele encontra-se na internet, na televisão e no rádio.
Porém, antes de fazer alguns apontamentos sobre o histórico, objetivos e um pouco do processo de construção do Observatório da Imprensa, quero levantar uma questão que me aconteceu. Confesso que a origem do programa OI não era do meu conhecimento. Não me envergonho disso. Pelo contrário, desse mote é que se vê o quanto é importante sabermos a origem das produções midiáticas, de um modo geral, se quisermos ter um norte melhor para avaliá-las, qualificá-las e fazer delas uma opção como leitora, ouvinte, internauta ou telespectadora.
Conheci o OI em 2005, numa dessas noites em que a gente procura algo de bom para assistir na TV, numa de canal aberto. Um adendo, em minha avaliação pessoal, existe poucas produções tanto na TV aberta, quanto na por assinatura, as quais sejam proveitosas de se assistir.
O curioso também é que o OI fez o percurso inverso ao que têm feito outros veículos de comunicação, como a televisão e o rádio e suas relações com a internet. Ele é o primeiro caso de sucesso que sai da internet e vai ocupar espaços nos meios de comunicação de massa, a TV e o rádio. Foi no seu site que descobri essa característica histórica.
Vou falar-lhes um pouco de sua história, o que pode ser complementada no próprio site do Observatório da Imprensa que é vastíssimo de informações e que está hospedado no portal da IG.
O projeto original foi organizado pelo Labjor - Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com seu desenvolvimento sob a égide do Comitê Gestor Internet no Brasil, nessa versão online, iniciada em abril de 1996, tornar-se um projeto do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo. Seu objetivo é o de acompanhar o desempenho da mídia brasileira, com criticidade. É uma sociedade civil, não-governamental, não-corporativa e não-partidária, constituída em 2001.
Um parêntese que quero abrir: o jornalista Alberto Dines, que é o editor responsável pelo OI. Tenho uma admiração por ele. Aos 77 anos, “ele publica e é noticiado desde 1952. Há meio século ele traça roteiros, escreve livros, cria jornais, revistas, vai ao rádio, à televisão e critica a mídia e seus representantes.” Sua importância também se dá ao nível de reconhecimento profissional no exterior, além do acadêmico. Tem expressão nas universidades brasileiras, portuguesas e americanas como um dos grandes mestres do jornalismo.
Segundo o Observatório da Imprensa, sua característica é de um fórum permanente onde há espaço para os usuários da mídia – leitores, ouvintes, telespectadores e internautas – organizados em associações desvinculadas do estabelecimento jornalístico, com oportunidade de interatividade em suas manifestações e participações, as quais poderão, desse modo, alterar o seu papel de agentes passivos, os quais desempenhavam antes, diante dos medias.
Uma observação significativa que o OI aponta é o “para que um Observatório da Imprensa?”
O de reverter à conjuntura em que a cidadania está posta como “um conjunto de consumidores, ficticiamente vocalizados por pesquisas de opinião pública que empregam metodologia quantitativa, necessariamente redutora, e com pautas alheias aos reais interesses e necessidades dos opinadores.”
Por serem os meios de comunicação de massa, produzidas, em sua maioria, por empresas privadas, as suas decisões são a de seus acionistas e representantes que as legitimam em relação ao que se veicula. Contudo o que deveria ser seguido é que o “produto jornalístico”, é inquestionavelmente um serviço público, o que é assegurado pela Constituição Federal de 1988, através de vários artigos, os quais lhe configura "garantias" e prerrogativas, os quais sinalizam vários deveres e responsabilidades sociais na produção da informação.
Em sua conclusão (SIC):
“A Sociedade Civil deve abranger sucessivos níveis de monitoração e atuação, de forma a diminuir a distância entre os poderes e a cidadania, convertendo-se ela própria numa instância. No caso dos meios de comunicação de massa, o Observatório da Imprensa propõe-se a funcionar como um atento mediador entre a mídia e os mediados, preenchendo o nosso "espaço social", até agora praticamente vazio. Embora pioneiro este Observatório não pretende ser único. As suas atividades servem como convocação para outros grupos fazerem o mesmo.”
E, de fato isto aconteceu com a experiência exitosa do OI, na internet, surgiram outros, entre eles: Canal da Imprensa; SOS Imprensa; Mídia e Política; Monitor de Mídia; NEMP; Análise de Mídia; Agência Unama e ANDI.
Existem similares ao OI em outros países como os Estados Unidos, onde surgiu à idéia com a media-watching (a crítica da mídia), associada à idéia das experiências do já então ombudsman e do media-criticism, o qual designa como um meio sensibilizador à comunidade e aos profissionais da mídia para os arcabouços da função jornalística na sociedade moderna. Existem duas de destaques nos EUA, a FAIR (Fairness & Accuracy in Reporting), fundada em 1986, cujo objetivo é o de fiscalizar a intromissão do poder econômico e político na imprensa. Edita uma revista bimestral, Extra!. A outra, num aspecto conservador a Accuracy in Media, “mais inclinada para apontar as infiltrações e distorções liberais na grande imprensa americana. Embora concorrentes, completam-se, constituindo um sólido aparelho crítico, pluralista e democrático.”
Há outra na França, a Observatoire de La Presse, braço do Centre de Formation et de Perfectionnement des Journalistes (CFPJ), fundada em setembro de 1995. O OI, como experiência brasileira segue o modelo francês combinando duas entidades, uma formadora (o Labjor/Projor) e outra cívica.
Há o registro pelo OI de que a primeira organização designada como Observatório da Imprensa foi criada em Lisboa, três meses antes da francesa, entidade com a qual o Projor mantém sólidos laços de cooperação.
A perspectiva promissora dessa iniciativa trouxe como resultado à versão televisiva do site em maio de 1998, com produção da TVE do Rio de Janeiro, hoje TV Brasil e TV Cultura de São Paulo. Sua transmissão se dá semanalmente, para 27 capitais do Brasil, pela Rede Pública de Televisão, em sua maioria às terças-feiras, às 22h40, sendo que, apenas para São Paulo, ela acontece às quartas-feiras, à 0h10. Veja aqui a grade de programação, no site, pois há ainda retransmissões para os estados e diversas cidades do país, inclusive através de canais por assinatura.
Já no caso da versão no rádio, ela teve início em maio de 2005. É um programa de segunda a sexta-feira, produzido pela Rádio Cultura AM (1200 kHz) e transmitida também pela a Cultura FM (103, 3 mHz), ambas de São Paulo, às 9h; Rádio MEC AM (800 kHz) e FM (98,9 mHz), às 9h30, no Rio de Janeiro; Rádio Nacional em Brasília, FM (96,1mHz), às 10h30 e AM (980 kHz) às 12h30; Rádio Universitária Federal do Rio Grande (RS) FM (106,7 mHz) às 11h30 e na Rádio Inconfidência AM (880 kHz), às 9h30, em Belo Horizonte.
No site, há uma série de opções, de informações além de seu histórico, objetivos, equipe, há várias seções, blogs, o OI na TV, com o último programa e os anteriores, horários, compactos e resumos. A apresentação é de Alberto Dines. No OI no rádio, uma produção da Rádio Cultura AM de São Paulo, com a apresentação do Luciano Martins e participação de Alberto Dines. No site os podcast dos programas podem ser ouvidos e lidos. No link Serviços, encontram-se as edições anteriores por ano, boletim por e-mail, biblioteca, classificados de anúncios gratuitos ligados aos serviços de jornalismo, imprensa, mídia e comunicação. Quem oferece emprego e quem oferece os seus serviços, também o Netbanca. E encerrando, o RSS links e o balanço das urnas eletrônicas (apuração das enquetes feitas no site). Pode-se fazer o contato com o Observatório da Imprensa através do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, por telefone e endereço.
Você também pode ainda enviar o seu artigo através do e-mail canaldoleitor@ig.com.br, indicando nome, profissão, cidade e telefone para um possível contato para uma possível veiculação. Não é interessante?
Agora para fecharmos, não poderia deixar de transcrever o último post da seção Imprensa em Questão, já que estamos às vésperas da 1ª Confecom, assinado por Alberto Dines, no último dia 08/12/2009.
Um abraço.
Nelma Espíndola, assistente social. E-mail de contato: nelmaespindola@gmail.com
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Imprensa em Questão
AGENDA PARA A CONFECOM
A mídia se ilude e espera modelos mágicos
Por Alberto Dines em 8/12/2009
O barão da mídia anglo-saxônica Rupert Murdoch acredita em contos de fadas: imagina que se os portais de notícias e os mecanismos de busca da internet resolverem cobrar pelo copioso conteúdo que oferecem gratuitamente cairá o número de acessos, aumentará a procura por jornais que os abastecem e, assim, garante-se a sua sobrevivência.
Por outro lado, as telefônicas brasileiras estão esperando mais uma dádiva da divina providência e pressionam governo e legislativo para obter o direito de transmitir a programação da TV por assinatura e rapidamente se transformarem em produtoras de conteúdo. Com isso, poderão oferecer noticiário televisivo por meio de celulares sem depender de concessões, como acontece com o atual sistema de radiodifusão. E como fica a cláusula da isonomia?
Quem garante que o cidadão vai ficar o dia inteiro de olho na telinha do celular para saber o que está acontecendo? E quem gosta da TV para entreter-se – caso da massa de cultores das telenovelas – abrirá mão da telona de alta definição com qualidade de cinema?
Outro grupo de devotos de mágicas, também abrigados sob o manto das operadoras de telefonia, apostam todas as fichas no projeto de grandes jornais virtuais. Fizeram as contas e concluíram que liberados dos custos do papel e da distribuição poderão oferecer na web um produto de alta qualidade jornalística por um quarto do custo de um veículo impresso.
Informação trabalhada
Estas devoções podem se materializar tanto no varejo como no atacado. Mas, por enquanto, são hipóteses, no máximo wishfull thinking. Ninguém garante que o Google transformado em commodity continuará a ser utilizado com a mesma intensidade. Por enquanto é um bônus oferecido gratuitamente pela indústria digital. Seus consumidores estarão dispostos a pagar por aquilo que sempre receberam de graça? E a pirataria vai acabar? A geração de novas tecnologias será de repente estancada? A humanidade está disposta a retroceder e perder o privilégio da informação aberta e universal?
Por outro lado, ninguém garante que os ex-leitores de jornais de repente voltarão a comprá-los para ler as mesmas banalidades e abobrinhas que aparecem na TV aberta. A comparação entre os custos de produção de jornais abertos e seus equivalentes digitais precisa levar em conta que uma equipe produz uma edição impressa por dia, sete dias por semana, enquanto um portal noticioso da internet é contínuo, ininterrupto. Serão necessárias equipes maiores, imensas, não apenas para produzir novas informações, mas para juntá-las e contextualizá-las permanentemente, 24 horas por dia. A não ser que na internet brasileira seja consagrado o atual modelo híbrido no qual o fluxo noticioso é intermitente e limitado, das 8 às 22 horas.
Certo, comprovado e garantido: o cidadão quer informação, e informação de qualidade. Como afirma o veterano Sir Harold Evans em seu recente My Paper Chase, o público primeiro seduz-se com opiniões e truculência, em seguida busca informação trabalhada, investigada, obtida com muita transpiração.
Este mesmo Evans notabilizou-se quando dirigiu o Sunday Times e numa admirável cruzada jornalística enquadrou a indústria farmacêutica britânica, obrigando-a a indenizar as famílias das crianças cujas mães tomaram o medicamento Talidomida durante a gestação.
Bolhas e modismos
Um portal noticioso da internet conseguiria concentrar suas baterias numa cruzada capaz de galvanizar uma sociedade inteira? O propinoduto de Brasília conseguiria causar a mesma repercussão se fosse veiculado apenas na internet ou mesmo na internet+TV aberta?
O jornalismo não foi engendrado nem mantido ao longo de quatro séculos por um "modelo de negócio". Sua gênese está assentada em paradigmas morais e exigências públicas. É um erro ficar à espera de fórmulas messiânicas, salvacionistas, que jamais produzirão qualidade e fidelidade dos consumidores. O que enfraqueceu o jornalismo nas duas últimas décadas foi a sua ligeireza, sua submissão às bolhas, aos modismos e, sobretudo, sua adesão ao oportunismo político.
Eis ai uma agenda para esquentar a 1ª Conferência Nacional de Comunicação. É uma lástima que os empresários não queiram debatê-la.
Ique
Alberto Dines
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta
Verde e Vermelho – Clima e Comunicação, um duplo convite
Depois da socialização pelo Caleidoscópio Baiano, ontem aqui mesmo no Blog M&QS, do que aconteceu em Serra do Padeiro, com os índios Tupinambás, o que concerne à ameaça aos territórios indígenas, temos o cruzamento de dois eventos importantes que acontecem nesse mês de dezembro no Brasil e no Mundo: um é a I Conferência Nacional de Comunicação (ver Agenda Cultural), o outro é a 15a. Conferência de Copenhague, mais conhecida como Conferência do Clima. Portanto, entendemos que esses artigos são interligados e convidamos, assim, os nossos blogonautas a esticarem o olhar até as palavras de nossa colega Claudia Correia.
Enquanto isso, vale dizer que o nome da filósofa Isabelle Stengers vem aqui sancionado por um grupo de intelectuais e militantes na França que tem realizado uma série de debates sobre temas conexos à crise do capitalismo e às possibilidades de saída pela esquerda. Trata-se do Société Louise Michel. Falar deles já valeria um artigo. Planto o desejo, mas colhamos por enquanto aqui no Volta do Mundo as inquietações sugeridas por Stenger, em irreverente fala.
Abraços, Mione Sales.
Abraços, Mione Sales.
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Copenhague - Não dá para confiar no capitalismo verde*
Por ISABELLE STENGERS
A conferência de Copenhague [começou], e ninguém sabe se os governantes responsáveis anunciarão na ocasião do seu desfecho solenes engajementos verbais ou alguns acordos obrigatórios. Seria absurdo afirmar que a indiferença se imponha a este respeito, mas a propósito de um eventual acordo obrigatório, a questão se põe: obrigatório como e para quem? Aqueles que a assinarão não ficaram privados, após os acordos do Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas Alfandegárias e Comércio) e da criação da OMC (Organização Mundial de Comércio), do poder de obrigar o «mercado», a quem foi delegada a carga de assegurar o futuro do mundo? De uma maneira ou de outra, «nossos» dirigentes não são mais responsáveis apenas por nós: visto que mantemos o moral, que nos «responsabilizemos», mas sem, porém, colocar em perigo o crescimento. Eles devem esperar que as empresas capitalistas saberão conjugar a competitividade (a guerra de cada um contra todos) com a preocupação do futuro comum - o que chamamos de «capitalismo verde».
É preciso lembrar, o processo impulsionado e controlado pela OMC vai muito bem. Não somente condena como obstáculo à liberdade de comércio todas as tentativas locais de desertar, de trair os imperativos da guerra econômica (a palavra que mata é «protecionismo»), mas ele constitui, num horizonte insuperável, a colocação sob patente dos saberes científicos e técnicos que, se eles fossem mais do que nunca pertinentes face à ameaça climática, deveriam ser livremente acessíveis, e primeiramente aos países pobres. A criação destes saberes é confiada a uma economia do conhecimento que confere aos interesses industriais a carga de pilotar a pesquisa. Típico é o caso dos biocombustíveis «inovadores», objeto de pesquisas intensas, mas também de uma corrida desenfreada às patentes, apesar dos «pequenos problemas» bastante previsíveis que esta energia dita «verde» vai suscitar. Alternativa infernal: ou bem os biocombustíveis, ou bem o sacrifício do emprego e do crescimento. Continuaremos a andar de carro e outros pagarão o preço.
Não podemos nos fiar na hipótese de que o capitalismo possa reparar os estragos, pelos quais ele é o responsável. Inicialmente, porque confiar no capitalismo é sempre uma má ideia, em seguida porque ele não tem condições de fazê-lo. Ele não está equipado para isso. Destruir é fácil, mas reparar, se reapropriar, reaprender, regenerar - reclaim, dizem os ativistas americanos - é uma outra coisa. Ainda mais quando se trata, como já havia percebido Félix Guattari em seu Três Ecologias, de fazer algo em relação à tripla devastação, que hoje persiste como se não fosse nada. A devastação de toda a Terra, claro. Mas também aquela das capacidades coletivas de criar e de cooperar - assim, o empreendimento sistemático de destruição das solidariedades coletivas, o que produziu o novo «sofrimento do trabalho». Quanto à terceira devastação, trata-se daquela da potência de pensar e de sentir dos indivíduos. A voz que sussurra «porque eu valho bem», um exemplo entre mil, fruto de eficácia de um verdadeiro ataque bruxo, mas o mesmo vale para as injunções que fazem de cada um o pequeno empresário de sua vida, uma vida onde é preciso, incansavelmente, movimentar-se, se reciclar, investir e fazer prosperar seu capital de «atração».
Vivemos tempos um pouco semelhantes ao de guerra, quando « sabíamos », mas fruto de um saber um pouco irreal - tudo parecia continuar como antes, enquanto a situação parecia escorregadia. Este aspecto escorregadio – que não se fale nos «pequenos gestos» que «cada um pode fazer» - é sem dúvida o primeiro problema, aquele que produz um silêncio ensurdecedor - ou então das reivindicações «consensualistas» (um crescimento socialmente justo e ecologicamente sustentável) que dizem a solução sem pesar nem o problema nem suas consequências para hoje. Porque a questão do que é sustentável é bastante diferente da evidência flagrante da injustiça social. Por acaso lembramos que os OGM foram apresentados como a saída para uma agricultura durável? Foi preciso que a contestação tornasse audíveis as objeções usualmente abafadas para que eles fossem reconhecidos como trazendo muito mais que um «crescimento durável» justamente a Monsanto & Cia. Em outros termos, lutar contra o capitalismo verde e resistir aos apelos que virão sob o modo do «é preciso que», solicitando a todos a aceitação dos «sacrifícios necessários» face à urgência climática, exige outra coisa além das reivindicações defensivas e denunciadoras: uma forma de inteligência coletiva, nutrida pelos saberes heterogêneos minoritários, capaz de propor medidas inesperadas e surpreendentes, que façam engasgar os nossos dirigentes, cujos «é preciso que» sejam assim pegos desprevenidos.
Fabricar tais propostas não significa em nada o abandono das reivindicações coletivas tradicionais, mas implica um desafio: aquele de « fazer confiar» naqueles que portam essas reivindicações. Ter confiança, por exemplo, na capacidade deles em defender os direitos do trabalho, opondo-se às políticas de controle, ou seja, de pressão sobre os desempregados. As estratégias de « ativação » dos desempregados fazem parte do que o capitalismo é capaz de fazer ao Estado, a fim de ser ele mesmo o de que tudo depende – o emprego deve permanecer algo fora do qual não há chance de salvação, pois em seu nome se articularão todos os «sabemos bem, mas não se pode sobretudo perturbar o crescimento». A capacidade de resistir ao veneno moralizador opondo o «bom» desempregado, que quer um trabalho, aos «aproveitadores», faz parte desta inteligência coletiva tão necessária hoje. Gilles Deleuze escrevia que, diferentemente da direita, «a esquerda tem necessidade de pessoas que pensem». Nossos dirigentes podem apenas se adaptar a um capitalismo que, verde ou não, não está equipado para pensar, somente para captar as oportunidades que vão se oferecer a ele. Gerar confiança na medida em que «as pessoas» se reapropriem da capacidade de pensar, coletivamente e individualmente, é daqui para frente o que se impõe, se não for o caso de assistir, impotentes, à tripla, e irreversível, devastação do nosso mundo.
A autora, ISABELLE STENGERS é filósofa e professora na Universidade Livre de Bruxelas.
[Último trabalho publicado: «Au temps des catastrophes. Résister à la barbarie qui vient», Coleção les Empêcheurs de penser en rond, Paris, editora la Découverte, 2009.]
* Artigo originalmente publicado pelo jornal Libération, em 30/11/2009, na seção Terre, e traduzido por Mione Sales.
PARA SABER MAIS
http://en.cop15.dk/
http://www.copenhague-2009.com/
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Mione Sales é assistente social, doutora em Sociologia e professora de Serviço Social (Uerj).
E-mail para contato: mionesales@gmail.com.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Editoria Caleidoscópio Baiano
Na contra mão da função social da mídia
Claudia CorreiaHoje abro este espaço de nossa conversa virtual para transcrever uma notícia publicada no site da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional –FASE , www.fase.org.br, que traduz bem a violência da grande mídia contra segmentos vulnerabilizados no Brasil.
Bahia: Tupinambá denunciam boicote midiático
Bahia: Tupinambá denunciam boicote midiático
Mais um caso de preconceito e desinformação abala a dignidade social e política de uma comunidade indígena no Brasil. Desta vez, quem reclama é a comunidade Tupinambá, da Serra do Padeiro, na Bahia. Visitados recentemente por uma equipe da revista Época, prestaram todas as informações requeridas pelos jornalistas, receberam-nos com sua hospitalidade simples mas acolhedora, apresentaram a eles o dia a dia e os reclames da comunidade. O resultado: uma reportagem que, segundo eles, contraria tudo o que disseram aos repórteres da Época. Em solidariedade ao povo Tupinambá, ao qual a Fase Bahia sempre dedicou apoio, republicamos aqui a carta escrita pela própria comunidade neste início de mês. Na carta, eles relatam mais do que o boicote sofrido pela grande mídia. Contam que o povo Tupinambá vive violências de outros tipos, e com conseqüências ainda mais graves do que a calúnia e a difamação. Leia abaixo a carta dos Tupinambá da Serra do Padeiro.
Da Comunidade Serra do Padeiro
Da Comunidade Serra do Padeiro
Para: Sexta Câmara, FUNAI, Ministério da Justiça, Secretária de Justiça do Estado da Bahia, Câmara de Deputados da Bahia, Governo do Estado da Bahia, Comissão Nacional de Direitos Humanos, e demais autoridades.
Para: APOINME, CNPI, CIMI, ANAI, CESE e demais parceiros.
Prezados Senhores;
Vimos, por meio desta, externar toda nossa indignação e revolta com a matéria publicada na revista Época de 23 de novembro de 2009, quando de forma preconceituosa e difamatória tenta retratar a nossa liderança como um Lampião. A repórter Mariana Sanches e o fotógrafo Marcelo Min tiveram a oportunidade de conhecer muito de nossa comunidade, as nossas produções, as nossas casas de farinha, o nosso colégio, as nossas crianças. Tiveram a oportunidade de desfrutar de toda nossa hospitalidade e conhecer muito de nossa luta pelo resgate de nossas terras. Mas, de forma mentirosa, desviaram todas as nossas informações, mudando inclusive muita das informações prestadas.
Apesar de nossa revolta com a matéria da Época, este tipo de atitude da revista não é nenhuma novidade para a comunidade Tupinambá, pois aqui na região os jornais locais, as rádios (em especial as AM), e a televisão, constantemente fazem isto. Nos tratam de forma preconceituosa e difamatória. Por exemplo, o radialista Ribamar Mesquita, da Rádio Jornal de Itabuna, constantemente usa de seu espaço nesta rádio para nos acusar de vários crimes, nos difama e até incita a população regional contra a nossa comunidade. Os jornais Agora e A Região, também de Itabuna, nos tratam de forma preconceituosa nos chamando de falsos índios, publicando sempre matérias contra a nossa comunidade e também colocando a sociedade contra a nossa comunidade. Mas acreditamos que a culpa da não é só deles, pois a nossa comunidade tem feito várias denúncias sobre esta situação. Já vieram várias comissões de Direitos Humanos aqui nas nossas aldeias e estes fatos já foram colocados, e como nada foi feito, eles se sentem fortalecidos e no direito de continuar nos atacando. O sentimento de impunidade, de superioridade e o dinheiro de quem os patrocina fazem com que estas mentiras divulgadas pelos meios de comunicação se tornem quase uma “verdade absoluta”. Outra situação colocada pela matéria é a posição do delegado Cristiano, da Polícia Federal, e o resultado do inquérito que apurava a tortura contra membros da nossa comunidade. Por várias vezes, solicitamos das autoridades que outro delegado viesse acompanhar as investigações. Não fomos atendidos, e portanto não é nenhuma surpresa que o resultado do inquérito foi que os policiais não cometeram nenhum crime. Que outro resultado poderia sair de um inquérito que é conduzido por um delegado que é o coordenador do comando da operação que terminou resultando na prática de tortura? Seria esperar muito que o inquérito apontasse outro resultado, apesar de todas as provas mostrarem que a tortura foi praticada.
Um dado interessante que a revista coloca, e isto demonstra para todos nós os reais interesses que tem por trás de toda esta trama, é a presença de muita gente grande por trás destas ações, como o banqueiro Armínio Fraga, um dos invasores de nosso território. Portanto, desta vez as Organizações Globo, com esta matéria tendenciosa e mentirosa, não está defendendo apenas os interesses dos outros mas também o dela mesmo. Aliás a Globo já mantém esta prática de defender os interesses dos grandes latifundiários, dos banqueiros, dos políticos que a ajudam a se manter no poder contra as pequenas comunidades, há muito tempo.
Diante de tudo isto, de todos estes fatos relatados e dos já conhecidos por todos vocês, vimos mais uma vez solicitar que providências sejam tomadas, mas providências de verdade. Não dá mais para ficar ouvindo promessas, ficar recebendo visitas, sermos ouvidos por muitas autoridades e não sentirmos que as coisas estão andando. Acreditamos que é preciso fazer ainda mais e agilizar a resolução da demarcação de nossas terras. Que haja um esforço ainda maior das autoridades envolvidas nesta questão em esclarecer e resolver esta situação, como por exemplo, o esclarecimento e os encaminhamentos para que os pequenos produtores sejam reassentados, suas benfeitorias sejam indenizadas. Este procedimento pode resultar na retirada de cena de pessoas mal intencionadas que têm usado os pequenos agricultores para realizarem seus interesses políticos, colocando os pequenos agricultores contra a nossa comunidade com o repasse de falsas informações. São estes políticos envolvidos e empresários da região, que viram seus interesses abalados pela nossa ação, que têm financiado toda esta ação contra a nossa comunidade, a própria matéria da revista Época deixa isto muito claro. Eles trazem gente de fora, eles bancam e com certeza devem pagar aos jornais, revistas e radialistas para que nos ataquem. Vale lembrar que a nossa ação feriu os interesses do tráfico de drogas da região, tráfico de animais silvestres, do comércio de madeira ilegal e do agronegócio, e isto tem mexido nos bolsos deles.
Por fim, pedimos a todos: autoridades, parceiros, aliados, sociedade regional, nacional e internacional, não deixem que a história se repita com o mesmo final. Queremos apenas viver e lutar pelos nossos direitos, e em especial pela nossa Mãe Terra. Ela nos pertence. Não permitam que mais uma vez os invasores sejam os vitoriosos nesta história. BASTA DE MASSACRE, DE EXPLORAÇÃO, DE MENTIRA, DE CALÚNIA, DE IMPUNIDADE.
Serra do Padeiro, 1 de dezembro de 2009.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Editoria Volta do Mundo, Mundo dá Volta
« Eu preciso dessas palavras escrita* »
Artur Bispo do Rosário (1909-1989), o autor da frase-poema-manifesto acima, ao longo dos 50 anos em que esteve internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, desfiou tecidos e com a linha coseu, em paciente exercício de criação artística e de autocuidado do seu inconsciente, imagens de animais, plantas, mas especialmente palavras. Coseu com a paciência e perseverança digna de Penélope, à espera de Ulisses em sua Ítaca. Artur Bispo esperava a si próprio e ao mesmo tempo legava à humanidade a revelação da necessidade de expressão que cada homem ou mulher guarda dentro de si. Ele, outrora marinheiro e depois trabalhador doméstico numa residência no Rio de Janeiro, salta dessa condição para um mergulho nos arquétipos e personagens do seu Sergipe natal, figuras míticas com seus fardões e estandartes. Artur Bispo produz assim uma arte entre os muros da instituição hospitalar, uma arte que atravessa tempos e continentes, somando e multiplicando elementos regionais e características universais.
Pensemos aqui em especial sobre o significado de seu apelo quanto ao direito à palavra: oral evidentemente, mas sobretudo o direito à palavra escrita e consequentemente à leitura. O belo e o sublime nessa inscrição é que, no fundo, trata-se mais do que de um apelo; é a manifestação de uma necessidade visceral de expressão, que os homens e a forma como se organizam econômica, política e socialmente não lhe permitiram usufruir no contexto da sua vida útil e disciplinada de trabalhador. A sua sede de comunicação transbordou, levando-o a um paradoxal isolamento, que lhe permitiu dizer muitas coisas e sentimentos ao mundo. Todos os que conheceram a sua obra de perto e leram a sua biografia não têm como deixar de se emocionar pela sua tenacidade e criatividade, que nem chegou a ser alvo - diferentemente do artista plástico Fernando Diniz -, do maravilhoso trabalho terapêutico desenvolvido pela grande Nise da Silveira. Arthur Bispo foi autodidata até no seu tratamento pela arte, que acontecia paralelamente ao trabalho de vanguarda que se desenvolvia também no Rio de Janeiro, dessa vez no Hospital Pedro II.
Aproveito o mote da figura de Artur Bispo do Rosário, cuja obra foi homenageada pelo Conselho Federal de Serviço Social, na edição de 1997 do Código de Ética do Assistente Social, para iniciar uma conversa com um pé na teoria e outro na política. Trata-se da minha descoberta recente de uma autora conhecida de círculos feministas e literários, Gayatri Spivak, que publicou um livro célebre, Podem as subalternas falar? (Can the subaltern speak?, 1988), traduzido recentemente para o francês, pelas edições Amsterdam. Este é um texto impactante e polêmico, mas que faz pensar. No momento, quero, porém, apenas expressar o meu incômodo com a provocadora pergunta de Spivak, cujo texto não constitui uma fala isolada, mas se insere num grupo, os « subaltern studies» com base na Índia e ramificações na Inglaterra, Estados Unidos e mesmo na América Latina.
Certo, Artur Bispo é homem, mas fala, ou melhor, cria e escreve, comunica-se, transcende fronteiras com seu português imperfeito, vide o seu « Eu preciso dessas palavras escrita »*. No entanto, em resposta à pergunta de Spivak acerca dos subalternos, trata-se de algo que, homem ou mulher, não precisam de autorização e se, em estado de dominação, exploração ou falta de liberdade, terminarão por quebrar as correntes e desafiar as sombras da caverna. Assim, fazem-no e têm feito em momentos cruciais da história do Brasil e mundial os movimentos sociais.
Mas quem pode livrá-los da pecha de subalterno(a)s, se ela se inscrever na vida, olhar e corpo de cada um deles? Como muito bem lembrou Olga Arruda, citando Graham Greene, no livro Mídia, Questão Social e Serviço Social (org. Sales e Ruiz, 2009), « palavra não se cura ». Oprimidos ou explorados são condições, estados duradouros ou temporários, ou ainda situações sofridas pelos trabalhadores ou por determinados homens, mas cuja nomeação – no contexto da luta e leitura teórico-crítica dos que preconizam a sua superação - não avilta, nem reforça uma desqualificação ontológica daqueles sujeitos, que intuímos na categoria mobilizada por Spivak. Que o digam a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire ou o Teatro do Oprimido do querido Boal, que fizeram escola e cujas ideias percorreram o mundo. Vão me lembrar que foi o bom e velho Gramsci que no cárcere recorreu à categoria de subalterno. O que somente mostra que ninguém é perfeito. Se ele cunhou a genial expressão « filosofia da praxis” para burlar a censura, ao se referir ao marxismo, não teve a mesma felicidade com o outro termo em substituição ao proletariado. Prefiro, assim, quando ele se refere aos « simples » e aos « de baixo », cuja caracterização não é nada indigna, sobretudo quando o próprio Gramsci lhes atribuía a possibilidade de filosofar - qual o nosso Artur Bispo, o artista plástico paciente da Colônia Juliano Moreira, um complexo e sensível homem do povo, do Brasil do século XX.
Aproveito o ensejo polêmico e catártico para apresentar a quem ainda não conhece o Café Filosófico (TV Cultura) e especialmente a filósofa e poeta Viviane Mosé, que de forma brilhante nos fala sobre « O que pode a palavra »… Fica aqui o nosso agradecimento à colaboração de Graziella Comisso, amiga e interlocutora.
Para ver e saber mais
- « O Bispo ». Série Vídeo-cartas Fernando Gabeira. http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw
- « O Bispo do Rosário ». (Brasil, 1991) http://www.youtube.com/watch?v=3n01GTVVYig&feature=related
- « O Senhor do Labirinto » (Brasil, 2008) http://vimeo.com/6970596
http://www.agencia.se.gov.br/noticias/leitura/materia:8185/filmagens_de_o_senhor_do_labirinto_chegam_ao_fim_em_sergipe.html
Mione Sales é assistente social, professora de Serviço Social (Uerj), doutora em Sociologia e graduada em Literatura Comparada. Contato: mionesales@gmail.com.
Artur Bispo do Rosário
Por Mione Sales
Artur Bispo do Rosário (1909-1989), o autor da frase-poema-manifesto acima, ao longo dos 50 anos em que esteve internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, desfiou tecidos e com a linha coseu, em paciente exercício de criação artística e de autocuidado do seu inconsciente, imagens de animais, plantas, mas especialmente palavras. Coseu com a paciência e perseverança digna de Penélope, à espera de Ulisses em sua Ítaca. Artur Bispo esperava a si próprio e ao mesmo tempo legava à humanidade a revelação da necessidade de expressão que cada homem ou mulher guarda dentro de si. Ele, outrora marinheiro e depois trabalhador doméstico numa residência no Rio de Janeiro, salta dessa condição para um mergulho nos arquétipos e personagens do seu Sergipe natal, figuras míticas com seus fardões e estandartes. Artur Bispo produz assim uma arte entre os muros da instituição hospitalar, uma arte que atravessa tempos e continentes, somando e multiplicando elementos regionais e características universais.
Pensemos aqui em especial sobre o significado de seu apelo quanto ao direito à palavra: oral evidentemente, mas sobretudo o direito à palavra escrita e consequentemente à leitura. O belo e o sublime nessa inscrição é que, no fundo, trata-se mais do que de um apelo; é a manifestação de uma necessidade visceral de expressão, que os homens e a forma como se organizam econômica, política e socialmente não lhe permitiram usufruir no contexto da sua vida útil e disciplinada de trabalhador. A sua sede de comunicação transbordou, levando-o a um paradoxal isolamento, que lhe permitiu dizer muitas coisas e sentimentos ao mundo. Todos os que conheceram a sua obra de perto e leram a sua biografia não têm como deixar de se emocionar pela sua tenacidade e criatividade, que nem chegou a ser alvo - diferentemente do artista plástico Fernando Diniz -, do maravilhoso trabalho terapêutico desenvolvido pela grande Nise da Silveira. Arthur Bispo foi autodidata até no seu tratamento pela arte, que acontecia paralelamente ao trabalho de vanguarda que se desenvolvia também no Rio de Janeiro, dessa vez no Hospital Pedro II.
Aproveito o mote da figura de Artur Bispo do Rosário, cuja obra foi homenageada pelo Conselho Federal de Serviço Social, na edição de 1997 do Código de Ética do Assistente Social, para iniciar uma conversa com um pé na teoria e outro na política. Trata-se da minha descoberta recente de uma autora conhecida de círculos feministas e literários, Gayatri Spivak, que publicou um livro célebre, Podem as subalternas falar? (Can the subaltern speak?, 1988), traduzido recentemente para o francês, pelas edições Amsterdam. Este é um texto impactante e polêmico, mas que faz pensar. No momento, quero, porém, apenas expressar o meu incômodo com a provocadora pergunta de Spivak, cujo texto não constitui uma fala isolada, mas se insere num grupo, os « subaltern studies» com base na Índia e ramificações na Inglaterra, Estados Unidos e mesmo na América Latina.
Certo, Artur Bispo é homem, mas fala, ou melhor, cria e escreve, comunica-se, transcende fronteiras com seu português imperfeito, vide o seu « Eu preciso dessas palavras escrita »*. No entanto, em resposta à pergunta de Spivak acerca dos subalternos, trata-se de algo que, homem ou mulher, não precisam de autorização e se, em estado de dominação, exploração ou falta de liberdade, terminarão por quebrar as correntes e desafiar as sombras da caverna. Assim, fazem-no e têm feito em momentos cruciais da história do Brasil e mundial os movimentos sociais.
Mas quem pode livrá-los da pecha de subalterno(a)s, se ela se inscrever na vida, olhar e corpo de cada um deles? Como muito bem lembrou Olga Arruda, citando Graham Greene, no livro Mídia, Questão Social e Serviço Social (org. Sales e Ruiz, 2009), « palavra não se cura ». Oprimidos ou explorados são condições, estados duradouros ou temporários, ou ainda situações sofridas pelos trabalhadores ou por determinados homens, mas cuja nomeação – no contexto da luta e leitura teórico-crítica dos que preconizam a sua superação - não avilta, nem reforça uma desqualificação ontológica daqueles sujeitos, que intuímos na categoria mobilizada por Spivak. Que o digam a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire ou o Teatro do Oprimido do querido Boal, que fizeram escola e cujas ideias percorreram o mundo. Vão me lembrar que foi o bom e velho Gramsci que no cárcere recorreu à categoria de subalterno. O que somente mostra que ninguém é perfeito. Se ele cunhou a genial expressão « filosofia da praxis” para burlar a censura, ao se referir ao marxismo, não teve a mesma felicidade com o outro termo em substituição ao proletariado. Prefiro, assim, quando ele se refere aos « simples » e aos « de baixo », cuja caracterização não é nada indigna, sobretudo quando o próprio Gramsci lhes atribuía a possibilidade de filosofar - qual o nosso Artur Bispo, o artista plástico paciente da Colônia Juliano Moreira, um complexo e sensível homem do povo, do Brasil do século XX.
Aproveito o ensejo polêmico e catártico para apresentar a quem ainda não conhece o Café Filosófico (TV Cultura) e especialmente a filósofa e poeta Viviane Mosé, que de forma brilhante nos fala sobre « O que pode a palavra »… Fica aqui o nosso agradecimento à colaboração de Graziella Comisso, amiga e interlocutora.
Para ver e saber mais
- « O Bispo ». Série Vídeo-cartas Fernando Gabeira. http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw
- « O Bispo do Rosário ». (Brasil, 1991) http://www.youtube.com/watch?v=3n01GTVVYig&feature=related
- « O Senhor do Labirinto » (Brasil, 2008) http://vimeo.com/6970596
http://www.agencia.se.gov.br/noticias/leitura/materia:8185/filmagens_de_o_senhor_do_labirinto_chegam_ao_fim_em_sergipe.html
Mione Sales é assistente social, professora de Serviço Social (Uerj), doutora em Sociologia e graduada em Literatura Comparada. Contato: mionesales@gmail.com.
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